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Israel lança ofensiva coordenada com EUA para enfraquecer Hezbollah

Israel inicia no começo de 2026 uma ofensiva militar coordenada com os Estados Unidos para enfraquecer e neutralizar o Hezbollah no Líbano. A operação, concentrada na fronteira norte israelense, mira a estrutura militar do grupo aliado ao Irã e cria uma nova zona de segurança em território libanês.

Escalada planejada e janela de oportunidade

No início de janeiro, o alto comando israelense conclui, em sigilo, o esboço de uma nova campanha ao longo da fronteira com o Líbano. O objetivo é antigo e direto: reduzir de forma decisiva a capacidade do Hezbollah de lançar foguetes contra cidades e vilarejos do norte de Israel, após um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos em novembro de 2024 ter estancado, apenas no papel, meses de confrontos.

O acordo previa que o governo libanês desarmasse o grupo xiita apoiado pelo Irã. Autoridades israelenses afirmam que isso nunca acontece de fato. Em paralelo, o Hezbollah mantém parte de seu arsenal e desloca combatentes e armamentos para ao norte do Rio Litani, a cerca de 30 quilômetros da fronteira. A tensão permanece latente.

A equação muda em 2 de março. Menos de 48 horas depois de Israel e Estados Unidos lançarem ataques conjuntos contra o Irã, em resposta a ações atribuídas a Teerã, o Hezbollah dispara seis foguetes contra o norte de Israel. O ataque vem como retaliação à morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, em bombardeios israelenses. Em Jerusalém, o gesto é lido como erro estratégico.

“O Hezbollah caiu em uma emboscada estratégica”, diz o chefe do Comando Norte de Israel, major-general Rafi Milo. Ele classifica o disparo de foguetes como um “erro grave” e promete manter os ataques “até que o Hezbollah sofra um golpe sério”. A partir daí, a ofensiva ganha ritmo diário.

Ondas sucessivas de bombardeios atingem alvos em todo o Líbano. Israel afirma mirar dirigentes do Hezbollah, centros de comando, depósitos de armas, lançadores de mísseis e instalações de treinamento. Ao mesmo tempo, as Forças de Defesa de Israel (IDF) emitem dezenas de avisos de evacuação e empurram centenas de milhares de civis libaneses para o norte do Rio Litani.

O Ministério da Saúde do Líbano calcula mais de 680 mortos até a quarta-feira 11. Organismos internacionais alertam para um novo deslocamento em massa de famílias, em um país que já convive com crises econômica, política e humanitária profundas.

Zona tampão, disputa interna no Líbano e cálculo regional

Desde o cessar-fogo de 2024, Israel mantém uma base militar no sul do Líbano e controla cinco pontos estratégicos em território libanês. Nos últimos dias, tropas israelenses avançam mais de 1 quilômetro além da linha de fronteira e definem a presença como uma zona tampão de “defesa avançada”. Na prática, um cinturão de segurança que impede a aproximação de combatentes e lançadores do Hezbollah.

O presidente libanês, Joseph Aoun, condena o avanço e acusa Israel de ignorar “as leis da guerra e as leis internacionais”. Ao mesmo tempo, rompe publicamente com o Hezbollah, proíbe suas atividades militares e acusa o grupo de “trair o país” ao servir, segundo ele, “aos cálculos do regime iraniano”. O gesto expõe a disputa de poder em Beirute e isola politicamente a milícia xiita.

O Hezbollah, que por duas décadas recebe cerca de US$ 1 bilhão por ano do Irã, encara agora um patrocinador em turbulência interna. Protestos em larga escala pressionam o regime iraniano e colocam em xeque a capacidade de Teerã de continuar financiando, no mesmo ritmo, seu principal aliado no Líbano. Israel vê uma rara convergência de fatores: um Hezbollah sob pressão, um Irã distraído e o respaldo direto dos Estados Unidos.

A ofensiva atual é fruto dessa leitura. Israel admite que não conseguiu eliminar o arsenal do grupo durante os 13 meses de conflito iniciados após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023. Ao fim da guerra, a estimativa é de que o Hezbollah preserva até um terço de seus mísseis pré-guerra. “Seja 30% ou 10%, isso ainda é suficiente para representar uma ameaça séria aos civis no norte”, afirma um oficial israelense.

Mesmo sob ataques, o Hezbollah mantém capacidade de resposta. Lança centenas de foguetes e drones contra Israel, muitas vezes em coordenação com barragens de mísseis balísticos disparados pelo Irã. Em uma única noite, dispara mais de 100 foguetes. Também tenta incursões com forças de elite, como a unidade Radwan, e atinge posições israelenses no sul do Líbano. As IDF confirmam dois soldados mortos e ao menos 14 feridos.

Em Israel, a campanha encontra eco político na coalizão de direita que governa o país. A ideia de zonas tampão em Gaza, na Síria e agora no Líbano se encaixa na visão de uma fronteira mais larga e militarizada. O deputado do Likud Amit Halevi defende que o Rio Litani, a cerca de 9,6 quilômetros dentro do território libanês, “deve se tornar a nova Linha Amarela do norte”, referência à linha de retirada em Gaza.

Risco de guerra aberta e próximos movimentos

O comando israelense define dois objetivos para a campanha: degradar de forma duradoura as capacidades do Hezbollah e reforçar a defesa da fronteira norte. A experiência de outubro de 2023, quando mais de 60 mil moradores do norte tiveram de ser evacuados, pesa no planejamento. A meta declarada é evitar uma nova retirada em massa e impor, por meios militares, um afastamento permanente do Hezbollah da fronteira.

Assaf Orion, brigadeiro-general da reserva e integrante do Washington Institute for Near East Policy, resume o cálculo de Jerusalém. “Israel quer terminar o trabalho no Líbano”, afirma. Para ele, a atual conjuntura é vista como “oportunidade” para empurrar o Hezbollah para longe e redesenhar o equilíbrio regional, mesmo sob risco de prolongar o conflito.

No Líbano, o custo humano e político se acumula. A ofensiva amplia o desgaste de um Estado frágil, que depende de ajuda internacional e enfrenta divisão interna entre um governo que pede negociação direta com Israel e um grupo armado que insiste em manter o discurso de resistência. “É preciso lembrar quem detém as armas”, diz Orion, em referência ao poder militar real nas mãos do Hezbollah.

Em Teerã, a crise doméstica limita a margem de manobra, mas não elimina o interesse em projetar força. O Irã continua sendo, para Israel, o dossiê central. Militares em Tel Aviv avaliam que a prioridade imediata é administrar o front iraniano, em coordenação com Washington, enquanto mantêm a pressão sobre o Hezbollah em nível controlado.

A leitura entre analistas é que, passado o pico da confrontação com o Irã, Israel tende a direcionar mais recursos para o Líbano. Orion avalia que, quando a frente iraniana arrefecer, a força aérea israelense, hoje concentrada em Teerã e em seus aliados, estará livre para apoiar uma eventual ofensiva terrestre mais profunda contra o Hezbollah.

Washington acompanha o movimento com cautela. A Casa Branca, sob a presidência de Donald Trump, sinaliza que não quer uma guerra regional fora de controle, mas aceita uma janela de ação limitada para enfraquecer o Hezbollah. A dúvida, em capitais árabes e europeias, é se Israel conseguirá encerrar a operação no tempo e na escala calculados, ou se a zona tampão de hoje se converterá em presença prolongada, com novo ciclo de violência e instabilidade no Oriente Médio.

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