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Dirceu pressiona PT a manter Lula-Alckmin e alerta para risco eleitoral

José Dirceu defende, nesta segunda-feira (23), em reunião da Executiva Nacional do PT em São Paulo, a manutenção de Geraldo Alckmin como vice na chapa de Lula em 2026. O ex-ministro alerta que qualquer mudança pode provocar instabilidade política e custar a eleição presidencial.

Aliança sob tensão em reunião na Lapa

A cúpula do PT se fecha em uma sala na sede do diretório estadual, na Lapa, zona oeste de São Paulo, para discutir 2026. Ao longo de horas, dirigentes cruzam avaliações eleitorais, mapas de alianças regionais e cenários de crise. O ponto mais sensível da tarde recai sobre a chapa presidencial e expõe, com nitidez, as fissuras internas do partido.

É nesse ambiente que Dirceu toma a palavra e faz um alerta direto. Segundo relato obtido pelo jornal O Globo, o ex-ministro insiste que a presença de Alckmin na chapa não é um detalhe de composição, mas um pilar da estratégia nacional. A retirada do vice, avalia, pode desorganizar apoios, abrir espaço para desconfianças no mercado e na classe média e, sobretudo, facilitar a vida dos adversários.

A direção petista escuta em silêncio. Setores do partido enxergam em Alckmin um passaporte para além do eleitorado tradicional da sigla, principalmente em São Paulo e no Centro-Sul. Outros, porém, gostariam de reavaliar a engenharia da aliança e cobram maior identidade programática na chapa. A reunião desta segunda-feira deixa claro que, por ora, a cautela prevalece.

Dirigentes lembram que a eleição de 2022 se decide por diferença estreita, de menos de 2 pontos percentuais no segundo turno. O vice, que até poucos anos antes governa São Paulo pelo PSDB, ajuda Lula a quebrar resistências históricas em um estado onde o PT amarga seguidas derrotas, inclusive em 2024. A mensagem implícita de Dirceu é que o partido não tem margem para apostas arriscadas em 2026.

PT busca musculatura sem romper a chapa

Enquanto o debate sobre Lula e Alckmin domina os bastidores, a Executiva mergulha em outro tema decisivo: o Senado por São Paulo. A avaliação de Edinho Silva, presidente nacional do PT, é que a vaga paulista no Senado se torna peça-chave para o desempenho nacional da legenda. Ele cita, em tom de recado, nomes como as ministras Simone Tebet, do MDB, e Marina Silva, da Rede, como figuras centrais no tabuleiro paulista.

Nenhuma decisão, porém, anda sem o sinal de Fernando Haddad. A permanência do ministro da Fazenda no governo ou sua migração para a disputa eleitoral em 2026 se converte em impasse. Sem resposta, aliados dizem que fica difícil montar alianças, definir palanques e construir uma narrativa forte em um estado governado por Tarcísio de Freitas, expoente do bolsonarismo.

A possibilidade de uma federação com o PSOL acende novo foco de tensão. Jilmar Tatto chama a união de “sonho”, na expectativa de ampliar bancada e reforçar o bloco progressista na Câmara. Carlos Zarattini reage com reservas e lembra choques recentes em disputas regionais, inclusive na polêmica da Hidrovia do Tapajós. Dirceu volta a intervir e aponta resistência de grupos internos do PSOL, como o liderado por Valério Arcary, avaliando que essa ala pode “atrapalhar mais do que ajudar”.

O pano de fundo é a sobrevivência partidária. O PSOL corre contra a cláusula de barreira, regra que exige desempenho mínimo nacional para acesso a recursos públicos e tempo de TV. Para o PT, a federação pode render mais cadeiras no Congresso, mas também pode importar conflitos locais e desgastar alianças construídas ao longo de décadas.

A reunião também vira um espelho incômodo para o desempenho petista em São Paulo. Edinho admite perda de base social na Região Metropolitana desde 2024 e reconhece que o partido não consegue capitalizar ações do governo federal no estado. “É um erro primário não mencionar o governo Lula nas entregas”, afirma, ao citar obras do Minha Casa, Minha Vida e financiamentos do BNDES. O diagnóstico, compartilhado por dirigentes, é que o PT deixa de transformar políticas públicas em capital político.

Estratégia nacional, riscos regionais

Os debates da tarde avançam para além de São Paulo. No Rio de Janeiro, a orientação colocada à mesa é apoiar Eduardo Paes ao governo estadual em 2026 e lançar Benedita da Silva ao Senado. A fórmula vem com um custo evidente: a presença de Jane Reis, vice-governadora ligada ao bolsonarismo, na chapa fluminense. A decisão ilustra o equilíbrio delicado entre pragmatismo eleitoral e coerência ideológica.

No Espírito Santo, os dirigentes demonstram otimismo com as articulações em torno de Helder Salomão e Fabiano Contarato. Na região Norte, o tom é de alarme. Lideranças relatam “esfacelamento” da estrutura partidária, com diretórios enfraquecidos e dificuldade para sustentar a agenda ambiental que Lula tenta projetar como marca global do governo.

Questões econômicas e sociais também atravessam o encontro. A discussão sobre a jornada de trabalho 6 por 1 expõe a tentativa do PT de falar ao mesmo tempo com trabalhadores e pequeno comércio. Dirigentes defendem um discurso que valorize produtividade e tecnologia, sem demonizar empresários locais nem frustrar a expectativa de jovens que cobram mais direitos e qualidade de vida.

A pauta da renovação interna surge como ponto de consenso raro. A Executiva concorda que a próxima disputa nacional precisa exibir novas lideranças com recorte geracional, racial e de gênero mais nítido. A leitura é que, sem essa atualização, o partido corre o risco de perder conexão com periferias urbanas e com o eleitorado mais jovem, especialmente em grandes centros como São Paulo, Rio e Belo Horizonte.

Chapa Lula-Alckmin vira eixo da corrida de 2026

Ao final da reunião, a direção define o início de março como prazo para apresentar decisões mais claras sobre alianças regionais, disputa ao Senado e eventual federação com o PSOL. A discussão sobre a chapa presidencial, porém, ganha um status distinto. A fala de Dirceu cristaliza uma avaliação majoritária: a aliança com Alckmin funciona como eixo da estratégia eleitoral e não deve ser mexida sem cálculo milimétrico.

A manutenção do vice tende a orientar conversas com MDB, PSD, Rede, PSB e outros partidos que orbitam o governo. Um recuo poderia ser lido como sinal de fragilidade, afastar segmentos do eleitorado de centro e abrir espaço para que adversários se apresentem como alternativa de estabilidade. Dentro do PT, o debate sobre identidade e programa segue vivo, mas, por ora, cede lugar à busca por segurança num cenário nacional polarizado.

O calendário eleitoral ainda oferece alguns meses para ajustes, pesquisas qualitativas e medição de riscos. A cada nova rodada de conversas internas, porém, a pergunta volta à mesa: até que ponto o partido está disposto a arriscar uma aliança que, em 2022, ajuda a devolver Lula ao Planalto? A resposta, sugerem as falas na Lapa, passa menos por afinidades antigas e mais pelo cálculo frio de quem não quer repetir erros em uma eleição que se anuncia tão apertada quanto a anterior.

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