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Justiça inglesa intervém na Eagle e abre caminho para venda do Botafogo

A Justiça da Inglaterra intervém na Eagle Bidco, empresa que controla 90% da SAF Botafogo, em 27 de março de 2026, e entrega o comando à administradora Cork Gully. A medida mira as dívidas de John Textor e abre a possibilidade de venda do clube carioca para pagamento de credores internacionais.

Intervenção atinge o coração da SAF alvinegra

A decisão judicial recai sobre a Eagle Bidco, companhia ligada ao empresário americano John Textor e dona da fatia majoritária da SAF Botafogo desde 2022. A partir de agora, quem manda na empresa é a Cork Gully, especializada em reestruturação, nomeada pela Justiça para tentar salvar o grupo pressionado por inadimplência reiterada.

O movimento parte de credores internacionais, entre eles a Ares Capital Corporation e a Iconic, que já vinham travando uma disputa dura com Textor. Eles acusam o dirigente de atrasar mais de dez pagamentos previstos, ignorar prazos contratuais e descumprir obrigações regulatórias, cenário que levou ao pedido de intervenção depois de meses de negociações sem acordo.

Crise financeira expõe limite do projeto multiclubes

A Eagle concentra os ativos de futebol de Textor, incluindo Botafogo, Olympique Lyonnais, da França, e RWDM Brussels, da Bélgica. No anúncio da intervenção, a Cork Gully afirma que tentará manter esses clubes operando como negócios em continuidade, evitando uma liquidação imediata. No entanto, deixa claro que pode vender os ativos, entre eles o Botafogo, se isso for necessário para pagar credores.

“Seu objetivo principal é resgatar a Eagle Bidco como uma empresa em continuidade. Se isso não for possível, buscará um resultado melhor para os credores. Na falha de ambos, os administradores buscarão realizar os ativos da empresa em benefício dos credores”, informa o comunicado da administradora, em linguagem jurídica que, na prática, autoriza a venda de clubes caso a reestruturação fracasse.

No curto prazo, o torcedor alvinegro não vê mudança na rotina. A SAF Botafogo segue fora de qualquer processo de insolvência ou recuperação judicial, mantém calendário de jogos, salários em dia e estrutura de comando esportivo intacta. O impacto imediato é societário, distante do vestiário, mas posicionado no topo da cadeia de controle.

No médio prazo, porém, o cenário é mais incerto. Se a Cork Gully concluir que a Eagle não tem como se manter viável e que a melhor solução é vender ativos, o Botafogo pode ser colocado no mercado global. Nesse caso, a negociação serviria para reduzir o passivo acumulado por Textor junto a fundos como Ares e Iconic, que aportaram centenas de milhões de dólares no projeto de expansão do executivo.

Texto em rota de colisão com credores

Textor reage com dureza. Em nota, a Eagle Football acusa a Ares de agir de forma “unilateral e predatória” e de tentar desmontar um negócio multiclubes que, segundo o grupo, passa a gerar caixa positivo a partir de 2026. O empresário afirma que transformou clubes insolventes em “histórias de sucesso esportivo” e que a crise atual decorre de manobras do próprio credor.

“Hoje, a Ares argumentou que diversos eventos técnicos de inadimplência — que eles próprios causaram diretamente — levaram à decisão de assumir o controle quando, na verdade, tomaram secretamente o controle do nosso clube francês, o Olympique Lyonnais, em junho de 2025, por meio da criação de um ‘conselho sombra'”, afirma a Eagle Football. A nota sustenta que a medida violaria legislações da França e do Reino Unido e teria sido escondida de acionistas.

Na mesma manifestação, a Eagle diz esperar trabalhar com a Cork Gully para responsabilizar a Ares por supostas “violações da lei” e para recuperar o controle do negócio. Ao mesmo tempo, tenta tranquilizar torcedores e funcionários do Botafogo ao afirmar que a chegada da administradora não altera a governança do clube.

“A entrada da Cork Gully não altera de forma alguma a estrutura de governança da SAF Botafogo, que continua sendo administrada por seu atual conselho de administração, liderado por John Textor”, diz o comunicado. O executivo segue também na liderança da Eagle Football Holdings Midco, empresa que controla a Eagle Football Holdings Bidco, em mais um degrau da complexa estrutura societária criada para sustentar o projeto multiclubes.

Botafogo observa e começa a desenhar plano sem Textor

No Brasil, o clube social Botafogo acompanha a movimentação à distância, mas não fica parado. A diretoria evita declarações públicas neste momento, para não alimentar ainda mais a incerteza. Nos bastidores, dirigentes já discutem cenários para um futuro sem Textor à frente da SAF, em caso de venda forçada ou de ruptura com os credores.

O modelo de Sociedade Anônima do Futebol, adotado pelo Botafogo em 2022 em meio à crise financeira histórica, previa justamente a entrada de um investidor capaz de assumir dívidas e injetar capital. A intervenção na Eagle expõe o outro lado desse arranjo: quando o investidor entra em colisão com seus financiadores, o clube se vê preso a uma disputa internacional que não controla.

As próximas semanas serão decisivas para o desenho desse tabuleiro. A Cork Gully inicia uma revisão minuciosa das contas e contratos da Eagle, ouvindo credores, executivos e demais acionistas. A lei britânica obriga o administrador a considerar os interesses de todos os envolvidos, não apenas de quem emprestou dinheiro. Entre esses interesses está a continuidade esportiva de Botafogo, Lyon e RWDM Brussels.

Enquanto o time entra em campo e a temporada segue o calendário da CBF, o futuro societário da SAF se decide em Londres. A pergunta que paira sobre General Severiano é se o clube chegará a 2027 ainda sob o controle de John Textor ou se o Botafogo se tornará, mais uma vez, alvo de disputa no mercado, como ativo em um processo de cobrança que extrapola o gramado.

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