Irã rejeita cessar-fogo dos EUA e Trump mantém ultimato de ataques
O governo do Irã rejeita, nesta segunda-feira (7/4), a proposta de cessar-fogo apresentada pelos Estados Unidos e mantém o confronto aberto com Washington. Donald Trump responde com novas ameaças de destruir usinas de energia e pontes iranianas caso Teerã não ceda até terça-feira à noite.
Resposta dura de Teerã e ameaça direta de Trump
A agência estatal IRNA divulga que Teerã envia a Washington uma resposta em dez pontos e recusa o cessar-fogo sugerido pelos EUA. O texto exige o fim permanente da guerra, o levantamento das sanções econômicas e garantias para a navegação no Estreito de Ormuz, corredor por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo.
O Irã também cobra um protocolo formal para passagem segura de navios e a reconstrução de infraestrutura atingida em um mês de ataques americanos e israelenses. Ao mesmo tempo, o regime tenta apresentar a iniciativa como sinal de firmeza, não de isolamento, diante da pressão militar e econômica.
Trump reage diante de repórteres na Casa Branca e endurece o tom público. Em entrevista coletiva na tarde desta segunda-feira (6/4), ele chama o Irã de “malvado” e afirma que “o país inteiro pode ser destruído em uma noite, e essa noite pode ser amanhã”. A frase ecoa a escalada verbal iniciada na sexta-feira anterior, quando o presidente define um ultimato para que o Estreito de Ormuz seja reaberto.
No domingo (5/4), Trump prorroga o prazo e diz nas redes que “terça-feira será o Dia da Usina Elétrica e o Dia da Ponte”, reforçando a ameaça de mirar infraestrutura civil essencial. Em nova publicação, ele fixa a data e a hora: “terça-feira, 20h, horário do leste!”. O recado é lido em Teerã como aviso explícito de ataques a usinas de energia, pontes estratégicas e possivelmente portos.
Guerra aérea arriscada e pressão sobre o Estreito de Ormuz
O impasse ocorre em meio a uma campanha aérea intensa dos EUA e de Israel contra alvos militares iranianos desde o início de março. Mesmo após semanas de bombardeios, o Irã consegue abater duas aeronaves de combate americanas e atingir ao menos um helicóptero, contrariando a narrativa da Casa Branca de que Teerã “não tinha mais nenhum equipamento antiaéreo”.
O resgate do segundo piloto de um caça F-15 abatido, em operação de alto risco em território iraniano, alimenta o discurso de vitória de Trump. Ele diz que a ação “prova, mais uma vez, que alcançamos domínio e superioridade aérea esmagadores”. Fontes militares ouvidas por veículos internacionais descrevem, porém, um cenário bem menos controlado, com defesas iranianas ainda capazes de impor custos significativos a qualquer escalada.
Planejadores do Pentágono avaliam há semanas opções de operações aerotransportadas e anfíbias para tomar o principal terminal de exportação de petróleo do Irã, na Ilha de Kharg, e outros pontos do Golfo. Os cenários incluem tentativa de apreender urânio altamente enriquecido em instalações subterrâneas. As ações, classificadas como extremamente complexas, exporiam soldados dos EUA a sistemas portáteis de defesa aérea, os chamados Manpads, mais letais contra aeronaves em baixa altitude.
Ao mesmo tempo, a mesma missão que resgata os pilotos mostra a capacidade americana de montar um aeródromo avançado e um ponto de reabastecimento dentro do Irã, manter a estrutura por horas e retirar as tropas em seguida. O feito militar alimenta a pressão de aliados internos para que Trump autorize passos mais ousados, com a promessa de uma vitória rápida e um sinal de força ao mundo.
Em Washington, analistas veem contradição na mensagem do presidente. No fim de semana, ele afirma em ligações a repórteres acreditar que um “acordo” com o Irã está próximo. Em discursos anteriores, como o pronunciamento de 1º de abril, chega a sugerir que poderia “deixar” o país, mesmo sem um entendimento formal. O ultimato renovado e a ameaça direta à infraestrutura civil indicam, porém, uma guinada em direção à escalada.
Risco de bloqueio, impacto global e incerteza diplomática
A disputa em torno do Estreito de Ormuz preocupa governos e mercados desde o primeiro disparo. A via marítima, com cerca de 40 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito, concentra boa parte das exportações de petróleo da Arábia Saudita, do Iraque, do Kuwait, do Catar e do próprio Irã. Qualquer bloqueio prolongado teria efeito imediato sobre o preço da energia e o custo do transporte global.
O barril de petróleo já reage nas últimas semanas, com altas sucessivas desde o início da guerra. Investidores passam a precificar um cenário em que ataques a usinas e pontes iranianas, como promete Trump, provoquem interrupções no fornecimento, danos duradouros à infraestrutura de exportação e risco de acidentes ambientais. Organizações de direitos humanos alertam para possíveis crimes de guerra, caso os EUA avancem sobre redes elétricas, barragens e rotas civis.
No Irã, a população sente o peso combinado das sanções, que se arrastam há anos, e da guerra recente. Moradores relatam dificuldade para comprar alimentos básicos e medicamentos, enquanto o governo tenta sustentar a narrativa de resistência. A recusa do cessar-fogo, acompanhada de exigências amplas como reconstrução financiada por adversários e retirada total das sanções, busca evitar a imagem de rendição em meio à crise interna.
Nos Estados Unidos, o resgate dos pilotos funciona como símbolo de coesão em torno das Forças Armadas e de cumprimento do credo militar de não abandonar soldados em campo inimigo. Até apoiadores históricos de Trump, porém, demonstram desconforto com a perspectiva de uma guerra longa, cara e de resultado incerto, que poderia custar dezenas ou centenas de vidas americanas, além de bilhões de dólares em operações no Oriente Médio.
Governos europeus, a ONU e potências asiáticas intensificam contatos discretos com Washington e Teerã em busca de uma saída que evite um ataque direto à rede energética iraniana. A preocupação imediata recai sobre os próximos dois dias, prazo indicado publicamente por Trump. Se o ultimato terminar em novas bombas sobre usinas e pontes, o conflito pode entrar em fase muito mais destrutiva, com desdobramentos humanitários e econômicos difíceis de controlar.
Diplomatas envolvidos nas conversas reservadas admitem que nenhuma das partes parece pronta para concessões amplas neste momento. O Irã exige garantias permanentes e alívio real das sanções; os EUA querem a reabertura do Estreito de Ormuz sob condições que reforcem a imagem de vitória da Casa Branca. Até que uma dessas posições ceda, a pergunta que orienta chancelerias e mercados é se a retórica de ultimato de Trump termina em acordo de última hora ou em mais uma noite de ataques no Golfo.
