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Trump diz que Irã está derrotado e rejeita acordo buscado por Teerã

Donald Trump afirma, em postagem feita nas últimas 24 horas na rede Truth Social, que as Forças Armadas dos EUA “se saíram bem” contra o Irã e declara que Teerã está “totalmente derrotado”. O ex-presidente rejeita o tipo de acordo que, segundo ele, o Irã tenta negociar e diz que saberá quando a guerra terminar “nos ossos”.

Trump eleva o tom contra Teerã em meio à escalada regional

A nova mensagem de Trump surge em um momento em que o conflito entre Estados Unidos e Irã se mistura à instabilidade mais ampla do Oriente Médio. O republicano transforma, mais uma vez, sua rede favorita em palanque de política externa, ao sustentar que a campanha militar americana já teria imposto uma derrota completa a Teerã e ao descartar, de antemão, a saída diplomática desejada pelo regime iraniano.

No post, Trump afirma que os militares americanos “se saíram bem” contra o Irã, sem apresentar números, datas ou operações específicas. A declaração se soma, nesta semana, à frase em que ele diz que saberá que a guerra acabou quando sentir isso “nos ossos”, formulação que reforça uma leitura pessoal do conflito, ancorada mais em intuição do que em parâmetros oficiais como cessar-fogo, retirada de tropas ou acordo assinado.

A mensagem circula entre aliados republicanos no Congresso e diplomatas estrangeiros em Washington como mais um sinal de que, mesmo fora da Casa Branca, Trump busca influenciar o rumo da política americana para o Oriente Médio. A Truth Social, lançada em 2022, já soma milhões de contas ativas e funciona como atalho para pautar emissoras conservadoras, podcasts políticos e parte do debate público nos Estados Unidos.

Resposta iraniana expõe impasse e risco de prolongar o conflito

Autoridades iranianas reagem rapidamente. Na quinta-feira, a principal autoridade de segurança de Teerã afirma que o país não cederá até que “o presidente dos EUA se arrependa” do que chama de “grave erro de cálculo”. O porta-voz acrescenta que Trump busca uma vitória rápida diante de seu público interno, mas lembra que, embora iniciar uma guerra seja fácil, ela não pode ser vencida “com alguns tuítes”.

A troca de declarações aprofunda um impasse que leva anos para se consolidar. Desde a saída unilateral dos EUA do acordo nuclear de 2015, formalizada em maio de 2018, Washington e Teerã avançam em ciclos de sanções econômicas, ataques indiretos e ameaças abertas. O estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo todos os dias, permanece no centro das preocupações, pois autoridades iranianas já sugeriram, em outras ocasiões, a capacidade de fechar a rota em caso de escalada militar.

A atual crise ganha contornos mais amplos à medida que o Irã ameaça atacar infraestrutura petrolífera na região, inclusive na área próxima à Ilha de Kharg, ponto sensível da rede de exportação iraniana. Analistas em mercados de energia lembram que qualquer interrupção relevante nas rotas do Golfo Pérsico pode, em questão de dias, pressionar o preço do barril de petróleo acima de US$ 100, com impacto direto sobre inflação, frete e contas públicas em economias dependentes de importação, como o Brasil.

O embate retórico também atinge chancelerias europeias, que tentam há pelo menos 10 anos mediar algum formato de entendimento entre Washington e Teerã. A negativa pública de Trump a um acordo “que o Irã quer” reduz o espaço para iniciativas discretas de bastidores e empurra o tema novamente para a arena da política doméstica americana, onde qualquer gesto de acomodação costuma ser retratado como fraqueza por adversários internos.

Mercados, diplomacia e o que está em jogo adiante

O efeito prático das declarações não se limita à disputa de narrativas. A percepção de que um entendimento está mais distante alimenta a cautela de investidores globais. Fundos aumentam, em alguns casos, a exposição a ativos considerados seguros, como títulos do Tesouro dos EUA e ouro, enquanto reduzem posições em países emergentes expostos ao petróleo e ao transporte marítimo. Em 2023, segundo dados da Agência Internacional de Energia, o Oriente Médio responde por cerca de 31% da produção mundial de petróleo, porcentual suficiente para reprecificar todo o mercado em cenário de risco prolongado.

Na frente diplomática, o recado de Teerã de que não aceitará “ceder” antes de um suposto arrependimento americano fecha, por ora, a porta para concessões assimétricas. Em Washington, diplomatas avaliam, em conversas reservadas, que a retórica de vitória total de Trump deixa pouco espaço para negociações que envolvam alívio de sanções ou flexibilização em programas militares iranianos. Qualquer líder americano que sente à mesa de diálogo terá de lidar com a sombra das promessas máximas feitas em público.

Quem perde, no curto prazo, são civis que vivem em zonas de tensão, exportadores que dependem de rotas estáveis e governos que enfrentam inflação alta. Países europeus, que importam mais de 40% do petróleo de fora da região, temem repetir choques de preços como os de 2022. Na América Latina, economias com moeda fraca absorvem o impacto em gasolina, diesel e alimentos, o que pressiona orçamentos domésticos e abre espaço para descontentamento político.

Os próximos passos dependem menos de um único post e mais de como as partes transformam discurso em gesto concreto. Um aceno mínimo poderia vir na forma de canais discretos, via mediadores regionais, ou de compromissos públicos para limitar ataques a infraestrutura estratégica. A alternativa é a consolidação de um ciclo em que cada frase inflamável empurra as potências para posições ainda mais rígidas, prolongando a incerteza.

Trump insiste que reconhecerá o fim da guerra “nos ossos”. O Irã responde que guerras não se encerram em timelines de redes sociais. Entre a intuição de um ex-presidente e o cálculo de um regime sitiado por sanções, permanece aberta a pergunta central: quem, de fato, terá condições políticas de declarar que esse conflito acabou?

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