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Governo Zema corta 96% da verba contra impacto das chuvas em MG

O governo de Minas Gerais reduz, em dois anos, a verba para prevenção contra impacto das chuvas de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões até fevereiro de 2026. A decisão, tomada na gestão de Romeu Zema (Novo), atinge diretamente municípios como Juiz de Fora e Ubá, que enfrentam temporais letais e infraestrutura frágil.

Corte rápido em meio a temporais recorrentes

Entre 2024 e o início de 2026, o orçamento estadual para ações de prevenção contra enchentes e deslizamentos encolhe cerca de 96%. Na prática, o valor disponível para obras de contenção, drenagem, monitoramento de encostas e limpeza preventiva de córregos e galerias pluviais quase desaparece do caixa mineiro. O recuo ocorre enquanto o estado convive, ano após ano, com cenas repetidas de bairros alagados, encostas cedendo e famílias desalojadas.

Juiz de Fora e Ubá se tornam símbolos dessa equação. Nos dois municípios, temporais recentes deixam ao menos 30 mortos, dezenas de feridos e milhares de desabrigados. Ruas se transformam em rios barrentos, pontes são interditadas, casas desmoronam em áreas já mapeadas como de risco. Em várias comunidades, moradores dizem que passam mais um verão ouvindo promessas de obras que nunca saem do papel.

Verba encolhe, risco aumenta

O corte drástico em prevenção desmonta uma estrutura que já era considerada insuficiente por especialistas em desastres climáticos. Técnicos ouvidos por prefeituras calculam que, com R$ 135 milhões anuais, Minas já operava no limite para um território com 853 municípios e histórico de chuvas intensas. Com apenas R$ 6 milhões, o estado perde capacidade mínima de planejar intervenções, priorizar áreas críticas e dar suporte técnico às cidades mais vulneráveis.

“Prevenção não é gasto supérfluo, é seguro de vida coletivo”, afirma um engenheiro especializado em geotecnia que presta consultoria a municípios da Zona da Mata. Ele lembra que cada real investido antes da tragédia costuma poupar múltiplos em reconstrução, indenizações e perda de arrecadação. Em Juiz de Fora, o enxugamento da verba deixa pendentes obras de contenção em encostas que já haviam sido alvo de laudos com alerta vermelho. Em Ubá, projetos de ampliação de galerias pluviais e de recuperação de margens de rios são engavetados ou fatiados.

Pressão fiscal e escolhas políticas

No Palácio da Liberdade, a justificativa oficial para o corte é o aperto fiscal. A equipe de Zema argumenta que a folha de pagamento, a dívida com a União e compromissos obrigatórios em saúde e educação comprimem o espaço para investimentos. A decisão de reduzir a verba de prevenção, porém, não é apenas contábil. Ela reflete, segundo gestores municipais, uma escolha de prioridades em um cenário de recursos escassos.

Prefeitos relatam que o estado orienta as cidades a recorrerem a emendas parlamentares e a convênios pontuais com o governo federal para bancar parte das ações de prevenção. Na prática, isso submete obras urgentes ao calendário político e à barganha entre bases aliadas e oposição. “Quando a chuva cai, o morador não quer saber se o dinheiro veio de emenda ou de convênio, ele quer que o muro não desabe”, diz um gestor de Defesa Civil de cidade vizinha a Ubá.

Minas sob eventos extremos mais frequentes

O encolhimento do orçamento acontece no momento em que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes em todo o país, com verões mais chuvosos e temporais concentrados em poucas horas. Modelos climáticos indicam que Minas Gerais tende a continuar enfrentando volumes intensos de chuva em curtos períodos, cenário que amplia a necessidade de drenagem eficiente, contenção de encostas e ocupação urbana planejada.

Especialistas em clima alertam que a combinação de cortes orçamentários, ocupação irregular de morros e margens de rios e envelhecimento da infraestrutura cria uma “tempestade perfeita” para tragédias recorrentes. Em bairros de Juiz de Fora, moradores relatam que sirenes de alerta tocam cada vez com mais frequência, mas as intervenções estruturais não acompanham o risco crescente. “Sabemos que vai cair casa todo ano, só não sabemos onde nem de quem”, diz uma líder comunitária que vive há três décadas em área de encosta.

Quem paga a conta da economia

A decisão de reduzir a verba de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões não atinge todos da mesma forma. Regiões com mais estrutura técnica e política conseguem preservar parte das obras por meio de projetos já encaminhados. Municípios menores, com orçamento apertado e equipes reduzidas, ficam mais expostos. Famílias em encostas irregulares, vilas em fundos de vale e moradores de periferias ribeirinhas assumem o maior risco.

A cada temporal, o poder público se vê forçado a abrir crédito emergencial para socorro, abrigo e reconstrução. O que deixara de ser gasto em prevenção reaparece multiplicado na conta de reconstrução de pontes, pavimentação de ruas destruídas e recomposição de redes de água e energia. “Economizar em prevenção é adiar a despesa, não eliminá-la”, resume um pesquisador em políticas públicas da região metropolitana de Belo Horizonte.

Cobrança crescente e disputa política

O impacto dos temporais recentes e o número de mortes alimentam uma pressão crescente sobre o governo Zema. Deputados estaduais pedem explicações formais para a redução do orçamento e discutem a convocação de secretários para audiências públicas na Assembleia Legislativa. Bancadas de oposição acusam a gestão de negligência com a vida de moradores de áreas de risco; aliados tentam enquadrar o debate como disputa eleitoral antecipada.

Organizações da sociedade civil e entidades técnicas defendem a revisão imediata da verba destinada à prevenção já para o próximo exercício orçamentário. A expectativa é de que a combinação de imagens de destruição, relatórios de engenheiros e laudos da Defesa Civil fortaleça a cobrança pública por mais investimentos. Sem uma mudança de rota, a pergunta que ganha força em Minas Gerais não é se novas tragédias vão ocorrer, mas quantas vidas ainda serão perdidas até que a prevenção volte ao centro da política estadual.

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