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Esposa de Hugo Souza cobra Marcos após risadas sobre caso de racismo

A vitória do Corinthians sobre a Portuguesa, nos pênaltis, em 23 de fevereiro de 2026, termina fora de campo com uma acusação de racismo e uma cobrança pública a um ídolo rival. Após manifestações racistas de torcedores contra o goleiro Hugo Souza, o ex-goleiro Marcos reage com risadas nas redes sociais. A esposa do corintiano, Rauany Barcellos, responde em tom de indignação e exige explicações do ex-jogador do Palmeiras.

Racismo em campo e reação nas redes

O episódio começa no gramado, na noite de domingo, durante as quartas de final do Campeonato Paulista, quando Corinthians e Portuguesa decidem a vaga nos pênaltis. Hugo Souza, um dos protagonistas da classificação alvinegra, passa a ser alvo de manifestações racistas vindas do setor da torcida adversária, em meio à frustração pela eliminação da Lusa.

Os xingamentos e imitações de cunho racial surgem justamente após as defesas do goleiro na disputa de pênaltis, que garantem a vaga corintiana. A partida termina, mas o caso segue vivo nas redes sociais, onde vídeos e relatos começam a circular ainda na madrugada de segunda-feira. Nesse ambiente, um comentário em especial acende um novo foco de tensão: Marcos, ex-goleiro e símbolo do Palmeiras nos anos 1990 e 2000, reage a uma postagem sobre o ato racista usando emojis de risada.

A reação, em poucas figuras na tela, ganha peso pela biografia de quem a assina. Marcos constrói a carreira sobre a imagem de jogador popular, identificado com arquibancada, campeão da Libertadores em 1999 e do mundo com a seleção brasileira em 2002. Ao responder com risos a um episódio de racismo, ele cruza uma linha sensível em um cenário em que o futebol brasileiro tenta, ao menos no discurso oficial, endurecer contra discriminação.

Cobrança pública e desgaste de imagem

A primeira reação direta vem de dentro da própria casa de Hugo Souza. Rauany Barcellos, esposa do goleiro, publica uma resposta dura ao ex-jogador. Em tom de cobrança, ela pede que Marcos explique o que exatamente considera engraçado no ataque racista sofrido pelo marido. “Quero entender o que tem de motivo de risada em racismo”, escreve, em referência aos emojis deixados por ele. A mensagem rapidamente ganha repercussão entre torcedores corintianos e também entre palmeirenses que veem exagero, constrangimento ou decepção na postura do ídolo.

O caso se espraia por perfis de torcidas organizadas e páginas de debate esportivo, que resgatam outras denúncias de racismo no futebol brasileiro nos últimos anos. Em 2023, por exemplo, o atacante Vinícius Júnior transforma a Liga espanhola em alvo da Fifa após insultos repetidos. Em 2024, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva endurece punições a clubes em casos de discriminação, com perda de mando de campo e multas acima de R$ 100 mil. O histórico recente reforça a percepção de que manifestações racistas já não passam incólumes, mesmo quando surgem das arquibancadas.

No centro desse debate, a postura de Marcos vira teste para a responsabilidade de ex-atletas que hoje vivem principalmente de sua presença digital. Ele acumula milhões de seguidores, é voz ativa em programas esportivos e campanhas publicitárias, e costuma se apresentar como “torcedor com luvas”. O riso diante de uma denúncia de racismo passa a ser lido como chancela à hostilidade dirigida a Hugo Souza, em um momento em que a fronteira entre provocação de rivalidade e violência simbólica está em permanente disputa.

A imagem pública do ex-goleiro entra em xeque, e o silêncio inicial pesa. Enquanto torcedores cobram uma retratação e patrocinadores acompanham o debate, a discussão escapa do eixo Corinthians x Palmeiras e alcança jornalistas, juristas e entidades ligadas ao combate ao racismo. A pergunta que se impõe é se figuras com o alcance de Marcos podem se permitir reagir com leveza a episódios dessa natureza sem enfrentar consequências.

Pressão por postura institucional e próximos passos

O caso se desenrola em um ambiente em que clubes e federações são cada vez mais pressionados a agir de forma rápida. A Federação Paulista de Futebol, que em temporadas recentes anuncia campanhas contra racismo em peças de marketing e nas transmissões, passa a ser cobrada para identificar os torcedores envolvidos e avaliar punições. A Portuguesa, eliminada em campo, é empurrada para o centro de um debate que vai além do resultado esportivo e atinge sua reputação. A eventual abertura de inquérito policial, com base na lei de crimes raciais, pode transformar o episódio em caso de Justiça comum, com risco de condenação criminal para envolvidos.

Para o Corinthians, o episódio representa tanto uma vitória esportiva quanto um desafio institucional. O clube tenta se posicionar como defensor de seus jogadores e de pautas antirracistas, mas precisa lidar com um ambiente de redes sociais em que discursos de ódio circulam com rapidez. A exposição de Hugo Souza, que sai de herói da classificação para vítima de ofensas raciais em questão de minutos, mostra como a carreira de um atleta hoje se desenrola em dois campos simultâneos: o gramado e o feed.

A repercussão também atinge o entorno de Marcos. Marcas que associam sua imagem ao ex-goleiro monitoram o impacto das críticas, em um momento em que contratos publicitários consideram cláusulas de conduta em redes sociais. Um pedido de desculpas público, caso venha, pode atenuar o desgaste, mas dificilmente apagará as reações registradas e replicadas em capturas de tela e vídeos. Em 2026, o rastro digital de qualquer gesto vira parte do dossiê permanente de uma figura pública.

O episódio recoloca no centro do debate a pergunta sobre o limite entre rivalidade esportiva e violência racial. Torcedores se provocam desde sempre, lembram derrotas e títulos, criam gritos e memes que atravessam gerações. Quando a provocação se apoia na cor da pele ou em estereótipos raciais, entra no campo do crime. A reação de Marcos, ainda que resumida a emojis, passa a ser examinada a partir dessa fronteira.

Os próximos dias tendem a trazer posicionamentos oficiais de clubes, manifestações da FPF e, possivelmente, um esclarecimento do próprio Marcos. A forma como ele responde à cobrança de Rauany Barcellos será decisiva para medir o tamanho definitivo do estrago em sua imagem. Enquanto isso, o futebol paulista se vê obrigado a lidar com uma questão que já não cabe apenas em notas de repúdio: que tipo de mensagem seus ídolos escolhem reforçar quando o racismo volta a aparecer em campo?

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