Ataque aéreo israelense mata comandante sênior do Hezbollah no Líbano
A Força Aérea de Israel mata nesta quinta-feira (26) Hassan Mohammad Bashir, comandante sênior do Hezbollah, em um ataque aéreo na área de Hajir, sul do Líbano. A ofensiva integra uma série de operações contra o grupo libanês e alvos ligados ao Irã, em meio à escalada regional de violência.
Escalada em múltiplas frentes
O anúncio parte das Forças de Defesa de Israel (IDF) em comunicado divulgado no início da noite. Os militares afirmam ter “atacado e eliminado” Bashir, descrito como um dos comandantes mais influentes do Hezbollah na região de Hajir. O alvo circula há semanas em relatórios de inteligência que apontam seu envolvimento na coordenação de ataques de foguetes e mísseis contra o território israelense.
O ataque desta quinta-feira ocorre num ciclo de violência que se intensifica desde 2 de março, quando o Hezbollah lança projéteis contra Israel após ofensivas de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã. Desde então, a fronteira norte israelense registra trocas diárias de fogo, com ataques em cidades no sul do Líbano e disparos em direção a localidades israelenses próximas à divisa.
As operações não se limitam ao Líbano. Em paralelo, aviões israelenses atingem alvos na província de Kermanshah, no oeste do Irã, e na região de Dezful, mais ao sul. Segundo as IDF, os bombardeios miram centros de armazenamento e plataformas de lançamento de armamentos ligados ao programa de mísseis balísticos iranianos e a sistemas de defesa antiaérea.
O governo israelense apresenta a campanha como resposta direta a ataques do Hezbollah e como tentativa de conter a capacidade de disparo de mísseis de médio e longo alcance contra áreas densamente povoadas. A meta declarada é reduzir o número de projéteis capazes de atingir grandes centros urbanos em Israel, como Haifa e Tel Aviv, e impor custos militares e políticos aos aliados de Teerã.
Impacto regional e risco para civis
A morte de Bashir representa um golpe simbólico e operacional para o Hezbollah, que desde a década de 1980 se consolida como principal força armada não estatal do Líbano. Com apoio financeiro, militar e político do Irã, o grupo constrói, ao longo de mais de 30 anos, um arsenal estimado em dezenas de milhares de foguetes de curto alcance e um número menor de mísseis mais avançados, alguns deles guiados com maior precisão. A remoção de um comandante sênior tende a afetar, ao menos temporariamente, a coordenação de ataques.
O custo humano, porém, se espalha além do campo de batalha. Em Beirute, um ataque israelense recente mata ao menos seis pessoas em área densamente ocupada, a cerca de um quilômetro da sede do governo libanês. Moradores relatam janelas estilhaçadas em edifícios vizinhos e ruas bloqueadas por destroços de concreto e metal. Autoridades locais temem que a expansão dos ataques a áreas urbanas provoque um novo êxodo interno e pressione ainda mais um país em crise econômica desde 2019.
Analistas em Beirute e Tel Aviv apontam que o foco de Israel em depósitos de armas e plataformas de mísseis balísticos modifica o patamar do confronto. “Quando você passa a mirar, de forma sistemática, a infraestrutura de mísseis de um adversário, a mensagem é de guerra prolongada, não de escaramuça de fronteira”, avalia um pesquisador de segurança regional ouvido por telefone. O temor é que a combinação de alvos militares estratégicos e áreas civis densas amplie o número de vítimas não combatentes nas próximas semanas.
As IDF sustentam que “os ataques ao conjunto de mísseis balísticos do Irã visam reduzir o alcance do fogo dirigido a civis israelitas”. A formulação, em tom técnico, tenta enquadrar a ofensiva numa lógica de defesa preventiva. Organizações de direitos humanos, por outro lado, alertam que a intensificação de bombardeios em zonas urbanas libanesas e em território iraniano pode violar princípios de proporcionalidade previstos no direito internacional humanitário.
No terreno político, o episódio aprofunda o fosso entre Israel e o governo libanês, fragilizado por divisões internas e pela influência direta do Hezbollah sobre parte do aparato estatal. A escalada também dificulta qualquer tentativa de mediação externa, seja por parte da França, historicamente ativa em Beirute, seja por países árabes que buscam evitar um confronto aberto entre Israel e Irã em pleno Oriente Médio.
Incógnitas sobre o próximo movimento
A morte de um comandante do porte de Hassan Mohammad Bashir tende a exigir uma resposta do Hezbollah. O grupo costuma adotar uma lógica de “retaliação calculada”, em que procura reagir a perdas relevantes com ataques de intensidade semelhante para manter a imagem de resistência sem provocar uma guerra total. A intensidade e o alvo dessa possível resposta vão indicar se a fronteira entre Líbano e Israel caminha para um conflito mais amplo.
Em Teerã, o bombardeio a instalações em Kermanshah e Dezful acende o alerta entre autoridades militares e políticas. Mesmo sem admitir publicamente a extensão dos danos, o regime iraniano enfrenta o dilema de como responder sem abrir mais uma frente de confronto direto com Israel, num momento em que o país lida com sanções econômicas e pressões internas. Um contra-ataque mais robusto, seja por meio de forças próprias, seja via milícias aliadas na Síria, no Iraque ou no Iêmen, pode arrastar outros atores regionais para a crise.
Diplomatas em capitais ocidentais tentam, nos bastidores, conter a escalada. A avaliação dominante é que um conflito aberto entre Israel, Hezbollah e Irã teria efeito imediato sobre rotas de petróleo no Golfo Pérsico, encareceria a energia e pressionaria economias frágeis na Europa e na Ásia. O temor de choque nos mercados adiciona urgência a apelos por cessar-fogo ou, ao menos, por limites mais claros na escolha de alvos.
A ofensiva que mata Hassan Mohammad Bashir revela a disposição de Israel de assumir riscos maiores para tentar remodelar o equilíbrio militar com o Hezbollah e com o Irã. O resultado dessa aposta ainda é incerto. O próximo míssil disparado na fronteira norte, o próximo ataque em Beirute ou no interior do Irã vai indicar se a região caminha para uma nova guerra de larga escala ou se ainda há espaço, estreito, para conter a espiral de violência.
