Ciencia e Tecnologia

Nasa detecta supertempestades em Júpiter com raios 100 vezes mais fortes

Supertempestades em Júpiter produzem raios até 100 vezes mais fortes que os da Terra, mostra estudo liderado por pesquisadores da Nasa. A análise, publicada nesta sexta-feira (20), usa dados coletados entre 2021 e 2022 pela sonda Juno, que orbita o planeta desde 2016.

Tempestades gigantes em um planeta extremo

O trabalho, assinado pelo pesquisador Michael Wong e colegas, revela um tipo de tempestade que até agora passa despercebido em imagens tradicionais. São as chamadas “supertempestades furtivas”, sistemas de nuvens que se espalham por grandes faixas da atmosfera joviana e concentram descargas elétricas de energia inédita no Sistema Solar observável.

Os cientistas descrevem relâmpagos que liberam energia muito acima dos registros terrestres. Em vez de depender de fotos ou da luz visível das tempestades, a equipe recorre ao radiômetro da Juno, instrumento que capta emissões de rádio produzidas pelos raios. O equipamento consegue atravessar as camadas de nuvens e medir diretamente a intensidade das descargas, sem a interferência que limita observações na Terra.

Em Júpiter, o cenário é radicalmente diferente do nosso. A atmosfera é dominada por hidrogênio, gás leve que torna o ar úmido, carregado de água e amônia, mais pesado que o ambiente ao redor. Para que essa mistura suba e forme nuvens de tempestade, é preciso muito mais energia do que nas frentes frias terrestres. Quando finalmente consegue subir, a liberação dessa energia acumulada produz raios de intensidade muito superior.

Os dados da Juno indicam que algumas dessas tempestades podem durar anos e se conectar a sistemas ainda maiores, que atravessam faixas inteiras do planeta. Em outras regiões do planeta já foram observados redemoinhos que persistem por séculos, como a Grande Mancha Vermelha, um furacão do tamanho da Terra. O novo estudo sugere que, em meio a esse clima extremo, surgem relâmpagos que redesenham o limite conhecido para fenômenos elétricos em atmosferas planetárias.

Por que os raios de Júpiter interessam à Terra

A pesquisa, publicada em 20 de março de 2026 na revista científica AGU Advances, vai além da curiosidade sobre um gigante gasoso distante. Para Wong, entender tempestades em outros mundos ajuda a desvendar o que ainda não se conhece bem aqui. “O estudo de tempestades em outros planetas abre janelas para fenômenos que a atmosfera terrestre esconde”, afirma o pesquisador. Ele cita, entre esses fenômenos, diferentes tipos de eventos luminosos associados a tempestades, ainda pouco compreendidos pelos cientistas.

Na Terra, raios comuns liberam, em média, algumas centenas de milhões de joules, energia suficiente para manter uma lâmpada doméstica acesa por meses. Em Júpiter, as supertempestades analisadas pela Juno chegam a descargas até 100 vezes mais potentes, segundo a equipe. A comparação ajuda a dimensionar o abismo entre os dois climas, mas também oferece pistas sobre os limites físicos das tempestades em qualquer planeta.

O avanço vem em um momento em que cresce o interesse por fenômenos espaciais de alta energia, de erupções solares a tempestades geomagnéticas que afetam redes elétricas e sistemas de comunicação na Terra. Enquanto o Sol passa por um pico de atividade com megaerupções frequentes, Júpiter surge como um laboratório natural para testar teorias sobre eletricidade atmosférica em condições extremas, quase impossíveis de reproduzir em experimentos em solo.

Os resultados alimentam modelos usados para prever climas em exoplanetas, mundos fora do Sistema Solar que começam a ser caracterizados por telescópios como o James Webb. Atmosferas dominadas por hidrogênio e compostos voláteis são comuns nesses planetas distantes. A forma como tempestades se formam e se descarregam em Júpiter ajuda a calibrar simulações que tentam estimar desde a circulação de ventos até o potencial de climas habitáveis.

Novas fronteiras para a ciência planetária

A identificação das supertempestades furtivas também reforça a importância de missões de longa duração. A Juno está em órbita desde 2016 e continua enviando dados em cada aproximação ao planeta. Sem essa permanência, tempestades que surgem e se desenvolvem ao longo de meses passariam sem registro detalhado. As observações concentradas entre 2021 e 2022 mostram que o clima joviano muda em escalas de tempo compatíveis com ciclos terrestres, mas com uma intensidade que desafia os modelos atuais.

Para a Nasa, a descoberta serve como argumento adicional para manter e ampliar programas de monitoramento planetário. Missões em operação em Marte, em luas geladas e ao redor do Sol se beneficiam de técnicas testadas em Júpiter, como o uso de radiômetros e sensores de rádio para enxergar além das nuvens. Agências espaciais europeias e asiáticas acompanham os resultados de perto e discutem futuras sondas dedicadas ao estudo de tempestades em outros gigantes gasosos, como Saturno.

Na comunidade de meteorologia e física atmosférica, os dados de Júpiter alimentam outra frente de pesquisa: o refinamento de modelos terrestres. A forma como o hidrogênio altera a flutuabilidade do ar úmido em Júpiter ajuda a revisar parâmetros usados em simulações de nuvens profundas, tempestades severas e eventos luminosos de alta altitude, como sprites e jatos azuis. Esses ajustes podem melhorar previsões de episódios extremos, de tempestades tropicais a sistemas convectivos que provocam enchentes repentinas.

O estudo também desperta interesse fora da academia. O retrato de um planeta vizinho com raios colossais reforça, para o público, a importância de entender o clima além da superfície terrestre. Em um cenário de aquecimento global e aumento de eventos extremos, a comparação com outros mundos ajuda a colocar em perspectiva os limites físicos da atmosfera da Terra e a urgência de monitorá-la com a mesma disciplina dedicada a Júpiter.

Os próximos passos da equipe de Michael Wong incluem a análise de novos sobrevoos da Juno e a comparação das supertempestades com imagens em diferentes comprimentos de onda, do infravermelho ao ultravioleta. A expectativa é mapear não só a força dos raios, mas também sua frequência e distribuição geográfica pelo planeta. Cada relâmpago captado em Júpiter acrescenta uma peça ao quebra-cabeça dos climas extremos, e a pergunta que fica é até onde essas descobertas podem redesenhar o entendimento da própria atmosfera terrestre.

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