Ultimas

Países do Golfo levam ataques iranianos a confronto diplomático na ONU

Países do Golfo acusam o Irã de lançar ataques “não provocados e deliberados” com drones e mísseis contra infraestrutura civil e energética em março de 2026. Em sessão de emergência em Genebra, eles pedem condenação formal, reparações e monitoramento da ONU enquanto a guerra entre Estados Unidos, Israel e Teerã entra na quarta semana.

Escalada regional chega ao conselho de direitos humanos

A ofensiva iraniana, que atinge Kuweit, Emirados Árabes Unidos e outros vizinhos, transforma o conflito em uma disputa aberta também no campo diplomático. As delegações dos países do Golfo afirmam que os ataques miram deliberadamente instalações de energia e áreas civis, provocam mortes de civis e ameaçam a estabilidade de uma região responsável por parte central do abastecimento global de petróleo.

No conselho de 47 membros sediado em Genebra, embaixadores descrevem o momento como um divisor de águas. “Estamos vendo uma ameaça existencial à segurança internacional e regional. Essa abordagem agressiva está minando o direito internacional e a soberania”, afirma o embaixador do Kuweit, Naser Abdullah H. M. Alhayen. O objetivo, segundo um rascunho de resolução, é aprovar uma moção que condena as ações de Teerã, cobra reparações financeiras e autoriza o chefe de direitos humanos da ONU a acompanhar de perto a situação.

A guerra que opõe Estados Unidos e Israel ao Irã já dura quase um mês e se espalha por diferentes frentes militares, cibernéticas e informacionais. No Golfo, drones e mísseis iranianos cruzam o céu em ondas sucessivas, atingem refinarias, terminais de exportação, subestações elétricas e, em alguns casos, bairros residenciais. As imagens de colunas de fumaça sobre áreas industriais e cidades costeiras alimentam a sensação de que a região volta a viver um momento de vulnerabilidade extrema.

O Irã afirma que reage a ataques prévios de Israel e dos EUA, que, segundo Teerã, já matam mais de 1.500 civis em seu território desde o início da ofensiva. Para a diplomacia iraniana, a guerra não é uma escolha, mas uma imposição. “Lutamos em nome de todos vocês contra um inimigo que, se não for contido hoje, estará além da contenção amanhã”, declara Ali Bahreini, embaixador iraniano na ONU em Genebra, em referência direta a Israel.

Infraestrutura em risco e petróleo em alta

Os ataques reverberam muito além das fronteiras do Golfo. A sucessão de explosões em terminais e oleodutos pressiona o preço do petróleo, que sobe de forma consistente desde a primeira semana da guerra. Operadores falam em alta de dois dígitos em poucas semanas, reflexo do medo de interrupções em rotas estratégicas de exportação e da possibilidade de danos permanentes à infraestrutura de produção e escoamento.

Em Kuweit e nos Emirados Árabes Unidos, governos reforçam a segurança de usinas, portos e aeroportos e acionam planos de contingência para manter o fornecimento interno de energia. Autoridades locais relatam ao menos dezenas de mortos e feridos em áreas atingidas por destroços de mísseis e drones abatidos, número que tende a crescer à medida que o conflito se prolonga. “As ações do Irã visam espalhar o terror”, acusa Jamal Jama al Musharakh, embaixador dos Emirados. Ele fala em “tentativa do Irã de desestabilizar a ordem internacional por meio de aventuras imprudentes de expansionismo”.

O impacto se espalha por cadeias produtivas globais. Empresas de logística revisam rotas, companhias aéreas desviam voos e seguradoras elevam prêmios para cargas que passam pela região. Qualquer ameaça à fluidez do transporte de petróleo e derivados no Golfo repercute em transportes, custos industriais e inflação ao consumidor, do Oriente Médio à Europa e à América Latina.

A percepção de risco afeta também a política interna de países aliados dos Estados Unidos, pressionados a explicar ao eleitorado como uma guerra distante pode encarecer combustíveis e alimentos. Investidores acompanham a escalada com cautela crescente, atentos à possibilidade de um choque de preços semelhante ao de crises anteriores no Oriente Médio.

Pressão internacional e incerteza sobre próximos passos

O chefe de direitos humanos da ONU, Volker Turk, tenta conter o avanço da espiral de violência com um apelo direto. Ele afirma que a situação é “extremamente perigosa e imprevisível” e pede que todos os Estados envolvidos interrompam ataques contra o Irã e suspensões recíprocas. “Os ataques a civis e à infraestrutura civil precisam acabar. Se forem deliberados, esses ataques podem constituir crimes de guerra”, diz. O alerta vale tanto para as operações iranianas quanto para as ofensivas de Israel e dos Estados Unidos.

Teerã não dá sinais de recuo. O governo iraniano convoca sua própria sessão de emergência na ONU para sexta-feira, dedicada a um ataque fatal a uma escola primária em seu território, que atribui ao eixo EUA-Israel. Diplomatas iranianos prometem apresentar fotografias, laudos e depoimentos para sustentar a acusação de que o país é alvo de bombardeios sistemáticos a áreas civis.

No conselho de Genebra, a votação da resolução patrocinada pelos países do Golfo se torna um teste imediato de alinhamentos internacionais. Membros ocidentais tendem a apoiar a condenação dos ataques iranianos, enquanto aliados ou parceiros de Teerã podem pressionar por um texto que mencione também as operações de Israel e dos Estados Unidos. O resultado final indicará até que ponto a comunidade internacional está disposta a isolar o Irã ou a enquadrar todas as partes em um mesmo padrão de responsabilização.

Diplomatas admitem em conversas reservadas que nenhum documento aprovado em Genebra interrompe sozinho o lançamento de drones e mísseis. A aposta é que a combinação de condenações públicas, ameaça de sanções adicionais e risco de processos por crimes de guerra crie algum custo político para a continuidade da ofensiva. Enquanto isso, civis em cidades do Golfo e em território iraniano seguem expostos a sirenes, explosões e apagões, à espera de uma negociação que ainda não tem forma nem prazo para começar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *