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Incêndio criminoso destrói biblioteca comunitária em BH

Um incêndio atinge e destrói grande parte da biblioteca comunitária Casa dos Saberes, no Jardim América, Região Oeste de Belo Horizonte, na noite de sábado (28). Dois homens são suspeitos de provocar as chamas e fogem a pé. A Polícia Civil investiga o caso como possível crime.

Biblioteca referência do bairro vira escombros em minutos

A Casa dos Saberes amanhece neste domingo reduzida a destroços de metal, madeira queimada e páginas encharcadas. O espaço, montado em um trailer com banca de livros anexa, funciona há anos como ponto de encontro de estudantes, crianças e moradores do Jardim América. Em poucos minutos de fogo, o que era referência de cultura na região vira um cenário de destruição.

O incêndio começa por volta do fim da noite. De acordo com informações repassadas ao Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG), dois homens ateiam fogo no trailer e saem correndo em direção à avenida Silva Lobo, uma das principais vias da Região Oeste. Quando as viaturas chegam, as chamas já avançam pela estrutura metálica e pelas prateleiras de livros.

O responsável pelo espaço, que costuma dormir no local para evitar furtos e vandalismo, relata aos militares que se afasta por cerca de 10 minutos. Ao voltar, encontra o fogo alto, fumaça densa e moradores tentando, em vão, conter as chamas com baldes de água. Ele não arrisca uma hipótese sobre a motivação do ataque e diz apenas que “não sabe o que pode ter acontecido”.

As equipes do CBMMG montam o ataque ao fogo em duas frentes: uma linha de mangueira focada no trailer, outra na banca de livros parcialmente atingida. Populares cercam a área, alguns choram ao ver o acervo ser consumido. A cada jato de água, capas derretem, lombadas se partem, estantes cedem. A cena contrasta com o cotidiano do espaço, acostumado a receber rodas de leitura, reforço escolar e oficinas de contação de histórias.

Danos vão da rede elétrica ao vazio cultural no bairro

O fogo não fica restrito aos livros. As chamas alcançam fiações de telefonia e parte da rede elétrica da rua, o que obriga os bombeiros a isolar a área e suspender a energia em trechos do quarteirão. A Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) é acionada para fazer o corte emergencial e, depois, avaliar a extensão dos danos. Uma árvore próxima também é atingida, com galhos chamuscados e risco de queda de partes mais frágeis.

Segundo o tenente Rodolfo Finamor, do Corpo de Bombeiros, quando as equipes chegam o fogo já domina o coração da biblioteca. “Quando a gente chegou no local, tinham muitos populares em volta, porque é uma estrutura muito conhecida aqui na região. O fogo já estava concentrado no trailer e na banca de livros”, relata. Ele explica que o combate leva dezenas de minutos até que os focos sejam controlados e a área, resfriada.

Grande parte da estrutura é perdida. Prateleiras improvisadas, mesas de estudo, cadeiras doadas por moradores e boa parte do acervo, montado ao longo de anos com campanhas e doações, viram cinzas. Não há, até o momento, um levantamento oficial do número de títulos destruídos, mas frequentadores estimam que mais de 70% dos livros não resistem. O prejuízo é difícil de medir apenas em números.

A Casa dos Saberes cumpre um papel que vai além do empréstimo de obras literárias. Em um bairro marcado por ruas comerciais e prédios antigos, o espaço oferece acesso gratuito à leitura, apoio a alunos da rede pública, encontros de jovens e atividades para crianças em período de férias. A perda interrompe essa rotina de forma abrupta, justamente na véspera da Semana Santa, quando a biblioteca costuma organizar programações especiais para o público infantil.

Moradores relatam que, em horários de pico, cerca de 30 crianças circulam pelo espaço em uma única tarde. Professores da região indicam o endereço para alunos que não têm livros em casa nem conexão estável com a internet. Com o incêndio, esse ponto de apoio some da noite para o dia e deixa um vazio cultural e educacional em um raio de vários quarteirões.

Investigação busca autores e motivo do ataque à Casa dos Saberes

Os bombeiros realizam uma vistoria administrativa para registrar as condições do local e afastar riscos imediatos, como queda de estruturas comprometidas. A apuração sobre a origem do fogo, porém, fica a cargo da Polícia Civil. “O Corpo de Bombeiros realiza uma vistoria administrativa, mas quem investiga possíveis crimes é a Polícia Civil”, reforça o tenente Finamor, ao lembrar que só a perícia pode confirmar se o incêndio é, de fato, criminoso.

Até o início da manhã deste domingo, não há suspeitos detidos. A informação de que dois homens colocam fogo no trailer e fogem a pé ainda depende de confirmação formal, já que, quando os militares chegam, não encontram testemunhas dispostas a prestar depoimento no local. Imagens de câmeras de segurança de comércios próximos e de prédios residenciais devem ser analisadas nos próximos dias para tentar identificar a dupla e traçar a rota de fuga em direção à avenida Silva Lobo.

A ocorrência reacende a preocupação com a segurança de equipamentos culturais de pequeno porte em Belo Horizonte. Espaços como a Casa dos Saberes costumam operar com orçamento apertado, dependem de voluntariado e nem sempre contam com sistemas de vigilância ou seguro contra incêndio. A destruição do trailer e da banca expõe essa vulnerabilidade e pressiona o poder público local e estadual a discutir políticas específicas de proteção e apoio.

Horas depois, o Corpo de Bombeiros é acionado para outro incêndio na Região Oeste, desta vez em vegetação sob o viaduto Ulisses Guimarães, na avenida Barão Homem de Melo, no bairro Nova Suíça. As chamas atingem a estrutura do viaduto e exigem nova mobilização de equipes. As causas desse segundo foco também serão investigadas, o que aumenta a atenção das autoridades para possíveis ações criminosas em sequência na cidade.

Moradores do Jardim América começam a se articular para tentar reconstruir o espaço. A expectativa é que campanhas de doação de livros, mobiliário e recursos financeiros sejam organizadas nas próximas semanas. A velocidade dessa resposta comunitária, porém, depende do avanço da perícia, da liberação da área e de eventuais medidas de segurança que venham a ser exigidas. Enquanto a investigação busca autores e motivos para o ataque, a principal pergunta para quem vive no bairro é quanto tempo levará até que a Casa dos Saberes volte a abrir as portas, se voltar.

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