Ciencia e Tecnologia

Pokémon completa 30 anos com 1.025 monstros e fôlego renovado

Pokémon completa 30 anos nesta sexta-feira (27) tendo multiplicado por quase sete seu elenco de criaturas: salta de 151, em 1996, para 1.025 espécies em 2026. A expansão de 579% em três décadas mostra como a franquia japonesa transforma um jogo sobre capturar monstrinhos em uma engrenagem global de cultura pop, negócios e nostalgia.

De insetos nos arredores de Tóquio ao topo da cultura pop

Satoshi Tajiri passa a infância colecionando insetos na periferia de Tóquio e dali tira a ideia que, em 27 de fevereiro de 1996, chega ao mercado japonês em cartuchos simples de Game Boy. Trinta anos depois, a franquia batizada de Pokémon, abreviação de “pocket monsters” (monstrinhos de bolso), se torna a mais lucrativa da história da mídia, apoiada em jogos, anime, cartas, filmes e uma indústria de produtos que ocupa prateleiras no mundo inteiro.

O enredo parece elementar: capturar criaturas, treinar, evoluir e colocá-las para lutar, numa espécie de rinha fantasiosa de animais superpoderosos. A fórmula, porém, ganha camadas ao longo do tempo. A cada três ou quatro anos, uma nova geração de monstros chega aos consoles com regiões inéditas, tipos diferentes de elementos e ajustes finos na mecânica das batalhas. O resultado é um universo em expansão contínua, que conversa ao mesmo tempo com crianças que descobrem o jogo agora e adultos que guardam o primeiro álbum de figurinhas.

O levantamento de dados da PokéAPI, uma interface pública dedicada ao universo da série, e da Bulbapedia, enciclopédia colaborativa mantida por fãs, ajuda a dimensionar essa transformação. O salto de 151 para 1.025 espécies não é um inchaço aleatório, mas parte de uma estratégia de renovação calculada, que mantém o jogo reconhecível e, ao mesmo tempo, sempre diferente o suficiente para justificar um retorno.

Mapa global, bichos locais e batalhas mais sofisticadas

As quatro primeiras gerações ainda vivem em um mundo essencialmente japonês, com cidades e rotas inspiradas em regiões reais do país. Em 2010, “Pokémon Black & White” rompe essa fronteira ao se espelhar na região de Nova York. A partir daí, o mapa se torna global. Uma região baseada na França apresenta Furfrou, um poodle estilizado. A versão inspirada no Havaí traz Oricorio, um pássaro dançarino de hula. A reimaginação da península ibérica produz Smoliv, uma pequena azeitona ansiosa, que rapidamente vira favorita nas redes.

As escolhas geográficas carregam comentários discretos sobre o mundo real. Em “Pokémon Sun & Moon”, lançado em 2016 e ambientado em ilhas que lembram o Havaí, espécies invasoras ameaçam o equilíbrio dos ecossistemas, em diálogo direto com o histórico ambiental do arquipélago. Em 2019, “Pokémon Sword & Shield” transforma Corsola, antes um coral rosado, em uma versão pálida e fantasmagórica, referência explícita ao branqueamento provocado pelas mudanças climáticas.

Essa camada temática convive com a lógica dura do tabuleiro invisível das batalhas. Cada espécie tem um ou dois tipos elementares: água, fogo, planta, gelo, pedra, aço, veneno, psíquico, entre outros. Logo no início da aventura, o jogador precisa escolher seu primeiro parceiro com base nesse sistema. Água, mostra o cruzamento de dados, é o tipo mais comum, predominante em criaturas ligadas a rios, lagos e oceanos. O segundo é o chamado tipo normal, reservado a monstros que lembram animais comuns, sem poderes extravagantes.

O jogo desenha uma roda de forças e fraquezas. Planta resiste à água, mas sofre contra fogo. Insetos intimidam Pokémon psíquicos, numa tradução lúdica da fobia que muitas pessoas têm desses bichos. Quando a série estreia, em 1996, existem 15 tipos diferentes, com desequilíbrios claros: cerca de 22% das criaturas pertencem ao tipo veneno e apenas 2% são do tipo fantasma. Ao longo das gerações, a distribuição se torna mais homogênea, à medida que novos Pokémon corrigem lacunas e diluem excessos.

