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Crise no PL do Paraná: até 50 prefeitos ameaçam saída após filiação de Moro

Até 50 prefeitos do PL no Paraná ameaçam deixar o partido em 26 de março de 2026, em reação à filiação de Sergio Moro e a mudanças no comando estadual. O movimento expõe uma fissura importante na legenda no Estado e pressiona a direção nacional às vésperas da definição de alianças para as próximas eleições.

Reação em cadeia à chegada de Moro

A insatisfação de prefeitos paranaenses começa a ganhar corpo depois que Sergio Moro, ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro da Justiça, formaliza sua filiação ao PL. A entrada do novo nome vem acompanhada de trocas no comando estadual do partido, que deslocam lideranças ligadas ao governador Carlos Massa Ratinho Junior (PSD) e reposicionam o controle da sigla no Paraná.

Prefeitos ouvidos reservadamente descrevem a mudança como uma intervenção que altera acordos construídos desde a eleição de 2022. A avaliação dominante entre eles é que o PL passa a ser organizado para projetar Moro e fortalecer o grupo associado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, reduzindo o espaço de aliados do governador. Um dos articuladores municipais resume a sensação de desconforto: “Ninguém é contra filiação, mas não dá para apagar quem carregou o partido nas últimas eleições”.

O ponto de ruptura surge quando a nova direção estadual começa a redesenhar comandos provisórios em diretórios locais e a rever compromissos assumidos para 2024 e 2026. Prefeitos relatam que deixaram outras legendas nos últimos quatro anos para aderir ao projeto do PL atrelado a Ratinho Junior e agora se veem à margem das decisões. Nos bastidores, a avaliação é de que a filiação de Moro funciona como catalisador de uma disputa de espaço que já vinha sendo travada silenciosamente.

Aliados do governador afirmam que a movimentação dos prefeitos é, antes de tudo, uma demonstração de fidelidade política. “Os prefeitos querem continuar onde sempre estiveram: no campo do governador. Se o PL muda de rota, eles mudam de partido”, afirma um interlocutor próximo ao Palácio Iguaçu. A cúpula liberal no Estado, por sua vez, argumenta que a reorganização é necessária para fortalecer a legenda nacionalmente e garantir palanques competitivos em 2026.

Risco de esvaziamento e impacto eleitoral

O grupo em ebulição reúne cerca de 50 prefeitos, número relevante em um Estado com 399 municípios. Em 2024, o PL se projeta como uma das principais siglas da base conservadora no Paraná, com influência em cidades médias e estratégicas para a disputa estadual. Se a debandada se confirmar, o partido perde não apenas estrutura municipal, mas também tempo de televisão, capacidade de mobilização e capilaridade em regiões onde ainda tenta se consolidar.

A saída coletiva pode redesenhar o tabuleiro local. Prefeitos sinalizam disposição de migrar para legendas próximas ao governador, como PSD e partidos do centrão que hoje compõem a base no Estado. A movimentação tende a alterar alianças municipais, influenciar chapas de vereadores e reconfigurar negociações para a sucessão de Ratinho Junior em 2026. Embora o calendário formal de filiações para a eleição municipal já esteja definido, dirigentes tratam os próximos seis a nove meses como decisivos para esse rearranjo.

O desgaste interno também afeta a imagem de Sergio Moro dentro do próprio PL. O ex-ministro chega ao partido com expectativa de capitalizar seu recall nacional, especialmente no Sul, mas encontra resistência entre quadros que veem nele um fator de desequilíbrio local. Dirigentes ligados aos prefeitos reclamam que a conversa sobre estratégia estadual se concentra em torno do futuro de Moro, e não das demandas das cidades. “O foco virou a projeção de um nome para 2026, enquanto os prefeitos têm que entregar resultado já em 2024”, diz um aliado.

O efeito imediato é a incerteza. Secretários municipais, vereadores e lideranças regionais aguardam a decisão dos prefeitos para definir seus próprios caminhos. Em alguns municípios, a eventual troca de partido do prefeito pode arrastar metade da base política. Em outros, a fragmentação tende a fortalecer adversários locais, que exploram o discurso de que o PL vive uma crise de identidade no Paraná.

Pressão sobre a direção do PL e próximos passos

A direção nacional do PL acompanha a crise sob o risco de ver um de seus maiores redutos municipais se desfazer em poucos meses. O partido investe na presença de figuras de projeção nacional, como Bolsonaro e Moro, para manter relevância, mas enfrenta a reação de quadros que priorizam acordos regionais e estabilidade nas prefeituras. A equação passa por manter o ex-ministro como ativo eleitoral sem romper definitivamente com o grupo do governador.

Interlocutores da cúpula partidária avaliam que as próximas semanas serão usadas para testar uma acomodação. Uma saída em bloco de dezenas de prefeitos, em ano pré-eleitoral, teria impacto simbólico e prático para o PL e poderia estimular movimentos semelhantes em outros Estados onde há disputa por comandos regionais. No Paraná, o desafio é encontrar uma fórmula que preserve a filiação de Sergio Moro e, ao mesmo tempo, ofereça garantias mínimas a prefeitos e lideranças ligadas a Ratinho Junior.

O desfecho da crise deve influenciar diretamente a negociação de alianças para as próximas eleições municipais e, em seguida, para a disputa pelo governo do Paraná em 2026. Se o PL não conseguir conter a sangria, outras legendas tendem a ocupar o espaço deixado nos municípios, redesenhando o mapa de forças no Estado. A pergunta que circula entre prefeitos, hoje, é se ainda vale a pena aguardar uma solução interna ou se chegou a hora de romper e buscar abrigo em outro partido.

Até que essa resposta seja dada, a filiação de Sergio Moro, planejada para fortalecer o PL no Paraná, segue produzindo um efeito colateral imprevisto: a ameaça de transformar um ativo eleitoral nacional em ponto de partida para o maior reagrupamento partidário recente no interior do Estado.

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