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Lula barra visto de assessor de Trump e amplia crise com EUA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manda negar o visto a um assessor de Donald Trump e acentua, neste 14 de março de 2026, a pior fase recente das relações entre Brasil e Estados Unidos. A decisão, tomada em meio a tarifas americanas contra exportações brasileiras e sanções a ministros do STF, expõe o temor de interferência externa nas eleições municipais de outubro.

Escalada diplomática em meio a eleições sensíveis

A recusa do visto é comunicada de forma reservada a diplomatas americanos, em Brasília, ainda pela manhã. O Itamaraty evita nota oficial, mas integrantes do governo confirmam, sob condição de anonimato, que a ordem parte diretamente do Planalto. A avaliação é que a presença do assessor, ligado ao núcleo mais radical de Trump, poderia alimentar campanhas de desinformação e tensionar o ambiente político brasileiro.

O episódio ocorre enquanto a relação bilateral atravessa uma sucessão de choques. Desde o início do ano, Washington eleva tarifas sobre aço e alumínio brasileiros em até 20%, afetando embarques de cerca de US$ 4 bilhões anuais. Em resposta, o governo Lula denuncia “medidas unilaterais e discriminatórias” e ameaça acionar organismos internacionais. Ao mesmo tempo, a imposição de sanções individuais a ministros do Supremo Tribunal Federal por parlamentares americanos irrita o Judiciário e empurra o tema para o centro do debate interno sobre soberania.

No Planalto, auxiliares descrevem a decisão sobre o visto como um recado direto à Casa Branca e ao entorno de Trump. O Brasil se diz disposto a manter diálogo com os dois grandes partidos americanos, mas rejeita qualquer sinal de tutela sobre processos eleitorais nacionais. “Não vamos aceitar que agentes estrangeiros venham testar aqui as mesmas fórmulas que fragilizam democracias em outros países”, resume um integrante da equipe presidencial.

O nome do assessor é mantido em sigilo pelo governo, em parte para não transformá-lo em protagonista de uma disputa ideológica. Em bastidores, diplomatas americanos classificam o gesto como “hostil” e reclamam de falta de comunicação prévia. Interlocutores brasileiros afirmam que o canal diplomático segue aberto, mas argumentam que o histórico recente de ataques de aliados de Trump a instituições brasileiras torna qualquer visita do grupo um potencial foco de crise.

Tarifas, sanções e medo de interferência política

As tensões não começam com o visto negado. Há pelo menos seis meses, a negociação sobre tarifas entra em impasse. A siderurgia brasileira calcula que as novas barreiras podem cortar até 15% das exportações para os Estados Unidos em 2026, com impacto direto em empregos no Sudeste e no Sul. Governadores pressionam o Planalto por uma resposta firme, temendo demissões em série num ano de eleições municipais.

As sanções a ministros do STF, patrocinadas por parlamentares alinhados a Trump, ampliam o desgaste. As medidas, que incluem restrições de viagem e congelamento de ativos em solo americano, são vistas em Brasília como ingerência direta sobre decisões judiciais, especialmente em processos ligados a ataques às instituições em 8 de janeiro de 2023. Ministros do Supremo reagem em tom duro, afirmando que o Brasil não aceitará “certificação externa” de suas decisões.

O temor de interferência nas eleições municipais de outubro funciona como pano de fundo para a decisão de hoje. Integrantes da área de inteligência relatam aumento de redes de desinformação conectadas a grupos estrangeiros desde o fim de 2025. O foco, segundo esses relatos, são cidades grandes, com mais de 500 mil eleitores, onde campanhas polarizadas têm histórico de forte engajamento digital. A chegada de um emissário de Trump, avaliam esses técnicos, poderia servir de catalisador para narrativas de fraude e contestação antecipada dos resultados.

O governo tenta equilibrar o gesto político com a necessidade de preservar a parceria econômica. Os Estados Unidos seguem como segundo maior parceiro comercial do Brasil, com fluxo anual de mais de US$ 80 bilhões em 2025. Ao negar o visto, Lula sinaliza disposição de pagar um custo diplomático imediato para afirmar uma linha vermelha: a disputa política brasileira, especialmente em ano eleitoral, é assunto doméstico.

Consequências e próximos capítulos da crise

A negativa do visto repercute rapidamente em capitais estrangeiras. Chancelarias europeias acompanham o caso com atenção, preocupadas com o impacto sobre negociações multilaterais em curso, como as conversas sobre clima e comércio. O Brasil se projeta como voz relevante em discussões sobre transição energética e financiamento verde, e qualquer ruído com Washington tem potencial de afetar coalizões em conferências internacionais.

No Congresso brasileiro, oposição e base do governo leem o gesto por lentes distintas. Aliados de Lula defendem que o país não pode repetir o cenário de 2018, quando a disseminação massiva de notícias falsas surpreende as instituições e alimenta questionamentos duradouros sobre a lisura do processo eleitoral. Parlamentares da oposição acusam o Planalto de “inflar uma crise” e alertam para possível retaliação comercial. A indústria exportadora, por sua vez, acompanha com apreensão, temendo novas barreiras não tarifárias.

Diplomatas veteranos lembram que a relação Brasil-Estados Unidos atravessa ciclos de tensão e reaproximação desde a Guerra Fria. Episódios de atrito, como o escândalo de espionagem da NSA, em 2013, não impedem que, anos depois, os países retomem agendas comuns em comércio e defesa. A diferença, agora, é a presença de plataformas digitais que amplificam conflitos domésticos e transformam cada gesto em munição política instantânea.

O Planalto aposta que, passado o choque inicial, os dois governos vão buscar um novo canal de diálogo, possivelmente mediado por encontros multilaterais ainda em 2026. Até lá, permanece em aberto se a tensão atual será contida em trocas de declarações duras ou se vai escalar para medidas concretas, como novas tarifas ou restrições a investimentos. A resposta pode definir não apenas o rumo da relação entre as duas maiores democracias do continente, mas também os limites aceitos para a atuação de atores estrangeiros em disputas políticas brasileiras.

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