Senado dos EUA aprova verba parcial e deixa ICE fora de acordo
O Senado dos Estados Unidos aprova na madrugada desta sexta-feira (27) um pacote emergencial para financiar parte do Departamento de Segurança Interna (DHS), mas deixa de fora o serviço de imigração e a patrulha de fronteira, em meio a um impasse que já provoca atrasos em aeroportos e pressão sobre o Congresso.
Pressão de atrasos e negociações fracassadas
A votação ocorre após uma noite de negociações frustradas e horas de incerteza no Capitólio. O bloqueio orçamentário retém salários de milhares de agentes da Administração de Segurança de Transportes (TSA) e de outros funcionários do DHS, com reflexos imediatos para passageiros em todo o país. Em uma semana, filas se alongam, dezenas de voos são perdidos e companhias aéreas relatam atrasos sucessivos em grandes hubs como Atlanta, Chicago e Nova York.
Senadores de ambos os partidos chegam ao acordo pouco antes do recesso parlamentar de duas semanas, sob o risco de uma paralisação ainda mais ampla do governo. No corredor que leva ao plenário, já na madrugada, o líder da maioria, John Thune, resume a estratégia ao falar com jornalistas: “Vamos executar o máximo possível do orçamento do Departamento de Segurança Interna esta noite e, em seguida, financiaremos o restante mais tarde”. O “restante” são justamente as agências que concentram a guerra política sobre imigração: o ICE, responsável pelas operações de deportação, e a patrulha da fronteira (CBP).
O que fica de fora e o embate político
O texto aprovado financia a TSA, a Guarda Costeira, a agência federal de emergências (FEMA), a agência de segurança cibernética e de infraestrutura (CISA) e demais braços do DHS. Essas estruturas somam dezenas de milhares de servidores e um orçamento de dezenas de bilhões de dólares anuais, essenciais para o controle de bagagens, salvamento marítimo, resposta a furacões e proteção de redes críticas. Sem a liberação dos recursos, parte dessas atividades entra em regime de contingência, com plantões reduzidos e atrasos em serviços considerados não emergenciais.
Thune admite que o acordo é parcial e politicamente imperfeito. Questionado sobre o que exatamente será financiado, é direto: “Acho que será tudo, exceto o ICE e o CBP hoje. Então, teremos que cuidar do resto”. O senador menciona que a área de alfândega já tem cobertura orçamentária, mas ressalta que a patrulha de fronteira permanece sem solução imediata. Ainda assim, ele insiste que os republicanos planejam esse cenário com antecedência. “A boa notícia é que previmos isso há um ano. Uma das razões pelas quais antecipamos o financiamento para o Departamento de Segurança Interna em um único projeto de lei abrangente foi porque prevíamos que isso provavelmente aconteceria, e aconteceu.”
A outra ponta da disputa é comandada pelo líder democrata Chuck Schumer, que transforma o bloqueio de recursos ao ICE e à patrulha de fronteira em bandeira política. Ele cita dois casos recentes de violência para justificar a linha dura. “Após os assassinatos de Renee Good e Alex Pretti, os senadores democratas foram claros: não haverá carta branca para um ICE e uma patrulha de fronteira que agem sem lei”, afirma. Para Schumer, o acordo atual é uma vitória parcial: “Este acordo, há muito esperado, financia a TSA, a Guarda Costeira, a FEMA, a CISA, fortalece a segurança na fronteira nos portos de entrada e mantém os americanos seguros.”
Trump entra em cena e a Câmara vira incógnita
O presidente Donald Trump acompanha o impasse à distância, mas interfere no momento em que o colapso do sistema de viagens começa a ganhar manchetes diárias. Thune relata ter falado com o presidente no início da noite de quinta-feira, pouco antes de Trump anunciar que instruiria o DHS a pagar os agentes da TSA mesmo sem orçamento aprovado. “Conversei com ele hoje mais cedo, pouco antes de ele fazer o anúncio. Então, sim, ele está de acordo com o que estamos tentando fazer aqui”, diz o líder republicano.
