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Novo reitor da UFMG aposta em campus em Betim e centenário para aproximar sociedade

O novo reitor da UFMG, Alessandro Fernandes Moreira, inicia a gestão em março de 2026 com uma agenda que combina expansão física, redesenho acadêmico e defesa da permanência estudantil. À frente da universidade até 2030, ele planeja o centenário de 2027 enquanto articula o novo campus em Betim e cobra mais recursos para sustentar alunos vulneráveis.

Gestão mira sociedade e centenário de 2027

Alessandro Moreira assume a reitoria em um momento de recomposição orçamentária, mas ainda distante do que considera adequado. Ele fala em um cenário “melhor do que na pandemia”, porém “ainda crítico”, sobretudo nas políticas de apoio aos estudantes. Nesse contexto, desenha uma gestão que tenta aproximar a UFMG da sociedade e usar o centenário da instituição como vitrine dessa estratégia.

As comemorações dos 100 anos, a serem celebrados em 7 de setembro de 2027, vêm sendo planejadas com antecedência. A universidade já promove ciclos de palestras e seminários e homenageia 50 ex-alunos de destaque no hall da Reitoria. “O objetivo é mostrar que a universidade é da sociedade. De Belo Horizonte, do estado de Minas, do Brasil”, afirma o reitor. Ele repete que quer transformar a data em “uma festa da população de Belo Horizonte e de Minas” e reforçar o papel da universidade pública no desenvolvimento social e econômico do país.

A agenda simbólica dialoga com um esforço interno para mudar a forma de ensinar. Moreira insiste em formações transversais, ou seja, trajetórias acadêmicas que cruzam fronteiras tradicionais entre cursos e áreas. A ideia é montar conjuntos coerentes de disciplinas que unam, por exemplo, inovação, empreendedorismo, diversidade, sexualidade, acessibilidade e inclusão. “Queremos trabalhar isso na graduação, na pós-graduação e com a sociedade. É um grande desafio”, diz.

O reitor cita a mobilidade em Belo Horizonte como exemplo do tipo de problema que exige esse olhar mais amplo. Na avaliação dele, desafios urbanos complexos, com muitas variáveis, pedem soluções que reúnam engenheiros, economistas, urbanistas, profissionais de saúde e cientistas sociais no mesmo projeto. A aposta é que essa transversalidade ajude a universidade a responder de forma mais direta às demandas concretas da população.

Permanência estudantil no centro e novo campus em Betim

Enquanto redesenha formações, Moreira tenta blindar o elo mais frágil da cadeia: o estudante que chega à universidade, mas corre risco de abandoná-la. A UFMG mantém há anos uma política robusta de permanência, ancorada na Fundação Universitária Mendes Pimentel, com moradia universitária, auxílio-moradia, restaurante, apoio para material acadêmico e assistência em saúde e odontologia. “O que falta é o dinheiro”, resume o reitor.

Ele defende uma “permanência qualificada”, que vá além do auxílio financeiro. A estratégia passa por incluir o aluno como protagonista de sua própria formação, com mais espaço em projetos pedagógicos, pesquisa e extensão. “Quando trazemos o estudante para que também seja agente do seu processo formativo, o incluímos. Fazemos o pertencimento”, afirma. A aposta é que esse sentimento de pertencimento reduza evasão e fortaleça vínculos com a instituição.

O debate sobre abandono de curso, porém, é mais complexo do que as estatísticas sugerem. Moreira lembra que há forte mobilidade interna, com alunos que migram de uma graduação para outra até encontrar a área certa. Por isso, a universidade estuda criar “troncos comuns”, com uma base inicial de formação em grandes áreas. O estudante ingressa em um núcleo amplo e só depois escolhe a especialidade, o que pode reduzir decisões precipitadas e a frustração com cursos escolhidos sob pressão.

