Apoio ao fim da escala 6×1 cresce e pressiona debate sobre jornada
A maioria dos brasileiros apoia o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de trabalho, mostra pesquisa Datafolha feita entre 3 e 5 de março. O levantamento registra avanço do apoio em relação a 2024 e reforça a estratégia do governo Lula de priorizar a mudança de 44 para 40 horas semanais sem corte de salário.
País se afasta da semana de seis dias
Oito em cada dez brasileiros ouvidos pelo instituto veem na proposta um caminho para aliviar a rotina e recuperar horas de descanso perdidas. Na pergunta direta sobre o número máximo de dias trabalhados por semana, 71% defendem reduzir a carga hoje prevista em lei, enquanto 27% rejeitam qualquer alteração e 3% não opinam.
Os dados marcam uma guinada em relação ao cenário de pouco mais de um ano atrás. Em dezembro de 2024, 64% eram favoráveis ao fim da escala 6×1 e 33% se colocavam contra. A nova pesquisa, feita com 2.004 entrevistados de 16 anos ou mais em 137 municípios, indica um país mais disposto a encarar uma reforma no tempo dedicado ao trabalho. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, dentro de um nível de confiança de 95%.
O debate ganha fôlego em Brasília no momento em que o governo Lula tenta transformar a pressão social em avanço legislativo. Embora o apelido da proposta enfatize o fim da escala de seis dias seguidos de trabalho e um de descanso, o Palácio do Planalto mira sobretudo a redução da jornada semanal, hoje fixada em 44 horas pela CLT. A ideia é chegar a 40 horas sem mexer no salário.
O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, resume essa prioridade ao afirmar que a mudança não passa apenas por contabilizar dias. “A lei tem que estabelecer a redução de jornada sem redução de salário, e a grade, com dois dias de descanso na semana, deve ser definida pelas negociações”, disse à Folha. O discurso sinaliza espaço para acordos entre empresas e sindicatos sobre como distribuir a nova carga horária.
O movimento do governo representa uma flexibilização em relação à PEC da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que propõe um salto mais ousado, de 44 para 36 horas semanais. Na prática, o Planalto tenta construir um meio-termo considerado mais palatável para parte do empresariado e da base parlamentar, sem ignorar o apelo popular pela redução de tempo no trabalho formal.
Quem apoia, quem resiste e o que está em jogo
Os números sugerem que o desejo por mais tempo livre atravessa o país, mas não de forma homogênea. A população economicamente ativa se divide hoje entre quem trabalha até cinco dias por semana, grupo que reúne 53% dos entrevistados, e quem cumpre seis ou sete dias, que soma 47%. Estranhamente, o segmento que mais poderia ganhar com o fim da escala 6×1 não é o mais entusiasmado com a ideia.
Entre os que trabalham seis dias ou mais, 68% apoiam a redução do número de dias trabalhados. No grupo que já cumpre até cinco dias, o apoio sobe para 76%. Pesquisadores do Datafolha veem na composição desses grupos uma pista para entender essa diferença. A faixa de jornada mais longa concentra mais autônomos e empresários, para quem horas extras muitas vezes significam aumento direto de renda. Do outro lado, os que trabalham até cinco dias reúnem mais funcionários públicos, menos vulneráveis a variações de salário ligadas ao tempo de serviço semanal.
O retrato por carga horária diária confirma o cansaço acumulado. Dois terços dos entrevistados (66%) dizem trabalhar até oito horas por dia, enquanto 28% relatam jornadas de mais de oito e até doze horas. Um grupo de 5% afirma passar de doze horas diárias no trabalho. Quando olham para a própria rotina, 49% avaliam ter tempo suficiente para lazer e descanso, 43% consideram o tempo insuficiente e apenas 8% dizem sobrar horas para se divertir.