Os tipos, porém, contam só parte da história. Por trás de cada monstrinho há seis atributos numéricos que definem seu papel na arena: pontos de saúde, ataque, defesa, ataque especial, defesa especial e velocidade. Pedras gigantes acumulam ataque e defesa físicos, mas raramente se movem rápido. Criaturas psíquicas tendem a brilhar em ataques especiais, feitos de rajadas de energia e poderes mentais, enquanto resistem melhor a golpes do mesmo tipo. Quando alguém pergunta “qual Pokémon é mais forte?”, a resposta se esconde nessa combinação de números, não apenas na aparência ou na fama.

Fandom dividido, mercado aquecido e licença para o absurdo

A engrenagem central sofre poucas mudanças profundas em 30 anos, justamente para preservar a identidade do jogo. Quando alterações mais drásticas ocorrem, a reação dos fãs é imediata. Em 2013, “Pokémon X & Y” apresenta o tipo fada, imune aos golpes do tipo dragão, que dominam o cenário competitivo naquele momento. O movimento redistribui o poder entre os times e dá relevância a criaturas fofas e cor-de-rosa, antes vistas como secundárias. Parte da comunidade se irrita e questiona como gnomos e fadinhas podem derrubar bestas mitológicas. Outra parte aplaude o que considera um acerto de equilíbrio.

As discussões ajudam a manter viva uma cena competitiva que atravessa gerações de consoles e leva torneios oficiais a centros de convenções na América, Europa e Ásia. Ao mesmo tempo, um público ainda maior consome o universo à distância, pela TV aberta, que exibe o anime desde os anos 1990, ou por meio de cartas, aplicativos e pelúcias. Essa diversificação faz de Pokémon um caso raro: um produto pensado para portáteis de 8 bits que hoje alimenta emprego em estúdios de animação, fábricas de brinquedos, plataformas de streaming e equipes de desenvolvimento espalhadas pelo mundo.

O desenho dos monstrinhos também acompanha essa expansão. Ao lado de figuras icônicas como Pikachu, Charizard e Eevee, surgem criaturas que parecem piadas internas da equipe criativa. Vanilluxe, um sorvete de casquinha sorridente. Trubbish, um saco de lixo com jeito de gato de rua. Klefki, um chaveiro flutuante. A convivência desses personagens com deuses do tempo e do espaço, como Dialga e Palkia, vira motivo de deboche e afeto nas mesmas proporções.

Dessa mistura nasce um lema que circula em fóruns e ganhou status de slogan de aniversário: “todo Pokémon é o favorito de alguém”. O bordão sintetiza o pacto silencioso entre criadores e público. A franquia assume a liberdade de ser absurda e, em troca, oferece a cada jogador a chance de adotar um monstrinho improvável como companheiro de jornada. O vínculo pessoal segura o interesse mesmo quando os gráficos envelhecem ou uma geração específica desagrada.

Próximos 30 anos: menos nostalgia, mais reinvenção

O marco de 1.025 espécies funciona como um inventário de tudo o que deu certo no passado e, ao mesmo tempo, como um desafio para o futuro. A cada novo jogo, a equipe precisa convencer um adolescente conectado a abandonar o celular por dezenas de horas diante de um RPG de texto abundante e batalhas por turno, um formato que surge antes mesmo da internet comercial. Para isso, combinações de tipos e atributos seguem ganhando complexidade, enquanto temas ambientais, referências culturais e personagens excêntricos abrem espaço para novas leituras.

O próximo passo passa por uma pergunta incômoda para a própria marca: até que ponto é possível continuar empilhando monstrinhos, regiões e regras sem perder quem chega agora? A resposta, por enquanto, parece favorável à série. Três décadas depois do primeiro cartucho, crianças ainda aprendem a pronunciar “Pikachu” antes de saber ler, adultos lotam campeonatos e APIs de fãs computam com precisão quase científica o universo de dados por trás dos 1.025 Pokémon. O aniversário de 30 anos não encerra um ciclo. Abre espaço para que a obra de um garoto obcecado por insetos continue se transformando, geração após geração, em um dos mundos ficcionais mais persistentes do entretenimento.

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