Lula relança fábrica da Caoa em Anápolis e estreia SUV Uni-T nacional
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva visita nesta quinta-feira (26) a fábrica da Caoa em Anápolis (GO) para marcar a retomada da produção e o lançamento do Uni-T, primeiro modelo da parceria Caoa-Changan fabricado integralmente no Brasil. A agenda transforma a planta goiana em vitrine da estratégia de reindustrialização e de atração de investimentos bilionários para o setor automotivo.
Fábrica ganha novo fôlego quase duas décadas após inauguração
Lula volta ao chão de fábrica que ajuda a inaugurar em 2007 e faz questão de registrar a cena com o celular do fotógrafo oficial, Ricardo Stuckert. No vídeo, gravado pelo próprio presidente, ele descreve o funcionamento da linha de produção e relembra o fundador da companhia. “Estou aqui na cidade de Anápolis visitando a Caoa. A Caoa é uma indústria que eu vim inaugurar em 2007 com o nosso querido amigo Carlos Alberto de Oliveira Andrade”, diz, antes de lembrar que os negócios agora estão nas mãos dos filhos do empresário.
A visita ocorre em um momento em que o governo tenta transformar a recuperação da indústria em narrativa concreta de geração de empregos e renda. O Planalto usa a retomada da planta goiana como símbolo de um ciclo que, segundo os dados apresentados no evento, prevê R$ 190 bilhões em investimentos no setor automotivo até 2033, sendo R$ 140 bilhões das montadoras e R$ 50 bilhões da cadeia de autopeças. Na fala a trabalhadores e executivos, Lula reforça a ideia de que a economia volta a oferecer oportunidades. “Não tem coisa mais gratificante para um país do que a economia poder oferecer ao povo a possibilidade de crescimento, a possibilidade de geração de empregos e a possibilidade de as pessoas viverem com mais dignidade e de cabeça erguida”, afirma.
A planta de Anápolis passa por processo de reinauguração prática. A Caoa oficializa a retomada das linhas e apresenta o Uni-T como vitrine tecnológica de uma nova fase. O projeto soma R$ 8 bilhões em investimentos, contando R$ 3 bilhões anunciados em 2023 e um novo aporte de R$ 5 bilhões para ampliar capacidade, modernizar processos e introduzir técnicas de fabricação inéditas na América Latina, segundo a empresa. O modelo estreia já dentro de um planejamento de médio prazo, que prevê a fabricação de veículos flex e, em seguida, elétricos.
Parceria com a China amplia peso do Brasil na rota automotiva global
Lula destaca a presença chinesa na linha de montagem enquanto caminha entre robôs e funcionários. “Eles fizeram uma parceria com o companheiro da Changan, da China, que está trazendo para cá uma tecnologia extraordinária, um carro bonito”, comenta, diante de uma fileira de veículos em inspeção final. O presidente descreve o processo de controle de qualidade como etapa decisiva e reforça o cuidado com a checagem do acabamento e dos sistemas eletrônicos antes que cada unidade deixe a fábrica.
O Uni-T nasce como primeiro fruto da joint venture em solo brasileiro e tenta falar diretamente ao consumidor nacional. O crossover é desenvolvido para rodar com motor flex, adequado à combinação de etanol e gasolina, e preparado para diferentes condições de clima e de pavimentação. Os testes acumulam mais de dois milhões de quilômetros por estradas de várias regiões, com participação de mais de 200 engenheiros brasileiros e chineses ao longo de dois anos de desenvolvimento.
Co-presidente executivo da Caoa, Carlos Phillipe Luchesi de Oliveira Andrade aposta no peso simbólico do projeto. “Apresentamos ao Brasil o primeiro automóvel fabricado pela Caoa Changan em solo brasileiro. Não se trata apenas de um veículo. Trata-se de um marco”, afirma. Ele insiste na mensagem de autonomia industrial. “É a prova de que uma empresa 100% brasileira pode produzir veículos com padrão global de qualidade, sofisticação e inovação”, completa.
