Paciente que impediu ataque em hospital recebe medalha do rei
Um paciente de 35 anos que trata uma infecção no peito impede um ataque terrorista em um hospital de Leeds, em 2023. Quase dois anos depois, Nathan Newby recebe do rei Charles 3º a Medalha George, uma das mais altas condecorações de bravura do Reino Unido.
O encontro que muda o rumo de um ataque
É noite de 20 de janeiro de 2023 no Hospital St. James, em Leeds, no norte da Inglaterra. Internado por uma infecção no peito, Nathan Newby sai para usar o vape e respirar um pouco de ar frio. Do lado de fora da ala de maternidade, ele repara em um homem inquieto, olhando insistentemente para um saco a poucos metros de distância.
O homem é Mohammad Farooq, então com 28 anos, ex-auxiliar de enfermagem do próprio hospital. Ele segura o plano de um massacre. “Ele parecia deslocado e, por isso, fui ver se ele estava bem, se eu poderia animá-lo”, conta Newby. A curiosidade rapidamente se mistura a um instinto de alerta. O olhar de Farooq não desgruda da bolsa no chão.
Newby se aproxima, puxa conversa, pergunta se pode ajudar. Aos poucos, ganha confiança. Em determinado momento, o paciente convence Farooq a abrir o saco e mostrar o que esconde. Lá dentro, uma panela de pressão adaptada, com cerca de 10 kg de explosivos. Especialistas ouvidos no julgamento, em Sheffield, estimam que o artefato tem o dobro do tamanho da bomba usada no ataque à Maratona de Boston, em 2013, que mata três pessoas e fere centenas.
A cena, naquele ponto, já é de confinamento silencioso. “Pensei que não havia forma de sair dali, agora”, relembra. “Por isso, eu deveria ficar com ele.” A área está vazia. “O hospital normalmente é movimentado, as pessoas entram e saem a noite toda. Ali, não havia ninguém, só eu e ele. Não havia ninguém para quem eu pudesse enviar um sinal.”
O que se segue são duas horas de conversa contínua. Newby fala dos próprios problemas, tenta aliviar a tensão, desloca o foco da bomba para a vida de Farooq. Ele calcula riscos, mede palavras, tenta manter o homem calmo. Evita qualquer gesto brusco. “Se eu tivesse corrido, ele teria entrado em pânico”, resume.
Um “lobo solitário” armado com bomba e rancor
O tribunal depois descreve Farooq como um “terrorista lobo solitário autorradicalizado”. Investigações mostram que ele consome, por meses, propaganda antiocidental nas redes sociais e baixa manuais que ensinam a montar explosivos caseiros. A polícia antiterrorismo do Nordeste da Inglaterra encontra, após a prisão, facas e uma pistola falsa sob sua posse.
A Justiça ouve que o primeiro alvo de Farooq é a base de espionagem RAF Menwith Hill, perto de Harrogate, a cerca de 25 km de Leeds, operada por americanos e britânicos. Diante das dificuldades de acesso, ele muda de plano. Busca um “alvo mais suave e menos protegido”: o Hospital St. James, onde trabalha como auxiliar de enfermagem e alimenta rancor contra colegas.
Jurados escutam que o objetivo declarado é “matar o máximo de enfermeiras possível”. O ataque, se consumado, ocorre na madrugada de um hospital de grande porte, com plantões cheios, pacientes vulneráveis e equipes reduzidas. Para a acusação, a intervenção de um único paciente altera o desfecho de um atentado com potencial de múltiplas vítimas.
No pátio da maternidade, longe da rotina de emergência e dos corredores, a negociação segue. Em um momento de aparente rendição, Farooq faz um pedido inesperado ao homem que tenta impedi-lo. “Ele me pediu que me levantasse e desse a ele um abraço. Eu respondi ‘sim, aqui está o abraço, cara’.” A tensão cede alguns centímetros.
Dois gestos se tornam decisivos. Depois do abraço, o terrorista hesita. “Quero que você telefone para a polícia antes que eu mude de ideia”, diz a Newby. O paciente revela que o seu próprio telefone está sem bateria, após filmar discretamente parte da conversa, e pede para usar o aparelho de Farooq. Durante a chamada para o serviço de emergência, ele continua a falar com o agressor, faz perguntas, mede a distância entre a bomba e a entrada do prédio.