As discussões sobre permanência ganham peso extra com o anúncio, pelo Ministério da Educação, de R$ 400 milhões adicionais para as universidades federais em 2026. A distribuição se dará por editais temáticos, em áreas como inteligência artificial, inovação, empreendedorismo, cuidado a estudantes que são pais ou mães solo e projetos de extensão. A única exceção é a verba de permanência estudantil, que chega como recurso orçamentário direto, sem concorrência por projetos. A UFMG ainda não sabe quanto receberá, já que os repasses dependem de chamadas específicas.

Em paralelo às disputas por orçamento, a instituição se prepara para sair de seus limites físicos atuais. A UFMG avança nas tratativas para instalar um novo campus em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, após provocação da prefeitura e demanda formal do MEC. O desenho prevê que a cidade banque a infraestrutura, o governo federal libere recursos e vagas e a universidade cuide do projeto acadêmico.

O endereço indicado é o antigo Clube dos Metalúrgicos, conhecido como Fiat Clube, com ginásio para mais de 5 mil pessoas, salão de eventos para 2 mil, quadras, piscinas e prédios adaptáveis para salas e laboratórios. A proposta inicial é oferecer cursos nas áreas de tecnologia e esportes. “Vejo com muito bons olhos, acho uma grande oportunidade”, diz Moreira. Se o cronograma se confirma, as primeiras vagas podem ser abertas em 2028.

O movimento complementa a mudança no processo de ingresso. O reitor avalia como “grande sucesso” o primeiro ano do processo seletivo seriado, com baixa desistência entre inscritos e perspectiva de aumento no número de candidatos. A universidade discute ampliar a aplicação das provas para mais cidades de Minas, o que pode aliviar custos de deslocamento de estudantes e dialoga diretamente com as políticas de permanência.

Pressão orçamentária, vacinas e dilemas internos

A aparente bonança de novos projetos convive com decisões difíceis. No Parque Tecnológico de Belo Horizonte, a primeira etapa das obras do Centro Nacional de Vacinas está inaugurada. A expectativa de Moreira é que o complexo esteja concluído em um ano a um ano e meio. Os trâmites da SpiN-Tec, vacina desenvolvida na UFMG contra a covid-19, avançam na Anvisa. Ele projeta um cenário otimista em que, em 2028, a tecnologia esteja disponível “no nosso braço”.

Ao mesmo tempo, a universidade enfrenta disputas sensíveis dentro de casa. Uma das mais delicadas envolve o possível fim do ensino em tempo integral no Centro Pedagógico, colégio de aplicação da UFMG e referência na educação básica. A medida preocupa famílias e é alvo de reunião marcada para abril. O reitor evita posições categóricas e insiste que “nada foi decidido”.

Moreira argumenta que a responsabilidade central da universidade é com a qualidade dos cursos que oferece, o que inclui o colégio. Ele cita dificuldades orçamentárias, falta de profissionais de apoio e desafios para garantir inclusão de alunos com deficiência. Lembra que o ensino integral nasceu como projeto-piloto, que deveria ter sido avaliado anos atrás. Uma comissão interna já apresentou um direcionamento, e agora o tema está nas mãos do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão, que dará a palavra final.

Outro ponto sensível é o funcionamento do restaurante universitário nos fins de semana, tema recorrente entre estudantes que moram na região ou em moradias estudantis. O reitor reconhece a demanda, mas revela uma conta difícil de fechar: quanto menor o número de refeições servidas, maior o custo unitário. O público potencial, estima, é de 2 mil a 3 mil pessoas. “Isso pressupõe, talvez, uma política orçamentária de que não vamos dar conta”, admite. A instituição estuda alternativas de alimentação para esses dias, mas ainda sem solução definida.

No horizonte imediato, a gestão combina ambição e cautela. A UFMG tenta consolidar um orçamento menos instável, ampliar sua presença territorial com o campus de Betim e concluir o Centro Nacional de Vacinas, enquanto redefine seus próprios modelos de formação e acolhimento. O centenário de 2027 aparece como marco simbólico dessa travessia. A pergunta que acompanha cada decisão é se a universidade conseguirá, com recursos limitados, manter a promessa que o novo reitor repete desde a posse: ser, de fato, uma instituição de todos.

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