Trump pressiona Irã a aceitar proposta dos EUA para fim da guerra
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usa a rede social Truth Social nesta quinta-feira (26) para pressionar negociadores do Irã a aceitarem uma proposta americana para encerrar a guerra no golfo. Ele afirma que o país persa está “militarmente aniquilado” e alerta que a situação pode se tornar irreversível se Teerã não agir rapidamente.
Pressão pública em meio a negociações discretas
Trump transforma em espetáculo público uma negociação que, até agora, corre de forma discreta entre Washington, Teerã e intermediários regionais. O recado, publicado em série de mensagens na Truth Social, mira diretamente os representantes iranianos que analisam uma proposta de 15 pontos levada pelo Paquistão em nome dos Estados Unidos.
Na quarta-feira (25), uma autoridade sênior iraniana informa à agência Reuters que Teerã ainda avalia o plano americano para cessar a guerra no golfo, apesar de uma resposta inicial considerada “não positiva”. O comentário contrasta com a versão divulgada pela TV estatal Press TV, que no início da semana fala em rejeição categórica da proposta.
O aparente desencontro de relatos expõe a disputa interna no regime iraniano sobre o caminho a seguir após meses de confrontos com forças americanas e israelenses. Em público, dirigentes de Teerã seguem desdenhando da possibilidade de negociação direta com Trump. Nos bastidores, o atraso na resposta formal ao Paquistão sugere que ao menos parte da elite de poder enxerga algum espaço para acordo.
Trump tenta explorar essa brecha. Na plataforma que substitui o antigo Twitter como principal vitrine de suas posições, ele descreve os negociadores iranianos como “muito diferentes” e “estranhos” e afirma que eles estariam “implorando” por um entendimento. “Foram militarmente aniquilados, sem nenhuma chance de recuperação, e ainda assim declaram publicamente que estão apenas ‘analisando nossa proposta’”, escreve.
O presidente eleva o tom em seguida, em uma frase que soa mais como ultimato do que como simples alerta diplomático. “É melhor que levem isso a sério logo, antes que seja tarde demais, porque quando isso acontecer, não haverá volta, e não será nada bonito”, afirma, em letras maiúsculas no original em inglês.
Guerra no golfo, desgaste militar e cobrança à Otan
A ofensiva de Trump ocorre em um momento em que o Irã tenta recompor parte de sua capacidade militar após sofrer sucessivos ataques de Estados Unidos e Israel desde o início da guerra no golfo. Generais e instalações estratégicas do país são alvos frequentes de bombardeios, e analistas ocidentais afirmam que a infraestrutura de ataque iraniana está hoje muito abaixo do patamar de julho de 2025, quando o conflito escala.
O governo americano explora esse quadro para pressionar Teerã a negociar a partir de posição de fraqueza. Ao insistir que o Irã está “militarmente dizimado”, Trump fala tanto para o público interno — em ano eleitoral, com economia pressionada por volatilidade no preço do petróleo — quanto para aliados que cobram uma saída rápida para a crise.
A guerra no golfo afeta diretamente o tráfego no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo, segundo estimativas de agências internacionais. A cada semana de incerteza, mercados globais reagem com saltos na cotação do barril e aumento de custos de seguro para petroleiros que cruzam a região. Países importadores da Europa e da Ásia sentem o impacto em cadeias de produção e inflação.
Em uma das mensagens, Trump mira a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, aliança militar criada em 1949 e que reúne hoje 32 países, incluindo Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha. Segundo o presidente, os aliados europeus “não fizeram absolutamente nada” para conter o Irã. “Os EUA não precisam de nada da Otan, mas nunca se esqueçam deste momento importantíssimo”, escreve.
A crítica expõe um incômodo antigo da Casa Branca com o grau de envolvimento europeu em crises do Oriente Médio. Ao cobrar a aliança em público, Trump tenta dividir o custo político da guerra e reforça a ideia de que Washington banca sozinho a segurança de rotas que interessam sobretudo às economias europeias e asiáticas.
Para Teerã, a mensagem é dupla. De um lado, a Casa Branca sinaliza que não pretende aliviar a pressão militar caso não haja acordo. De outro, o ataque verbal à Otan sugere que os Estados Unidos continuam dispostos a agir de forma quase unilateral, sem depender de consenso entre aliados, o que reduz a margem para iniciativas diplomáticas alternativas conduzidas por europeus.
Risco de escalada e incerteza sobre próximos passos
A proposta de 15 pontos em análise em Teerã não é detalhada publicamente, mas interlocutores em Washington falam em um pacote que combina cessar-fogo imediato, garantias sobre o fluxo de petróleo no golfo e limites verificáveis à atividade militar iraniana na região. Em troca, os Estados Unidos discutem aliviar parte das sanções e aceitar algum grau de participação do Irã em mecanismos de segurança locais.
Se o governo iraniano rejeitar de forma definitiva o plano, diplomatas preveem dois cenários principais. O primeiro é a continuidade da guerra em intensidade semelhante à atual, com ataques pontuais, danos progressivos à infraestrutura e risco permanente ao transporte de energia. O segundo é uma escalada rápida, com bombardeios mais profundos e possíveis operações navais para retomar total controle do Estreito de Ormuz.
Em qualquer dos casos, a conta recai sobre a economia global. Uma escalada que bloqueie, mesmo que por algumas semanas, o fluxo de navios pelo golfo pode empurrar o preço do barril de petróleo para patamares acima de US$ 120, segundo estimativas recentes de consultorias de risco. O impacto atinge da bomba de combustível ao frete de alimentos, passando pelo custo de geração de energia em países dependentes de gás e óleo importados.
Para Trump, a equação também é política. Ele busca um desfecho que permita anunciar a vitória sobre o Irã sem repetir o desgaste de guerras prolongadas como as do Iraque e do Afeganistão. Ao mesmo tempo, enfrenta pressão de setores conservadores que rejeitam qualquer concessão ao regime iraniano, mesmo após quase dois anos de combates.
No Irã, líderes religiosos e militares calculam o custo de aceitar um acordo sob intensa pressão externa. Ceder agora pode ser visto internamente como sinal de fraqueza. Resistir, porém, aumenta o risco de nova rodada de ataques que comprometa ainda mais a já frágil economia do país e alimente o descontentamento popular.
A resposta formal de Teerã ao Paquistão, que atua como ponte entre as partes, deve definir o tom das próximas semanas no golfo. Se aceitar negociar a partir da proposta americana, o Irã abre espaço para uma trégua que pode ser construída ainda em 2026. Se optar pelo confronto, a advertência de Trump de que “não haverá volta” deixa no ar uma pergunta que nenhuma capital consegue responder hoje: até onde Washington está disposto a ir para encerrar esta guerra.