Newby pergunta se há outra arma. Farooq abre a jaqueta e mostra a pistola falsa. O paciente o convence a colocar o objeto sobre uma bancada próxima, reduzindo o risco de uma reação armada no momento da chegada dos policiais. Minutos depois, equipes armadas cercam a área, apreendem o artefato e prendem o suspeito sem disparos.
Bravura reconhecida e lições para a segurança
A juíza Cheema-Grubb chama o relato de Newby de “um dos mais notáveis já recebidos pelo tribunal”. Farooq é condenado por preparação de atos terroristas e recebe uma pena mínima de 37 anos de prisão. O promotor Jonathan Sandiford resume a avaliação da acusação: o “simples ato de bondade” quase certamente salva muitas vidas.
O superintendente Paul Greenwood, chefe das investigações da Polícia Antiterrorismo do Nordeste da Inglaterra, diz jamais ter visto um ataque ser evitado por tão pouco. Para ele, Newby é “a pessoa certa, no lugar certo, no momento certo”, em uma situação na qual, avalia, “a maioria das pessoas não teria feito o que ele fez”.
O impacto do caso vai além do desfecho individual. O episódio acende discussões sobre segurança em hospitais, alvos considerados tradicionais de proteção mínima em comparação a bases militares ou aeroportos. A tentativa de ataque em Leeds expõe a vulnerabilidade de estruturas de saúde a ameaças de extremistas que buscam locais com grande concentração de civis e menor vigilância armada.
Autoridades britânicas reforçam protocolos internos, ampliam treinamentos para identificar comportamento suspeito e revisar rotas de acesso. O caso circula em cursos de prevenção ao terrorismo como exemplo de risco e de resposta improvável: um civil sem treinamento formal que interfere, não com força, mas com escuta e controle emocional.
Um herói relutante e o peso de ter salvado vidas
Newby recebe a Medalha George em 25 de março, em cerimônia no Palácio de St. James, em Londres. O prêmio, criado em 1940, reconhece atos de grande bravura fora do campo de batalha e pode ser concedido tanto a civis quanto a militares que atuam longe da linha de frente. O rei Charles 3º entrega a honraria pessoalmente.
A família de Newby relata que só descobre o que ocorre naquela noite de 2023 quando vê as notícias na TV, semanas depois. Ao lado do filho na cerimônia, a mãe, Tracy, resume o sentimento em poucas palavras. “Ele merece, é um bom menino”, diz. O próprio Newby aparenta certo desconforto com o rótulo de herói. Afirma que a homenagem é “muito para absorver”, mas admite sentir orgulho por ter “salvado vidas”.
“Odeio ir a hospitais, mas, naquele dia, eu estava ali por uma razão e não era porque estava doente”, conta. “Eu estava ali devido ao que estava acontecendo.” Ele insiste em relativizar o gesto. “Gosto de pensar que qualquer pessoa faria isso. Algumas pessoas são fortes e outras lidam com as coisas de forma diferente, mas este sou eu, é simplesmente como eu é.”
Ao voltar para o quarto naquela madrugada, depois da prisão de Farooq, o paciente finalmente percebe a dimensão do que havia acabado de acontecer. “Quando voltei para o meu quarto no hospital e me deitei na cama, é que me dei conta do que aconteceu”, relembra. Ele imagina o cenário alternativo. “Se eu não tivesse corrido para o hospital com aquela infecção no peito, estaria em casa, ele teria ido até o fim e eu estaria vendo isso no noticiário.”
O caso em Leeds permanece como alerta e referência. Mostra a capacidade de um único indivíduo de alterar o curso de um ataque com potencial devastador, mas também expõe a fragilidade de espaços que deveriam ser sinônimo de cuidado. As autoridades discutem como reduzir essa vulnerabilidade. Newby, agora condecorado, segue repetindo que apenas fez o que achava certo. A pergunta que fica para o sistema de segurança britânico é se, na próxima vez, ainda dependerá da coragem solitária de um paciente para evitar uma tragédia.
