Nasa adia para abril lançamento da Artemis 2 rumo à Lua
A Nasa adia para, no mínimo, abril de 2026 o lançamento da missão Artemis 2, que levará quatro astronautas em volta da Lua, após detectar falha técnica no foguete SLS. O voo, antes previsto para 6 de março de 2026, fica em compasso de espera enquanto engenheiros tentam resolver um problema no sistema de hélio do megafoguete.
Gigante lunar volta ao hangar na Flórida
O adiamento se confirma no domingo, 22, quando a agência espacial dos Estados Unidos anuncia que o foguete volta ao prédio de montagem de veículos do Centro Espacial Kennedy, em Cabo Canaveral, na Flórida. A travessia de cerca de 6,4 quilômetros, a bordo de uma plataforma sobre esteiras, está marcada para esta terça-feira, 24, se o tempo colaborar.
O SLS, sigla em inglês para Sistema de Lançamento Espacial, é o maior foguete já construído pela Nasa desde a era Apollo. Ele permanece semanas na plataforma para testes de abastecimento e checagem de segurança. Na quinta-feira, 19, a equipe termina uma nova rodada de ensaios com hidrogênio líquido, combustível altamente volátil que já havia provocado vazamentos em tentativas anteriores.
O clima nos bastidores é de alívio parcial. Os engenheiros comemoram o controle dos vazamentos de hidrogênio e, com isso, cravam a data de 6 de março de 2026 para o lançamento, já um mês além da previsão anterior. Horas depois, o otimismo cede lugar à frustração. O fluxo de hélio para o estágio superior do foguete é interrompido sem explicação imediata.
O hélio, gás inerte usado em sistemas de pressurização, é peça discreta, mas essencial na arquitetura do SLS. Ele garante a pressão correta nos tanques de combustível e ajuda a purgar os motores, processo que limpa as linhas antes da partida. Sem esse fluxo constante, o foguete não atende aos requisitos mínimos de segurança para um voo tripulado.
Em comunicado, a Nasa admite a gravidade do defeito. “É necessário retornar ao prédio de montagem de veículos em Kennedy para determinar a causa do problema e corrigi-lo”, informa a agência. O recuo significa desmontar parte dos sistemas, inspecionar válvulas e tubulações e, se preciso, substituir componentes, em um trabalho minucioso que pode levar semanas.
Primeira viagem tripulada à Lua em meio século atrasa de novo
A Artemis 2 é o segundo passo do programa que pretende recolocar seres humanos na superfície lunar e manter presença constante ao redor do satélite. Nesta etapa, a cápsula Orion leva três astronautas americanos e um canadense em uma viagem de cerca de dez dias, contornando a Lua sem pousar. O voo será o primeiro com tripulação em direção ao alvo desde o fim do programa Apollo, que enviou 24 astronautas à vizinha da Terra entre 1968 e 1972.
Os quatro tripulantes permanecem em prontidão em Houston, sede do centro de controle da Nasa, enquanto o foguete segue para o hangar. O adiamento não altera, por ora, o treinamento intenso em simuladores, mas adia o momento em que eles se aproximam de fato da contagem regressiva. A agência evita falar em frustração e reforça a mensagem de prudência.
Apesar do contratempo, a Nasa insiste que o calendário ainda preserva uma janela de lançamento em abril de 2026. Essas janelas dependem do alinhamento orbital entre a Terra e a Lua e duram apenas alguns dias a cada mês. Qualquer atraso adicional na investigação do defeito empurra a decolagem para as oportunidades seguintes, com impacto em cascata sobre todo o programa Artemis.
A missão Artemis 3, planejada para levar astronautas de volta à superfície lunar com apoio de um módulo desenvolvido em parceria com empresas privadas, depende diretamente do sucesso da Artemis 2. Cada mês de atraso no voo de teste com tripulação tende a se refletir em ajustes de cronograma, renegociação de contratos e revisão de orçamento em Washington.
A conta não é pequena. Estimativas independentes calculam que o programa Artemis já consome dezenas de bilhões de dólares ao longo da década, com o SLS entre os itens mais caros. Cada ano extra de desenvolvimento exige novas verbas do Congresso americano e reabre o debate sobre custo, benefício e prioridades em um cenário de competição crescente com a China e outras potências espaciais.
Pressão técnica, política e simbólica sobre a volta à Lua
O novo adiamento expõe a complexidade de retomar voos tripulados para além da órbita terrestre baixa depois de mais de 50 anos. O SLS combina tecnologias herdadas dos ônibus espaciais com sistemas novos, que precisam dialogar com níveis de confiabilidade compatíveis com missões de alto risco. Um único defeito em uma linha de hélio é suficiente para travar toda a operação.
Na prática, isso significa equipes técnicas trabalhando em turnos, revisando procedimentos e antecipando cenários de falha. Significa também pressão sobre cronogramas de parceiros internacionais, como a agência espacial canadense, que participa da missão com um dos quatro assentos na Orion, e sobre contratos de pesquisa que dependem de amostras e dados obtidos em futuras viagens à superfície lunar.
A comunidade científica acompanha cada comunicado da Nasa com atenção. O programa Artemis promete mais do que bandeiras e fotos históricas. Ele prevê a construção de uma infraestrutura mínima em torno e na superfície da Lua, com estações em órbita, módulos de pouso reutilizáveis e experimentos de longo prazo sobre recursos locais, como o gelo de água nos polos. Cada tropeço técnico adia essa visão de presença contínua.
A opinião pública, por sua vez, reage com mistura de ansiedade e compreensão. Parte vê o atraso como sinal de fraqueza tecnológica diante da agilidade de empresas privadas. Outra parte lembra que as missões Apollo também enfrentam uma sequência de falhas, inclusive tragédias, antes de levar os primeiros humanos ao solo lunar.
A Nasa insiste que não corre contra o relógio, mas contra o risco. Ao puxar o SLS de volta para dentro do hangar, a agência compra tempo para desmontar, avaliar e testar de novo um sistema fundamental. Se as equipes conseguirem isolar o defeito e provar que o foguete pode voar com segurança, Artemis 2 ainda decola em 2026. Se novos problemas surgirem, a volta da humanidade à vizinha mais próxima da Terra seguirá em espera, à mercê da física, da engenharia e da política.
