Trump chama Otan de “tigre de papel” e cobra apoio na crise com o Irã
Donald Trump volta a atacar a Otan e chama a aliança militar de “tigre de papel” durante reunião de gabinete na Casa Branca, em 26 de março de 2026. O ex-presidente acusa os aliados europeus de falta de apoio concreto na guerra contra o Irã e ameaça repensar o papel dos Estados Unidos na organização.
Críticas públicas à aliança em meio à guerra com o Irã
Trump fala a ministros e assessores em uma sala lotada na Ala Oeste quando decide mirar na aliança que, por 75 anos, simboliza o eixo militar do Ocidente. Em tom cortante, afirma que sempre viu a Otan como um “tigre de papel”, expressão usada para descrever algo que parece forte, mas é incapaz de reagir.
O ataque verbal acontece em meio à escalada da guerra contra o Irã e às tensões no Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo. Na visão de Trump, a ausência de resposta rápida dos aliados à ofensiva americana expõe um desequilíbrio antigo na aliança.
“Nós iremos em seu socorro, mas eles nunca virão em nosso socorro”, diz o republicano, olhando para as câmeras que registram o início da reunião. Ele acusa os parceiros europeus de não enviarem navios, caças ou contingentes significativos quando Washington pede ajuda para garantir a segurança dos comboios que cruzam o Golfo Pérsico.
Trump insiste que convidou “vários aliados” a despachar embarcações militares para o Estreito de Ormuz logo nas primeiras semanas dos combates com o Irã, ainda no fim de 2025. Segundo ele, algumas capitais da Otan só sinalizam disposição de atuar quando a fase mais intensa das operações já está perto do fim. “Alguns só apareceram quando a coisa já estava praticamente resolvida”, afirma.
Pressão sobre gastos militares e papel dos EUA na Otan
O alvo não é apenas a ausência de navios no Golfo. Trump retoma uma queixa que marca seus quatro anos de governo, entre 2017 e 2021: o volume de gastos europeus em defesa. Ele lembra o compromisso assumido em 2014 pelos 32 membros da Otan de investir ao menos 2% do PIB em gastos militares até 2024 e insiste que “muitos ainda não chegaram lá”.
Os Estados Unidos, que destinam há anos mais de 3,5% do PIB ao orçamento das Forças Armadas, bancam cerca de 70% das despesas militares conjuntas da aliança. Na leitura de Trump, esse desequilíbrio se torna insustentável quando, em cenários de guerra, Washington não vê reciprocidade. “Os Estados Unidos protegem a Europa, inclusive contra a Rússia, e não recebem apoio em troca”, afirma.
Ele acusa a Otan de ter feito “absolutamente nada” para ajudar os EUA diante do Irã. Classifica a recusa inicial da aliança em participar diretamente da campanha militar como “erro muito tolo” e sugere que o episódio deveria levar Washington a “repensar seriamente” a própria permanência no bloco. A declaração mexe com o coração da arquitetura de segurança do Atlântico Norte, baseada na cláusula de defesa mútua do Artigo 5º.
As críticas acendem o alerta em capitais europeias que, desde o início da crise com Teerã, tentam equilibrar apoio político a Washington e temor de uma guerra prolongada no Oriente Médio. Nos bastidores, diplomatas da Otan argumentam que a aliança atua de forma coordenada em inteligência, vigilância aérea e proteção de infraestrutura crítica, mesmo sem uma operação naval formal no Estreito de Ormuz. Trump descarta esse tipo de explicação como “gesto simbólico”.
O discurso ocorre enquanto governos discutem novos pacotes de investimento em defesa. Países como Alemanha e Itália prometem chegar à meta de 2% até 2027, sob intensa pressão americana. As palavras de Trump, porém, lançam dúvida sobre se a elevação dos orçamentos bastará para satisfazer a expectativa de Washington de ver mais navios, aviões e tropas europeias em operações reais.
Risco para a coesão da Otan e incerteza no Estreito de Ormuz
O impacto imediato das declarações recai sobre a coesão política da Otan. Em meio a uma guerra que já deixa milhares de mortos no Irã e pressão sobre o fluxo de petróleo desde o fim de 2025, a imagem de uma aliança dividida interessa diretamente a Teerã e a Moscou. Quanto mais pública a fissura, mais espaço ganham narrativas de que o guarda-chuva de segurança ocidental estaria enfraquecido.
Especialistas em segurança veem risco de desgaste cumulativo. Se Washington, que responde por quase 330 milhões de habitantes e o maior orçamento militar do planeta, questiona a utilidade da Otan sempre que se sente sozinho em um conflito, aliados menores podem hesitar antes de se comprometer com missões arriscadas. A sensação de que o Artigo 5º se torna condicional preocupa países do Leste Europeu, na linha de frente diante da Rússia.
A fala de Trump chega num momento em que o Estreito de Ormuz vive sob tensão diária. Em janeiro e fevereiro de 2026, ataques e tentativas de interdição elevam o custo do seguro marítimo e pressionam o preço do barril de petróleo acima de US$ 100 em alguns pregões. Empresas de transporte cobram clareza sobre quem garante, na prática, a segurança da rota que conecta produtores do Golfo a mercados da Europa e da Ásia.
Diplomatas ouvidos em caráter reservado avaliam que, se os EUA de fato “repensarem” sua posição na Otan, negociações sobre o compartilhamento de bases, sistemas antimísseis e missões conjuntas podem travar. A ameaça não significa saída imediata da aliança, mas funciona como instrumento de pressão nas conversas sobre quanto cada país paga e como se envolve em crises como a guerra com o Irã.
Os próximos meses devem mostrar se as palavras de Trump ficam no terreno da retórica ou se se traduzem em decisões concretas, como a redução de contingentes americanos na Europa ou condições mais duras para operações conjuntas. Enquanto isso, a Otan se vê obrigada a responder, não apenas a um inimigo declarado, mas à dúvida que ressurge de tempos em tempos: quem, afinal, está disposto a lutar por quem?