A Changan, que acumula mais de 160 anos de história, presença em mais de 70 países e mais de 30 milhões de veículos produzidos, escolhe o Brasil como plataforma para sua expansão na América Latina. O presidente do conselho da montadora, Zhu Huarong, define o país como prioridade estratégica. “Para a Changan, o Brasil não é apenas um lugar para investir, mas uma terra onde estamos comprometidos em construir um futuro de longo prazo”, afirma, sinalizando que a produção em Anápolis deve abastecer também mercados vizinhos.
O governo enxerga na parceria um instrumento para reposicionar o país na nova divisão global da indústria automotiva, marcada por carros eletrificados, softwares embarcados e integração com cadeias globais de suprimentos. O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, conecta o anúncio com outras iniciativas recentes. “Ontem, também lançamos uma nova indústria de trens, a CRRC Brasil. E hoje, aqui na Caoa, temos essa grande parceria para produzir veículos flex e, depois, veículos também elétricos”, diz.
Emprego, endividamento e impacto no bolso do consumidor
O avanço da linha de montagem em Anápolis se traduz em milhares de postos diretos e indiretos na região e movimenta toda a cadeia de fornecedores, da indústria de autopeças ao transporte e aos serviços locais. A expectativa é que o novo ciclo de investimentos de R$ 8 bilhões consolide o município como um dos principais polos automotivos do Centro-Oeste, em um momento em que o país tenta recuperar o parque industrial perdido após anos de retração nas montadoras.
Lula aproveita o encontro com metalúrgicos e técnicos para tratar de um tema sensível ao governo: o endividamento das famílias. O presidente liga a criação de empregos de melhor qualidade à capacidade de aliviar a pressão sobre o orçamento doméstico. “Nós estamos tentando encontrar uma saída para ver se a gente diminui a angústia da sociedade, melhorar esse endividamento e conseguir fazer com que as pessoas se sintam aliviadas”, afirma, ao defender que crédito, renda e produção caminhem juntos.
O conflito no Oriente Médio também entra na conversa, como fator de risco para a inflação. Lula cita a escalada entre Irã e países da região e diz que tenta blindar o país. “Nós não vamos deixar a irresponsabilidade da guerra do Irã chegar no preço da alface, da cebola e do feijão que o povo brasileiro come”, promete, numa tentativa de mostrar que a política industrial dialoga com o custo de vida no supermercado.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, amarra o discurso com foco na produtividade. Ele afirma que o objetivo é combinar crescimento com inclusão. “A nossa economia é forte. O que nós queremos de agora em diante? Nós queremos aumentar a produtividade, queremos inovação, queremos mais eficiência”, resume. A aposta em fábricas mais automatizadas, projetos bilionários e parcerias tecnológicas com a China se apresenta como resposta à concorrência global, mas também como teste político para o governo em um setor que ainda convive com ociosidade e competição acirrada.
Brasil tenta consolidar novo ciclo industrial até 2033
A meta desenhada por governo e empresas é transformar anúncios pontuais em trajetória consistente até 2033, prazo previsto para a aplicação dos R$ 190 bilhões destinados ao setor automotivo. A Caoa-Changan quer usar a base em Anápolis como plataforma para novos modelos e para futuras linhas de elétricos e híbridos, em sintonia com a transição energética global. O sucesso do Uni-T nas concessionárias será um termômetro dessa estratégia e do apetite do consumidor por carros nacionais com tecnologia importada.
A visita desta quinta-feira encerra a etapa simbólica de retorno ao ambiente fabril e abre uma fase de cobranças sobre entrega de empregos, aumento de conteúdo nacional e competitividade internacional. A reindustrialização, apresentada hoje em linhas de montagem brilhando para as câmeras, depende de desdobramentos concretos em crédito, infraestrutura e política tributária. A dúvida que fica para os próximos anos é se os investimentos prometidos e projetos como o Uni-T serão suficientes para recolocar o Brasil de forma duradoura no mapa da indústria automotiva mundial.
