Valdemar defende Tereza Cristina ou Zema como vice de Flávio em 2026
O presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, defende que Flávio Bolsonaro tenha Tereza Cristina ou Romeu Zema como vice na disputa presidencial de 2026. A avaliação é apresentada nesta segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026, em evento com empresários em São Paulo, e vem acompanhada de uma autocrítica: a escolha do general Walter Braga Netto como vice de Jair Bolsonaro em 2022 foi, segundo ele, um erro estratégico.
Autocrítica de 2022 e recado para 2026
Valdemar fala em um salão lotado do Esfera Brasil, grupo que reúne empresários e investidores. Ao revisitar a campanha de 2022, ele admite que o entorno de Jair Bolsonaro erra ao optar por um vice de perfil militar, sem apelo direto ao eleitorado feminino. “Foi um erro estratégico”, afirma, ao comentar a indicação de Braga Netto.
O dirigente conta que, há quatro anos, leva a Bolsonaro pesquisas qualitativas que mostram rejeição alta entre mulheres e defende a entrada de um nome feminino na chapa. Cita a senadora Tereza Cristina como alternativa capaz de suavizar a imagem do então presidente e abrir espaço em segmentos em que o PT mantinha vantagem. A recomendação, relembra, não prospera. Bolsonaro insiste no general, mantém o discurso duro até o fim da campanha e termina derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva em uma disputa decidida por menos de 2 pontos percentuais.
Ao recuperar esse roteiro, Valdemar prepara o terreno para o que considera ser o grande desafio de 2026: chegar à frente ainda no primeiro turno. Ele diz não enxergar cenário em que o segundo turno não envolva Lula e um candidato apoiado pelo PL, hoje trabalhado em torno do nome de Flávio Bolsonaro. Por isso, insiste que a composição da chapa precisa mirar não apenas a base fiel de direita, mas também os segmentos em que o bolsonarismo ainda patina, como as mulheres e parte do eleitorado de grandes centros urbanos.
O cálculo passa por uma leitura pragmática da correlação de forças. Na avaliação de Valdemar, a eleição tende a ser “bastante equilibrada” e decidida por diferença apertada. Cada ponto percentual, reforça, pode fazer a diferença entre uma vitória antecipada e a volta a um segundo turno fragmentado, com a direita dividida em mais de uma candidatura competitiva.
Vice com apelo feminino ou peso regional
Com esse pano de fundo, o presidente do PL defende dois caminhos para a chapa: um vice que traduza a aposta no voto feminino ou um nome com densidade regional robusta. Nesse desenho, Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura e senadora, aparece como a opção que, segundo ele, “pode atrair o voto feminino” e sinalizar moderação a setores do empresariado e do agronegócio que hoje flertam com mais de um campo político.
Romeu Zema, governador de Minas Gerais pelo Novo, surge como alternativa de peso regional. Minas é o segundo maior colégio eleitoral do país, com cerca de 16 milhões de eleitores em 2022, e costuma ser visto como fiel da balança em disputas presidenciais. A presença de um mineiro na chapa, pondera Valdemar, reforçaria a força da direita em um estado onde Lula venceu por margem reduzida na última eleição.
O movimento, porém, não é simples. Zema já declara publicamente que pretende disputar o Palácio do Planalto em 2026. Sua eventual entrada como vice exigiria uma reconfiguração das alianças da direita e um acordo envolvendo, no mínimo, PL, Novo e outras siglas conservadoras. Nos bastidores, dirigentes admitem que qualquer composição desse tipo só avança se houver garantia de protagonismo para o governador mineiro em um eventual governo.
Valdemar evita cravar preferência pessoal e diz que o assunto ainda está em discussão. Reitera, no entanto, que uma mulher na vice “poderia agregar eleitoralmente” e que pretende conversar com Tereza Cristina e outros cotados nas próximas semanas. A mensagem, dirigida tanto à plateia empresarial quanto ao campo político conservador, é clara: o PL quer corrigir o que vê como erro de cálculo da eleição passada e testar uma fórmula que some votos além do núcleo duro bolsonarista.
Disputa interna, unidade da direita e próximos passos
A defesa pública de uma chapa encabeçada por Flávio Bolsonaro também joga luz sobre a disputa interna de protagonismo no bolsonarismo. Valdemar faz questão de dizer que a “palavra final” será de Jair Bolsonaro, a quem atribui a liderança natural do campo e a prerrogativa de abençoar a composição. O gesto busca acalmar ruídos recentes com Carlos Bolsonaro, que reagiu a declarações do dirigente sobre quem manda nas candidaturas estaduais.
Em São Paulo, Valdemar tenta minimizar o conflito. Explica que há, hoje, um arranjo tácito: Bolsonaro indica nomes ao Senado, enquanto a executiva nacional, em diálogo com deputados e lideranças locais, conduz as articulações para governos estaduais. Trata como “debate interno” a divergência gerada após Carlos afirmar, no fim de semana, que o pai prepara uma lista de candidatos que pretende apoiar em 2026 em diversos estados.
O recado ao público do Esfera Brasil é que, apesar dos atritos, a direita precisa caminhar para uma convergência. Valdemar alerta que múltiplas candidaturas conservadoras apenas facilitariam a vida do PT e de Lula, que tenta manter a coalizão que o elegeu em 2022. Um dos objetivos da costura em torno de Flávio Bolsonaro, afirma, é oferecer ao eleitorado um polo claro de oposição, capaz de dialogar com partidos médios e com o empresariado que hoje se mostra dividido.
Os próximos meses devem ser de sondagens discretas e reuniões reservadas. Tereza Cristina, que constrói pontes tanto com o agronegócio quanto com o Congresso, passa a ser cortejada como peça-chave de uma campanha que tenta reduzir a distância histórica do bolsonarismo em relação ao eleitorado feminino, que representa cerca de 52% dos votantes. Zema, por sua vez, mensura o custo de abandonar um projeto próprio de Planalto para compor como vice, em troca de influência em uma eventual gestão federal.
Enquanto isso, Lula trabalha para preservar sua base e testar alternativas internas, caso decida não concorrer. A movimentação de Valdemar antecipa uma disputa que, a 32 meses da eleição, já transborda para o centro do palco. A principal pergunta, por ora sem resposta, é se a direita conseguirá transformar o diagnóstico tardio de 2022 em uma aliança ampla o suficiente para evitar que a escolha do vice, outra vez, custe a vitória.