A pressão é ainda maior entre quem vive a realidade de seis ou sete dias de trabalho. Nesse grupo, 59% afirmam não ter tempo suficiente para lazer, quase o dobro dos 29% que dão a mesma resposta entre aqueles com jornada semanal de até cinco dias. A percepção reforça o argumento de que a reforma da jornada vai além de uma disputa técnica e toca diretamente a forma como brasileiros organizam família, estudo e saúde.
O pano de fundo econômico, porém, ainda divide especialistas. Estudos setoriais projetam aumento de custos para as empresas, risco de corte de vagas formais e impacto negativo no PIB. Outros trabalhos contestam esse cenário pessimista e apontam que o ajuste de despesas ocorre em um único momento, pode ser diluído com planejamento e não tende a provocar aumento relevante do desemprego. Parte das análises lembra que experiências internacionais de redução de jornada, em geral, dependem de reengenharia de processos para evitar perda de produtividade.
Na percepção dos entrevistados, o saldo é mais otimista. Para 76% dos ouvidos pelo Datafolha, a redução da jornada será ótima ou boa para a qualidade de vida dos trabalhadores. Metade da população (50%) espera impacto ótimo ou bom para a economia brasileira como um todo, enquanto 24% preveem efeitos ruins ou péssimos. Quando a pergunta toca a esfera pessoal, 68% acreditam que a mudança será ótima ou boa para si próprios.
O recorte político mostra um país dividido, mas com maioria em favor da mudança em todos os lados. Entre os eleitores de Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022, 55% defendem o fim da escala 6×1 e 43% são contra. No grupo que votou em Lula, o apoio sobe a 82%, com 16% contrários. A percepção dos efeitos econômicos também segue a linha da polarização: 63% dos lulistas veem impacto positivo na economia, contra 37% entre bolsonaristas. Em ambos os casos, a margem de erro é de quatro pontos percentuais.
As diferenças aparecem ainda em outros recortes sociais. Entre católicos, 69% apoiam o fim da escala 6×1; entre evangélicos, 67%, considerando margens de erro de três e quatro pontos, respectivamente. Brasileiros que frequentam a igreja mais de uma vez por semana demonstram apoio menor (63%) do que aqueles que comparecem uma vez por ano (81%). O apoio também cai com a idade: 83% dos jovens de 16 a 24 anos defendem a proposta, ante 75% na faixa de 35 a 44 anos e 55% entre pessoas com 60 anos ou mais. Mulheres se mostram mais favoráveis (77%) que homens (64%), sempre com margem de erro de três pontos percentuais.
Disputa no Congresso e teste para empresas
O avanço do apoio popular pressiona o Congresso a dar respostas mais rápidas ao tema. A PEC de Erika Hilton permanece como referência para o campo que defende uma ruptura mais profunda com o modelo atual, enquanto o governo tenta moldar um texto que fixe a redução para 40 horas e deixe para a negociação coletiva a definição dos dois dias de descanso semanais. O fim formal da escala 6×1 abre uma frente de discussões em convenções trabalhistas e acordos setoriais nos próximos anos.
Empresas e sindicatos já se movimentam para medir o impacto financeiro e operacional da mudança. Uma jornada menor tende a exigir reorganização de turnos, revisão de metas e, em alguns setores, novas contratações para cobrir horas que deixarão de ser trabalhadas. Para o trabalhador, a promessa é de mais tempo livre e, em tese, mais saúde física e mental. Para o empregador, o desafio é preservar competitividade, especialmente em ramos com margens apertadas e forte concorrência internacional.
O desfecho legislativo ainda é incerto. A base governista tenta construir maioria em torno de um texto que reduza a jornada sem travar investimentos e sem alimentar o temor de perda de postos formais. O empresariado, por sua vez, busca blindagens que permitam adaptação gradual. No meio, um país que já trabalha muito, dorme pouco e agora coloca na agenda do Congresso uma pergunta direta: quanto do tempo do brasileiro ainda cabe dentro da semana de 44 horas?
