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Fuga de 23 presos no México expõe disputa após morte de ‘El Mencho’

Vinte e três detentos fogem de um presídio no México em 24 de fevereiro de 2026, em uma região marcada pela presença do cartel Jalisco Nueva Generación. Um agente prisional morre durante o confronto que permite a fuga em massa e reacende o alerta sobre a força das facções dentro do sistema carcerário mexicano.

Presídio vira palco da disputa após morte de ‘El Mencho’

O presídio, localizado em uma área onde o Jalisco Nueva Generación disputa território com grupos rivais, entra em colapso de segurança após a morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o “El Mencho”, anunciada dias antes. A liderança partida do cartel chega aos pavilhões como uma faísca em um depósito de pólvora, com facções internas tentando se impor pela força numa corrida imediata por poder e proteção.

Nas horas que antecedem a fuga, agentes relatam tensão crescente, ameaças veladas e movimentação incomum entre os presos ligados ao cartel. A notícia sobre quem assumiria o controle regional ainda é incerta, e essa indefinição alimenta boatos e alianças improvisadas nos corredores do presídio. Quando as portas se abrem para o banho de sol, grupos organizados avançam contra guaritas e bloqueios internos, usando armas improvisadas e, segundo relatos preliminares de investigadores, também armamento de fogo que não deveria ter chegado à unidade.

O confronto se espalha em poucos minutos. Equipes de segurança tentam conter o avanço, mas acabam cercadas em pelo menos dois setores do presídio. Na troca de tiros e agressões, um agente prisional é atingido e não resiste. “Eles já vinham testando os limites há semanas. Hoje se sentiam mais fortes que o Estado”, afirma, sob condição de anonimato, um servidor que atua na região e acompanha a crise de perto.

A brecha aberta pela violência vira rota de fuga. Em meio à fumaça, gritos e disparos, 23 detentos atravessam portões danificados, escalam muros e somem na área externa. Fontes ligadas à segurança local apontam que parte dos fugitivos ocupa posições médias na estrutura do cartel, com acesso direto a informações sobre rotas de drogas, arsenais clandestinos e pontos de arrecadação ilegal. “Não são soldados de base. São quadros que ajudam a manter a máquina funcionando”, resume um analista de segurança consultado por telefone.

Fragilidade do sistema carcerário amplia risco nas ruas

A fuga em massa não apenas expõe um presídio vulnerável. Ela aponta para um sistema prisional cronicamente pressionado pela influência dos cartéis, que disputam poder de dentro para fora das celas. A morte de El Mencho, figura central do crime organizado no país por mais de uma década, abre um vácuo que se traduz em violência imediata, tanto nas ruas quanto atrás das grades.

Autoridades mexicanas admitem, em caráter reservado, que parte das unidades prisionais do país funciona, na prática, como extensão dos escritórios dos cartéis. Nesses espaços, decisões sobre execuções, financiamento de campanhas locais e acordos de proteção circulam com rapidez. Quando um líder cai, a cadeia de comando se fragmenta e os presídios viram arenas de teste para quem consegue impor medo e disciplina com maior eficiência.

Nas cidades próximas ao presídio, moradores relatam aumento de patrulhas desde a noite de 24 de fevereiro e uma sensação de insegurança renovada. Comerciantes fecham mais cedo, motoristas evitam estradas secundárias e escolas ajustam horários para reduzir a circulação de alunos em horários considerados mais críticos. O risco é concreto: com 23 fugitivos ligados a um dos cartéis mais violentos do país, qualquer tentativa de recaptura pode resultar em novos tiroteios, bloqueios de estradas e ataques de represália.

A escalada atual remete a outros momentos em que prisões mexicanas se transformam em epicentro de crises nacionais. Rebeliões, fugas cinematográficas e massacres entre facções já expõem, repetidas vezes, a dificuldade do Estado em manter controle efetivo sobre detentos de alto risco. Em cada nova crise, cresce a pressão sobre governos estaduais e federal para revisar protocolos, investir em inteligência dentro das unidades e reavaliar o perfil dos presídios que concentram chefes e operadores dos grandes cartéis.

A morte do agente prisional amplia o peso político do episódio. Sindicatos de servidores, que há anos denunciam a precariedade das condições de trabalho, ganham novo argumento ao cobrar equipamentos de proteção, aumento de efetivo e treinamento especializado. “Quando se encarrega um agente mal pago e mal equipado de enfrentar um cartel bilionário, o resultado costuma ser trágico”, avalia um pesquisador de políticas de segurança pública ouvido pela reportagem.

Caçada aos fugitivos e pressão por mudanças estruturais

O governo promete reforçar as operações de busca pelos 23 fugitivos, com apoio de forças federais e, em algumas áreas, colaboração informal de agências estrangeiras interessadas em monitorar os destinos do Jalisco Nueva Generación após a morte de El Mencho. Helicópteros, barreiras policiais em rodovias e varreduras em zonas rurais já estão em curso, segundo autoridades locais, que evitam dar prazo para a conclusão da caçada.

Investigações internas miram possíveis falhas de vigilância, conivência de agentes e lacunas estruturais que permitiram o ingresso de armas e a coordenação da fuga. A apuração, porém, tende a demorar; historicamente, relatórios sobre crises em presídios mexicanos acumulam recomendações que raramente saem do papel na velocidade necessária. A diferença, agora, é a combinação de três fatores: a morte de um líder simbólico, a fuga de integrantes de um cartel ainda poderoso e a morte de um agente que estava em serviço.

Especialistas avaliam que o episódio pode acelerar discussões sobre redistribuição de presos ligados a cartéis, criação de unidades de segurança máxima mais isoladas e reforço da inteligência penitenciária. Nenhuma dessas medidas, no entanto, produz efeito imediato nas ruas, onde a população convive com o medo enquanto não há resposta concreta do Estado.

As próximas semanas devem mostrar se o governo consegue transformar a comoção em ação coordenada ou se o caso entra para a lista de crises episódicas que se repetem em ciclos. A dúvida, nas cidades sitiadas pela disputa de facções, é se o Estado retomará a iniciativa ou se continuará reagindo, sempre um passo atrás, aos movimentos de um cartel que demonstra capacidade de reorganização mesmo em meio ao luto pelo seu chefe máximo.

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