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CPI do INSS fracassa, mas projeta Carlos Viana ao Senado em MG

O senador Carlos Viana (Podemos-MG) transforma a CPI do INSS em trampolim político e consolida, em 26 de março de 2026, sua candidatura ao Senado em Minas. Mesmo com o pedido de prorrogação da comissão rejeitado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ele emerge como principal nome do bolsonarismo no segundo maior colégio eleitoral do País.

De CPI esvaziada a ativo eleitoral

A decisão do STF de barrar a prorrogação da CPMI do INSS expõe o esvaziamento de uma comissão que prometia reviravoltas na Previdência, mas não entrega grandes resultados concretos. Nos bastidores de Brasília, porém, o saldo político é outro: Viana capitaliza cada sessão, entrevista e embate público para reconstruir sua base e reposicionar seu nome em Minas Gerais.

Antes da CPI, o senador atravessa fase de isolamento. Em 2022, quando disputa o governo mineiro pelo PL, recebe apenas 7,23% dos votos válidos e sai da eleição sem comando de grupo político e sem o apoio real do então presidente Jair Bolsonaro. O ex-chefe do Planalto prefere se alinhar ao governador reeleito Romeu Zema (Novo) e ao hoje senador Cleitinho (Republicanos), deixando Viana sem palanque consistente e com a sensação de ter sido “traído”.

Dois anos depois, o cenário se inverte. A presidência da CPI do INSS devolve a Viana holofotes diários. Ele controla a pauta das sessões, pauta o noticiário e se torna presença constante em rádios, TVs e redes sociais. A comissão pouco avança em propostas estruturais para o sistema previdenciário, mas constrói para o senador uma narrativa de combatividade que fala diretamente ao eleitorado de direita em Minas.

No dia 23 de março, quando o ministro André Mendonça autoriza, ainda de forma provisória, a prorrogação dos trabalhos, o ambiente no Senado antecipa o novo status de Viana. Nos corredores do Salão Azul, senadores se revezam em cumprimentos, selfies e elogios ao “trabalho firme” à frente da CPI. O presidente do colegiado mal consegue caminhar alguns metros sem ser parado por colegas ou apoiadores.

Reaproximação com Bolsonaro e salto nas pesquisas

A virada política de Viana ganha forma a partir da reaproximação com o grupo Bolsonaro. Depois da eleição de 2022, o senador perde espaço no circuito da direita e é tratado como figura lateral. A presidência da CPI do INSS oferece a ele o palco ideal para reconstruir essa ponte.

Viana passa a alinhar publicamente sua atuação ao discurso do ex-presidente e de seus aliados. O gesto mais simbólico ocorre quando ele apresenta um projeto de lei para alterar a norma que serviu de base às condenações de Bolsonaro na Justiça Eleitoral. A iniciativa é lida no entorno do ex-presidente como um sinal inequívoco de lealdade. “Não há democracia sem revisão de injustiças”, afirma o senador em entrevistas, ao defender a proposta.

A resposta vem rápida. O clã Bolsonaro volta a tratar Viana como principal aposta para uma das duas vagas ao Senado por Minas em 2026. Em agendas públicas, o senador reaparece ao lado de figuras centrais da direita, recupera espaço em grupos de mensagens e redes de mobilização bolsonarista no Estado.

As pesquisas confirmam o efeito. Levantamento do Instituto Paraná Pesquisas, divulgado em 10 de março, coloca Viana na liderança da disputa, com 32,2% das intenções de voto, à frente de nomes tradicionais da política mineira. Em outra sondagem, do RealTime Big Data, divulgada em 13 de março, ele pontua 13% em cenário com múltiplos candidatos para as duas cadeiras em jogo e se mantém no pelotão de frente, atrás apenas da prefeita de Contagem, Marília Campos (PT).

A exposição diária amplia esse capital. Viana adota rotina de conceder entrevistas nos corredores do Senado, muitas vezes mais de uma por dia. Em 16 de março, ocupa o centro do Roda Viva, da TV Cultura, e reforça a imagem de senador em sintonia com a base bolsonarista, mas com discurso moderado o suficiente para dialogar com um eleitorado mineiro avesso a rupturas bruscas.

Minas em disputa e efeitos no Congresso

O fortalecimento de Viana reabre o tabuleiro eleitoral em Minas, segundo maior colégio do País, atrás apenas de São Paulo. A eventual eleição de um senador alinhado ao bolsonarismo tende a garantir ao grupo uma cadeira estratégica na composição do Congresso a partir de 2027 e a reforçar a presença da direita em comissões-chave.

Aliados de Viana enxergam na CPI do INSS um exemplo de como comissões parlamentares podem servir mais como palanque do que como instrumento de investigação. O colegiado chega à reta final sem relatório robusto e com poucas propostas consensuais para enfrentar fraudes, gargalos de atendimento e o rombo bilionário da Previdência. Na prática, aposentados, pensionistas e segurados do INSS seguem à espera de soluções objetivas para filas, perícias e instabilidade de sistemas.

Ainda assim, a CPI rende ao senador musculatura para negociar espaços em futuras composições do Senado e influência em votações sensíveis, como eventuais reformas administrativas e novas regras para benefícios previdenciários. O alinhamento com Bolsonaro também redesenha alianças locais, pressiona adversários do campo conservador e dificulta a construção de uma candidatura competitiva de centro-direita que não passe pelo seu palanque.

Analistas políticos em Belo Horizonte apontam que a consolidação de Viana como principal nome da direita mineira pode empurrar partidos do centro para negociações mais duras por coligações e tempo de TV. Prefeitos e lideranças regionais, atentos às pesquisas, começam a reavaliar apoios e a medir o custo de ficar longe de um candidato em ascensão.

Próximos movimentos e dúvidas em aberto

O fim antecipado da CPI do INSS, sacramentado pelo STF em 26 de março, obriga Viana a buscar novos palcos para manter a exposição conquistada nos últimos meses. No curto prazo, a aposta recai sobre a tramitação do projeto que pode beneficiar Bolsonaro e sobre a participação em debates econômicos e previdenciários no plenário.

O senador tenta mostrar que sua atuação não se resume a gestos de fidelidade ao ex-presidente e promete apresentar propostas para reduzir filas do INSS e endurecer o combate a fraudes. A campanha de 2026, porém, deve testar até que ponto o eleitor mineiro separa a avaliação sobre o desempenho frágil da CPI da imagem de um parlamentar que se vende como eficiente e influente.

Minas entra na disputa nacional como peça-chave para a estratégia da direita, e Carlos Viana assume o papel de protagonista desse movimento. A incógnita agora é se o capital político acumulado nos corredores do Senado resiste ao crivo das urnas e à cobrança por resultados concretos na vida de quem depende, todo mês, do benefício do INSS.

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