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Marcelo Gallardo anuncia saída do River Plate após fase sem títulos

Marcelo Gallardo anuncia nesta segunda-feira (24) que deixa o comando técnico do River Plate. O último jogo será na quinta-feira (27), encerrando sua segunda passagem pelo clube argentino sem títulos.

Fim de um ciclo que redefiniu o River

O anúncio vem em vídeo divulgado nas redes sociais oficiais do River e confirma o desfecho de uma relação que marca a história recente do futebol sul-americano. Aos 50 anos, Gallardo fala diretamente aos torcedores, assume a frustração pelos resultados recentes e escolhe sair antes do desgaste definitivo com a arquibancada que o idolatra há mais de uma década.

Na mensagem, gravada no centro de treinamento do clube, o treinador tenta controlar a emoção enquanto informa que a partida de quinta-feira, no Monumental de Núñez, será a despedida. Ele não menciona dirigentes, não fala em conflito interno e concentra o discurso na gratidão e na dor pela falta de conquistas desde o retorno em 2024.

Do auge continental à frustração da segunda passagem

Gallardo não é um técnico qualquer na história do River. Entre 2014 e 2022, ele transforma o clube em protagonista permanente da América do Sul, com duas Libertadores, uma Sul-Americana, três Recopas, um Campeonato Argentino, duas Supercopas, três Copas da Argentina e o Trofeo de Campeones. São nove anos de títulos, estádios cheios e uma identidade de jogo agressiva, que projeta o treinador para o mercado europeu.

O retorno, em 2024, vem cercado de expectativa. A diretoria aposta na memória recente de sucesso para superar uma sequência de temporadas irregulares. O investimento em reforços não alcança o mesmo nível do período anterior, a base do elenco muda e o ambiente competitivo no continente endurece. O River bate na trave em campeonatos locais, falha na disputa internacional e termina 2025 sem troféus expressivos, algo improvável para quem se acostuma a decidir finais.

No vídeo, Gallardo reconhece a distância entre o projeto e o desempenho. “Claramente as coisas não saíram como havíamos projetado”, diz, olhando para a câmera. Em seguida, expõe a ferida que pesa na decisão. “Sinto dor na alma por não conseguir cumprir os objetivos.” A sinceridade reforça o tamanho do fracasso esportivo na segunda passagem justamente porque se apoia na memória de um ciclo vencedor.

O treinador evita justificar-se com números, mas eles ajudam a dimensionar a mudança de cenário. Em sua primeira era, o River soma mais de uma dezena de troféus em oito temporadas completas. No retorno, atravessa dois anos sem levantar uma taça relevante, vê rivais argentinos avançarem em mata-matas continentais e perde parte do medo que inspirava no continente.

A torcida entre a gratidão e o incômodo

O impacto imediato da saída se espalha por Buenos Aires e por toda a América do Sul. Gallardo é referência para uma geração de técnicos e se torna símbolo de um River que renasce depois de anos turbulentos, incluindo o rebaixamento para a segunda divisão em 2011. A decisão de ir embora, agora, aciona memórias de um clube que precisa se reinventar quando o ícone sai de cena.

Nas redes sociais, torcedores misturam tristeza e reconhecimento. Muitos lembram as noites de Libertadores, os clássicos contra o Boca e a transformação do Monumental em palco constante de decisões. Outros apontam que a permanência na segunda passagem já se sustentava mais pela gratidão do que pelo rendimento em campo, com atuações instáveis e eliminação precoce em competições internacionais.

O próprio Gallardo tenta organizar esse sentimento ambíguo. “Apenas palavras de agradecimento, principalmente a este enorme clube e à sua torcida, pelo amor incondicional durante todos esses anos, inclusive nos momentos mais delicados”, afirma. Ele faz questão de incluir na mensagem a comissão técnica e os profissionais do clube. “Quero simplesmente agradecer também àqueles que realmente acreditaram em mim, a toda a minha comissão técnica, por representar esta enorme instituição, com tudo o que isso envolve.”

A direção do River, pressionada por conselheiros e por um ambiente político sempre tenso, precisa agora provar que consegue pensar o futuro sem se apoiar na figura que sustentou o projeto esportivo por quase uma década. A próxima escolha no banco não será apenas técnica, mas também simbólica: quem assumir carregará a comparação inevitável com o legado de Gallardo.

Mercado em alerta e o desafio da reconstrução

A demissão não oficializada como ruptura, mas anunciada como decisão pessoal, também movimenta o mercado internacional. Clubes europeus e brasileiros que já observaram Gallardo em outras janelas voltam a colocá-lo em suas listas. A experiência em decisões continentais, o histórico de montar equipes competitivas com recursos diversos e a capacidade de lidar com pressão fazem do argentino um nome imediato em qualquer discussão sobre grandes vagas.

O River, por sua vez, entra em contagem regressiva. Em três dias, precisa transformar o último jogo de Gallardo em despedida à altura, sem deixar que a emoção contamine a urgência de um novo projeto. A reformulação deve atingir comissão técnica e elenco, com possíveis saídas de jogadores identificados com o treinador e abertura para um ciclo de contratações a partir da próxima janela.

No desfecho do vídeo, Gallardo volta ao tom afetivo que o aproxima da arquibancada. “Apenas meu amor recíproco a todos os torcedores e espero que, de todo o coração, esta instituição, que cresceu enormemente nos últimos anos, em breve possa alcançar bons resultados futebolísticos para engrandecer ainda mais o que o River representa como instituição no mundo”, conclui.

O último ato na quinta-feira deve lotar o Monumental e servir como rito de passagem entre um passado glorioso e um presente incerto. O clube que Gallardo ajuda a recolocar no topo da América agora precisa provar que consegue seguir adiante sem o técnico que, mais do que taças, devolve ao River a sensação de grandeza permanente. A resposta virá nos próximos meses, na escolha do sucessor e na bola que, cedo ou tarde, volta a cobrar resultados.

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