Criador do Xbox diz que Microsoft prepara fim do console por IA
Um dos pais do Xbox afirma, em 2026, que a Microsoft está descontinuando o console e preparando o fim de seu negócio de jogos, apesar dos desmentidos oficiais.
Crítico de dentro da história do Xbox
Seamus Blackley, executivo que lidera a criação do primeiro Xbox em 2001, rompe o discurso alinhado da Microsoft em entrevista ao site GamesBeat. Vinte e cinco anos depois do lançamento do console, ele diz enxergar um plano silencioso para encerrar a divisão de jogos enquanto a empresa redireciona bilhões de dólares para inteligência artificial.
Na conversa, concedida em 2026, Blackley afirma que o Xbox “não é parte essencial” da estratégia ampla de IA traçada pelo CEO Satya Nadella. “Portanto, está sendo descontinuado”, resume. A leitura dele contrasta com comunicados recentes da companhia, que prometem um “retorno do Xbox” sob nova liderança. Mas o criador do console vê a mesma história por outro ângulo.
O estopim é a nomeação de Asha Sharma, executiva da equipe de IA da Microsoft, para o comando global do Xbox após a aposentadoria de Phil Spencer e a renúncia de Sarah Bond. Sharma assume a área mais sensível da divisão de games sem histórico público no setor. Para Blackley, esse detalhe não é acaso, é sinal do rumo que a alta direção adota.
“Eles não dizem isso, mas é o que está acontecendo”, diz o executivo. Ele compara o papel da nova CEO a uma médica de cuidados paliativos encarregada de “conduzir o Xbox suavemente para o fim da linha”. A metáfora, carregada, atiça uma comunidade de jogadores que já desconfia das mudanças recentes depois de mais de duas décadas de consoles, de Halo a Game Pass.
Choque entre legado dos jogos e aposta em IA
Blackley aponta para a visão de Satya Nadella como raiz do conflito. Segundo ele, o CEO acredita que a inteligência artificial “absorverá” os jogos “como absorverá tudo”. Em outras palavras, a Microsoft enxerga a IA como plataforma central, capaz de engolir mercados inteiros, inclusive o de videogames tradicionais, que hoje movimenta mais de US$ 180 bilhões por ano no mundo.
O criador do Xbox argumenta que o trabalho de executivos como Sharma é simplesmente guiar cada unidade de negócios, “com delicadeza”, para esse novo mundo orientado por IA. “É isso que estamos vendo aqui”, afirma. Para ele, seria surpreendente se a Microsoft colocasse no comando alguém “apaixonado por jogos” e pelo modelo de negócios centrado em criadores, porque isso entraria “em conflito direto” com a nova estratégia corporativa.
Na avaliação de Blackley, a Microsoft deixa de lado o modelo autoral que marca artes como cinema, música e, sobretudo, games. A empresa passa a se definir como uma fornecedora de ferramentas de IA para clientes corporativos e desenvolvedores, em linha com o crescimento acelerado de produtos como o Copilot e parcerias multibilionárias no setor. “A Microsoft é uma empresa que agora busca capacitar seus clientes, permitindo que a IA impulsione as coisas”, diz. Esse foco, segundo ele, está “em desacordo” com a lógica de conteúdo original que sustentou o Xbox desde 2001.
O diagnóstico, porém, tromba com a versão oficial. Ao assumir, Asha Sharma promete “o retorno do Xbox” e fala em se reconectar com os fãs mais fiéis do console. Ela garante que não vai “buscar eficiência a curto prazo” nem “inundar” o ecossistema com IA de baixa qualidade. Nadella, em comunicado, afirma “acreditar firmemente nos jogos e em seu papel central” nas ambições da empresa com o consumidor final.
Indústria em alerta e futuro em disputa
Na prática, o Xbox segue com uma fila de lançamentos confirmados para este ano e os próximos. Novos capítulos de séries como Fable, Halo e Call of Duty aparecem em calendários públicos, e a empresa fala em um novo console para os próximos anos. O que muda, e ainda ninguém responde com clareza, é se esses produtos inauguram uma despedida lenta da marca ou um reposicionamento mais profundo em torno da IA.
A incerteza preocupa uma cadeia que emprega dezenas de milhares de pessoas em estúdios próprios, times de publicação e empresas parceiras. Desenvolvedores que planejavam projetos de longo prazo para a plataforma se perguntam se precisarão migrar para o PC, para o ecossistema PlayStation ou para serviços em nuvem dominados justamente por grandes companhias de tecnologia.
Para consumidores, o risco imediato não é o fim súbito do Xbox que está na sala de estar, mas o horizonte encurtado. Planos de retrocompatibilidade, suporte a servidores online e continuidade de serviços como o Game Pass se tornam questões centrais. O histórico do mercado mostra que, quando um fabricante encerra uma linha, o suporte costuma minguar em poucos anos.
Uma mudança de rota da Microsoft pode redesenhar o tabuleiro dos consoles. Sony e Nintendo ganham espaço se o Xbox perder protagonismo, mas também enfrentam pressão para acelerar investimentos em IA e jogos em nuvem. A decisão de um gigante que faturou mais de US$ 200 bilhões em 2025 tem efeito cascata: fornecedores, motores gráficos, estúdios independentes e até escolas de desenvolvimento de jogos ajustam planos quando a demanda migra.
Xbox entre promessa oficial e suspeita de desmonte
A nova CEO tenta, até aqui, equilibrar o discurso. Sharma repete que “não tolera IA ruim” e insiste que a tecnologia deve melhorar experiências, não substituí-las de forma barata. Ao mesmo tempo, a própria trajetória dela dentro da Microsoft, surgindo da equipe de IA, reforça a percepção de que a divisão de jogos se integra a um projeto maior, comandado pelos mesmos algoritmos que movem nuvem, busca e escritório.
O ruído entre o que a Microsoft promete e o que um dos criadores do Xbox enxerga expõe o momento de transição mais delicado da história da marca, às vésperas de completar 25 anos. A empresa garante que a era do console continua. Blackley aposta que ela se encerra, ainda que de forma gradual. O próximo anúncio de hardware, o rumo dos grandes estúdios internos e o espaço dado a jogos em meio à avalanche de IA vão dizer qual dessas versões prevalece.
