Zelensky condiciona paz a garantias dos EUA antes de cessar-fogo
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, cobra dos Estados Unidos garantias de segurança claras e aprovadas pelo Congresso antes de qualquer acordo de paz com a Rússia. Em entrevista em Kiev, na véspera do quarto aniversário da invasão, ele rejeita concessões territoriais amplas e diz que não entregará o país “de bandeja” a Vladimir Putin.
Zelensky endurece posição às vésperas de quatro anos de guerra
Na capital ucraniana, a poucos quilômetros de frentes que ainda registram bombardeios diários, Zelensky recebe a CNN no Palácio Presidencial em 23 de fevereiro de 2026. A invasão russa completa quatro anos nesta terça-feira, 24, sem que as negociações trilaterais entre Ucrânia, Rússia e Estados Unidos tenham produzido avanços concretos. O presidente aproveita o marco simbólico para pressionar Washington e os aliados europeus por compromissos que sobrevivam a mudanças de governo.
Zelensky diz que ouve repetidamente o argumento de que, após um acordo, Moscou não teria interesse em iniciar uma nova guerra. Ele não se convence. “Essa não é a resposta para mim. Sinto muito”, afirma. O líder ucraniano reconhece que há “coisas boas” nas propostas de garantias em discussão, mas insiste que elas ainda são vagas demais. “Eu quero uma resposta muito específica: o que nossos parceiros estarão dispostos a fazer se Putin voltar? É isso que os ucranianos querem ouvir”, declara.
O ponto de atrito principal está na ordem dos passos rumo a um eventual cessar-fogo. O presidente dos EUA, Donald Trump, pressiona para que Zelensky assine, em um mesmo momento, um acordo de paz com a Rússia e outro com os EUA e países europeus, formalizando garantias de segurança, de preferência em uma grande cerimônia que simbolize o fim da guerra. Zelensky recusa o roteiro. Para ele, a proteção internacional precisa estar acordada e ratificada antes no Congresso americano, sob a forma de compromissos com força de lei.
Essa condição reflete uma desconfiança acumulada ao longo de décadas. A Ucrânia já vive promessas quebradas desde o fim da União Soviética, quando abriu mão de seu arsenal nuclear em troca de garantias de Moscou, Washington e Londres. Em 2014, a Rússia anexa a Crimeia mesmo após essas declarações políticas de proteção. Em 2022, lança a invasão em grande escala. “Eles [os ucranianos] já foram decepcionados muitas vezes no passado”, resume Zelensky, ao explicar por que insiste em um compromisso mais robusto do que comunicados conjuntos e declarações de apoio.
Congelamento nas linhas de frente e disputa por 20% do território
Zelensky tenta equilibrar a pressão militar, a fadiga interna e o cálculo diplomático. Ele admite estar disposto a congelar a guerra nas atuais linhas de frente, algo que, na prática, consolidaria um cessar-fogo sem acordo político definitivo. O limite, porém, está nos territórios estratégicos do leste, sobretudo na região de Donetsk, onde as forças ucranianas ainda controlam áreas decisivas para a defesa do país.
A Rússia, por sua vez, exige que a Ucrânia renuncie aos cerca de 20% do território que Moscou hoje reclama para si, incluindo cidades industriais, ferrovias e estradas que formam o chamado “Cinturão da Fortaleza”. Essa faixa é a espinha dorsal logística da defesa ucraniana e garante o abastecimento da linha de frente. Abrir mão dessas posições significaria, na avaliação de Kiev, tornar impossível impedir uma nova ofensiva russa em poucos anos.
Zelensky descarta qualquer retirada unilateral dessas áreas. “A Rússia quer apenas que retiremos nosso exército. Não podemos ser tão — desculpem — tolos. Não somos crianças. Passamos por esta guerra, durante todos esses anos, e por isso não podemos simplesmente entregar o país a eles de bandeja”, afirma. Ele lembra que cerca de 200 mil pessoas vivem nas áreas contestadas sob controle ucraniano. “O que eu tenho a dizer a elas e o que nossos soldados têm a dizer? ‘Ok, tchau. Vamos embora. Vocês são russos a partir deste momento’?”, questiona.
O presidente reconhece que há exaustão entre os ucranianos depois de quatro invernos de guerra, perdas humanas em escala ainda incerta e destruição estimada pelo Banco Mundial em mais de US$ 500 bilhões. Mesmo assim, ele descarta atender às exigências centrais de Putin. “Não podemos simplesmente dar a ele tudo o que ele quer, porque ele quer nos ocupar. Se dermos a ele tudo o que ele quer, perderemos tudo — todos teremos que fugir ou nos tornarmos russos”, afirma.
Pressão sobre Trump, Europa e futuro da segurança europeia
O embate sobre garantias de segurança expõe o peso dos Estados Unidos e da Otan na arquitetura de defesa europeia. Ao insistir em uma ratificação pelo Congresso americano, Zelensky tenta transformar o apoio à Ucrânia em política de Estado, e não em escolha de governo. Uma lei que fixe compromissos mínimos de financiamento, treinamento militar e fornecimento de armamentos reduziria o espaço para recuos súbitos em Washington, principalmente em anos eleitorais.
Trump, que se prepara para o discurso sobre o Estado da União na terça-feira, 14, vira alvo direto da cobrança. Zelensky diz esperar uma sinalização explícita de apoio à Ucrânia na fala do presidente americano. “Eles têm que ficar ao lado de um país democrático que está lutando contra uma pessoa. Porque essa pessoa é uma guerra. Putin é uma guerra. Tudo gira em torno dele. Tudo gira em torno de uma pessoa. E o país, todo o país dele, está na prisão”, declara.
Questionado se acredita que Trump pressiona Putin o suficiente, o ucraniano responde sem rodeios: “não”. A frase ecoa em um momento de debates acalorados em capitais ocidentais sobre o custo político e financeiro de sustentar a Ucrânia a longo prazo. Em vários Parlamentos europeus, cresce a ala que defende congelar o conflito com concessões territoriais, mesmo sem garantias sólidas de que Moscou aceitará o novo status quo.
As posições expostas por Zelensky ampliam a pressão sobre governos aliados. Ao travar a assinatura de um acordo de paz sem segurança formal, o presidente ucraniano força Washington, Bruxelas e outras capitais a definirem até onde estão dispostas a ir para conter futuras agressões russas. Ao mesmo tempo, mantém a Ucrânia no centro da agenda global sobre democracia, fronteiras e uso da força.
Os próximos meses devem ser decisivos. Se Trump enviar ao Congresso um pacote de garantias com prazos, valores e obrigações claras, abrirá caminho para um cessar-fogo negociado nas linhas atuais. Se recuar ou optar por gestos simbólicos, Kiev terá de escolher entre prolongar uma guerra de desgaste ou aceitar um acordo que, nas palavras do próprio Zelensky, deixaria o país exposto a outra invasão. A resposta, mais do que definir o destino da Ucrânia, vai redesenhar a segurança europeia pelas próximas décadas.
