Lula mantém apoio a Bachelet na ONU após recuo do Chile
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirma, nesta sexta-feira (28), o apoio do Brasil à candidatura de Michelle Bachelet para chefiar a ONU, apesar do recuo do Chile. A posição contraria a guinada diplomática do novo governo chileno e expõe uma disputa política em torno da sucessão na Secretaria-Geral das Nações Unidas.
Lula isola recuo chileno e mira liderança diplomática
Lula insiste no apoio à ex-presidente chilena em um momento em que a corrida pela Secretaria-Geral da ONU ganha força nos bastidores de capitais em todos os continentes. O governo de direita em Santiago, empossado neste ano, decide retirar o endosso formal à compatriota e tenta reposicionar o país em alianças conservadoras, mas encontra resistência em Brasília.
Ao defender Bachelet, Lula ressalta o currículo da ex-chefe de Estado e ex-alta comissária de Direitos Humanos da ONU, que ocupou o cargo entre 2018 e 2022. “O mundo precisa de lideranças com experiência real em direitos humanos, em reconstrução democrática e em combate à desigualdade”, afirma, segundo auxiliares do Planalto. Para o presidente, a escolha do próximo secretário-geral não deve virar refém de mudanças internas em governos nacionais a cada ciclo eleitoral.
A disputa pela sucessão na ONU ainda não tem data oficial para votação, mas diplomatas falam em um calendário que se desenha para os próximos 18 a 24 meses, com negociações intensas entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança e blocos regionais. Nesse tabuleiro, o Brasil tenta equilibrar proximidade com países em desenvolvimento, presença mais ativa em fóruns multilaterais e diálogo com potências tradicionais, em especial Estados Unidos, China e União Europeia.
No Itamaraty, o gesto é tratado como uma demonstração de autonomia da política externa brasileira em relação a mudanças de ventos ideológicos na região. Ao manter o apoio mesmo após a guinada chilena, Lula sinaliza que o Brasil pretende mirar critérios de mérito e experiência internacional, e não apenas afinidades partidárias conjunturais. A leitura entre diplomatas é que o recuo do Chile fragiliza Bachelet em casa, mas pode reforçar o discurso de que ela é vítima de disputa interna e, por isso, mais independente.
Disputa na ONU expõe divergências na América do Sul
A decisão brasileira ocorre em um momento em que a América do Sul tenta recompor espaços de influência em organismos internacionais, após quase uma década de instabilidade política, crises econômicas e alternância brusca de governos. Desde 2016, a região perde cadeiras em organismos estratégicos e vê candidatos de outros continentes avançarem em postos-chave da ONU, do Banco Mundial e do FMI.
Bachelet, de 74 anos, ex-médica, ex-presa política da ditadura chilena e duas vezes presidente de seu país, é vista em chancelerias como um nome com trajetória consolidada em direitos humanos, igualdade de gênero e governança democrática. Sua passagem de quatro anos pela chefia do Alto Comissariado de Direitos Humanos, em Genebra, é considerada um trunfo diante da pressão por maior transparência em missões de paz e relatórios sobre conflitos armados.
O recuo do Chile, porém, expõe rachaduras internas e reposiciona o país em um alinhamento mais próximo a governos conservadores na América Latina e fora dela. Para analistas ouvidos por diplomatas brasileiros, o movimento busca aproximar Santiago de candidaturas alternativas, possivelmente ligadas a países europeus ou a um nome apoiado por Washington. O gesto abre espaço para que o Brasil se apresente como patrocinador principal da candidatura de Bachelet na região.
Na prática, o apoio brasileiro não garante votos, mas ajuda a construir uma rede de influência que passa por grupos como o G20, o BRICS ampliado e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Desde o retorno ao poder, em 2023, Lula participa de pelo menos uma dezena de cúpulas internacionais por ano e usa esses encontros para defender maior equilíbrio geopolítico na ONU, com mais voz para o Sul Global. O Palácio do Planalto avalia que a presença de uma ex-presidente sul-americana à frente da organização reforçaria esse argumento.
Interlocutores do governo brasileiro lembram que a disputa pelo comando da ONU sempre envolve negociações cruzadas, que vão de resoluções sobre mudanças climáticas a indicações para órgãos técnicos. A permanência do apoio a Bachelet, mesmo sob pressão, é vista como um teste da capacidade do Brasil de sustentar posições de longo prazo sem recuar diante de realinhamentos de curto prazo em vizinhos estratégicos.
O que está em jogo e os próximos movimentos
O futuro da candidatura de Bachelet depende de dois movimentos paralelos: a construção de um bloco sólido de apoio entre países em desenvolvimento e a aceitação tácita, ou ao menos a neutralidade, das grandes potências. O cálculo em Brasília é que um nome com histórico forte em direitos humanos e diálogo multilateral tem mais chances de ser visto como ponte entre interesses conflitantes do que como representante de um campo ideológico específico.
O apoio brasileiro também pode afetar negociações futuras com o Chile em temas como comércio, integração energética e cooperação na pauta ambiental, especialmente na COP e em fóruns sobre descarbonização. Ao se afastar de Bachelet, o governo de direita em Santiago envia um sinal a aliados conservadores, mas corre o risco de reduzir o protagonismo histórico do país na diplomacia regional. O Brasil, por sua vez, arrisca atritos pontuais, mas aposta em consolidar a imagem de ator previsível e comprometido com critérios técnicos em organismos multilaterais.
Diplomatas calculam que os próximos 12 meses serão decisivos para testar essa estratégia. Caberá ao Itamaraty transformar o gesto político de Lula em articulação concreta, com viagens, reuniões bilaterais e construção paciente de consenso em blocos como União Africana, Liga Árabe e países asiáticos. A leitura é que a corrida pela Secretaria-Geral da ONU se torna cada vez mais politizada e fragmentada, com maior pressão doméstica sobre líderes que apoiam nomes estrangeiros.
O desfecho da disputa dirá até que ponto a região ainda é capaz de se unir em torno de um nome comum para um dos cargos mais visíveis do sistema multilateral. Se Bachelet avançar, o Brasil deve reivindicar parte do crédito político. Se a candidatura naufragar, ficará a pergunta sobre quem ocupará o espaço e que tipo de liderança a ONU estará disposta a aceitar em um mundo mais tenso, desigual e desconfiado das próprias instituições.
