Guerra na Ucrânia completa 4 anos com 20% do país sob controle russo
A guerra na Ucrânia completa quatro anos em fevereiro de 2026 com um saldo que redefine o mapa da Europa. O conflito já matou cerca de 15 mil civis, 140 mil militares ucranianos e mantém 20% do território do país sob controle da Rússia.
Quatro anos de uma guerra que não termina
O aniversário do conflito expõe uma realidade de desgaste prolongado, fronteiras instáveis e um país partido. Enquanto Moscou consolida posições no leste e no sul da Ucrânia, Kiev tenta resistir com tropas exaustas, economia fragilizada e dependência crescente de apoio militar e financeiro do Ocidente.
As linhas de frente se estendem por centenas de quilômetros, cortando cidades industriais, vilarejos agrícolas e antigas áreas mineradoras. Em muitas regiões, a rotina se resume a sirenes de alerta, abrigos anti-bomba e reconstruções que mal terminam antes de novos ataques. Autoridades locais relatam bairros inteiros abandonados, escolas destruídas e hospitais operando no limite.
O conflito começa em fevereiro de 2022, quando tropas russas cruzam a fronteira em várias frentes, após meses de escalada e ameaças. A ofensiva transforma uma disputa territorial iniciada em 2014, com a anexação da Crimeia, em guerra aberta em larga escala. Em poucos dias, milhões de ucranianos deixam suas casas; quatro anos depois, muitos não têm mais para onde voltar.
Diplomatas europeus descrevem hoje uma guerra de atrito, em que ganhos de terreno se medem em metros, ao custo de dezenas de vidas por dia. “A Ucrânia luta pela própria sobrevivência como Estado soberano, enquanto a Rússia tenta reescrever as regras de segurança na Europa”, resume um embaixador da União Europeia em Kiev, sob condição de anonimato.
Crise humanitária prolongada e novo equilíbrio de forças
Os números revelam a dimensão da tragédia. Organismos internacionais estimam cerca de 15 mil civis mortos em quatro anos de guerra, além de 140 mil militares ucranianos. O país vive uma crise humanitária persistente, com deslocamentos em massa, infraestrutura destruída e uma geração inteira marcada pela experiência da guerra.
A Ucrânia calcula que milhões de pessoas deixaram suas cidades desde 2022, em busca de abrigo em regiões mais seguras ou em países da Europa. Trens lotados, fronteiras congestionadas e centros de acolhimento improvisados se tornaram imagens recorrentes desde o início da invasão. “Não é mais uma emergência, é o nosso cotidiano”, diz a professora de história Olena K., de 42 anos, que hoje vive em um abrigo coletivo no oeste do país.
O impacto vai além das fronteiras ucranianas. A guerra obriga a Europa a rever sua dependência energética da Rússia, acelera investimentos em fontes alternativas e pressiona orçamentos públicos com gastos militares e auxílio a refugiados. Governos da Otan rediscutem níveis de tropas, bases e sistemas de defesa aérea no leste do continente, em um cenário de desconfiança permanente em relação a Moscou.
As sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, União Europeia e aliados isolam a economia russa em vários setores, mas não interrompem o esforço de guerra. Empresas deixam o país, ativos são congelados, bancos enfrentam restrições, ao mesmo tempo em que o Kremlin busca novos parceiros na Ásia e no Oriente Médio. “As sanções aumentam o custo da guerra para Moscou, mas não mudam a decisão política do Kremlin”, avalia um analista de segurança em Bruxelas.
Pressão diplomática, cansaço e uma paz distante
O prolongamento do conflito alimenta debates intensos sobre os limites do apoio internacional à Ucrânia. Nos Estados Unidos e na Europa, cresce a pressão interna por transparência nos gastos militares e por uma estratégia de saída que não signifique, na prática, a legitimação das conquistas territoriais russas.
O governo ucraniano insiste que qualquer negociação precisa considerar a recuperação integral do território, incluindo áreas ocupadas desde 2014. A posição russa, expressa em pronunciamentos oficiais, aponta na direção oposta: Moscou fala em “novas realidades no terreno” e defende o controle permanente sobre as regiões hoje sob sua administração. As duas agendas se chocam e bloqueiam tentativas de mediação.
Consultores militares em Kiev afirmam que 2026 será decisivo para definir o rumo da guerra. A Ucrânia depende de um fluxo contínuo de armamentos, munições e recursos financeiros para manter sua capacidade de defesa. A Rússia aposta na resistência econômica interna, no apoio de parceiros estratégicos e no cansaço político das democracias ocidentais.
A cada mês que passa, cresce o risco de normalização da guerra, tratada como pano de fundo da política internacional. O conflito, porém, segue rearranjando alianças, testando a coesão europeia e influenciando cálculos de potências como China, Irã e Turquia. A fronteira ucraniana permanece como linha de falha do sistema internacional.
Quatro anos depois da invasão em larga escala, nenhuma das partes obtém uma vitória clara e o custo humano continua a subir. Civis seguem enterrando seus mortos, governos ajustam discursos e soldados voltam para a linha de frente. A pergunta que ecoa em Kiev, Moscou, Bruxelas e Washington é a mesma: por quanto tempo o mundo ainda suporta uma guerra sem horizonte de fim?