A manobra presidencial reduz a pressão imediata nos aeroportos, mas não resolve o núcleo da crise: sem lei orçamentária aprovada, cada decisão depende de medidas excepcionais, sujeitas a contestação política e jurídica. A Câmara dos Representantes, sob influência crescente de alas mais ideológicas de ambos os partidos, torna-se o novo foco de incerteza. Thune evita fazer previsões. “Não sei o que a Câmara fará”, admite. “A Câmara está ciente do que estamos considerando, eu acho, e acho que eles provavelmente estão mais ansiosos para discutir isso do que, você sabe, a esta hora do dia, numa sexta-feira, mas espero que eles estejam presentes e que possamos reabrir pelo menos boa parte do governo.”
Nos bastidores, assessores contam que a estratégia do Senado é criar um fato consumado: retomar o funcionamento de grande parte do DHS e deixar para depois a briga mais ideológica. O raciocínio é simples. Com TSA, Guarda Costeira e FEMA operando com caixa renovada, a pressão de governadores, prefeitos e do setor aéreo se desloca para a Câmara, obrigada a explicar por que mantém em aberto a parte mais sensível do orçamento de segurança interna.
Quem ganha, quem perde e o risco de nova paralisação
No curto prazo, passageiros e companhias aéreas são os principais beneficiados pela aprovação unânime no Senado. A liberação de recursos permite que a TSA restabeleça escalas de trabalho, reduza filas e recupere parte dos voos perdidos nos últimos dias. A Guarda Costeira, que responde por operações de resgate em mais de 150 mil quilômetros de litoral e vias navegáveis, volta a ter fluxo regular para combustível, manutenção de embarcações e pagamento de horas extras. A FEMA, responsável por desastres naturais, ganha fôlego antes do início da temporada de furacões no Atlântico, que costuma se intensificar a partir de junho.
O ICE e a patrulha de fronteira, por outro lado, entram em uma nova fase de incerteza. Embora republicanos sustentem que já tenham garantido recursos no pacote interno aprovado no ano passado, o vácuo atual deixa agentes sem clareza sobre escala, missões e prioridade de operações. Democratas assumem o custo político de manter essa indefinição, mas apostam que a narrativa de “freio a abusos” prevalece. “Os democratas se mantiveram firmes na oposição à ideia de que a milícia desonesta e mortal de Donald Trump não deveria receber mais financiamento sem reformas sérias”, diz Schumer. Ele comemora: “Durante todo o processo, os senadores democratas permaneceram unidos. Sem hesitar, sem recuar.”
Thune reage com dureza. Para ele, a bancada rival perde a chance de obter mudanças concretas nas regras do ICE ao apostar na confrontação máxima. “Ainda acho lamentável”, afirma. “Os democratas queriam reformas. Tentamos trabalhar com eles em reformas. No fim, não conseguiram nenhuma reforma. Teremos que travar algumas dessas batalhas em outro momento.” Em seguida, sobe o tom: “Eles queriam criar um problema. Política em vez de políticas públicas, interesse próprio em vez de reforma, bajulação à sua base em vez de realmente resolver o problema.”
Próximos passos e um impasse que pode se repetir
A aprovação no Senado é apenas a metade do caminho. O projeto precisa passar pela Câmara antes de chegar à mesa de Trump. Até lá, as agências financiadas seguem em estado de espera, preparadas para reabrir plenamente assim que houver assinatura presidencial. Líderes do setor aéreo calculam que, a cada semana de paralisação parcial, o país perde milhões de dólares em produtividade e sofre com danos de imagem difíceis de mensurar. Governadores de estados costeiros, que dependem da Guarda Costeira para operações diárias de patrulha e resgate, pressionam por uma solução até o início de abril.
A disputa em torno do ICE e da patrulha de fronteira, porém, tende a se prolongar. A pauta de imigração mobiliza a base eleitoral de ambos os partidos e alimenta campanhas para as eleições legislativas de novembro. Republicanos apostam na narrativa de que democratas enfraquecem a segurança. Democratas, por sua vez, denunciam o que chamam de “milícia desonesta” associada a Trump e prometem condicionar qualquer aumento de verba a reformas de protocolos e táticas em campo. O Senado envia seu recado com um placar simbólico: unanimidade para manter aeroportos, portos e emergências funcionando agora, e um aviso implícito de que o próximo round, na Câmara, pode decidir até onde vai o custo político de deixar partes da segurança interna dos Estados Unidos à beira de uma nova paralisação.
