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Chuvas intensas provocam desabamentos, alagamentos e caos em Juiz de Fora

Fortes chuvas entre a noite desta segunda-feira (23) e o início da madrugada atingem Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, e provocam desabamentos, alagamentos e interdições em vários bairros. Equipes da Defesa Civil, da Prefeitura e do Corpo de Bombeiros percorrem a cidade para atender ocorrências simultâneas, enquanto o poder público suspende aulas e fecha vias por risco à população.

Cidade em alerta com rios cheios e vias fechadas

O temporal se concentra entre 18h40 e 21h40 e transforma o início da noite em um teste de resistência para a infraestrutura urbana. Só na região Central, a Administração Municipal registra 90,3 milímetros de chuva em três horas, volume que se aproxima do esperado para vários dias. Bairros como Nossa Senhora de Lourdes, com 79,5 mm, Santa Rita, com 79 mm, Distrito Industrial, com 75,1 mm, e Graminha, com 62 mm, também enfrentam enxurradas e pontos de inundação.

À medida que a água avança por ruas e avenidas, o Rio Paraibuna responde rápido. O nível sobe cerca de 65 centímetros e atinge 3,25 metros, valor suficiente para acender o sinal de alerta entre técnicos da Defesa Civil. A Ponte Vermelha, em Santa Terezinha, é fechada como medida preventiva. O trânsito é reorganizado às pressas na Avenida Brasil, com inversão de fluxo na altura da Rua Ruy Barbosa e uso em pista dupla da ponte de Santa Terezinha.

O cenário se repete em outras frentes. O acesso ao Mergulhão, um dos principais corredores da área central, é interditado para evitar que veículos fiquem presos em bolsões de água. No Bairro Industrial, o cruzamento das ruas Garcia Rodrigues Paes e Lúcio Bittencourt desaparece sob a enchente. Em comunicado nas redes sociais, a Prefeitura descreve a situação como “crítica” e orienta moradores a deixarem a área imediatamente e buscarem locais seguros.

Desmoronamentos, encostas frágeis e escolas fechadas

Enquanto a água ocupa o asfalto, as encostas cedem. A Defesa Civil recebe chamados de desmoronamentos com possibilidade de vítimas na Rua Francisco Gonçalo de Faria, no bairro JK, na região Sudeste, e na Rua Nicolau Capelli, no bairro Cerâmica. Nesta última, um deslizamento no sábado (21) já havia deixado uma jovem de 23 anos soterrada. Ela consegue sair sozinha e sobrevive, mas o episódio expõe a fragilidade da área e volta a preocupar vizinhos com a nova chuva forte.

Outros pontos da cidade registram quedas de barreira e deslizamentos de terra. A lama invade trechos da Rua Natalino José de Paula, no Parque Burnier, e da Rua João Francisco Monteiro, no Santa Cecília. Em bairros como Jóquei Clube, Vila Ozanan, Bandeirantes, Vila Ideal e Progresso, moradores relatam encostas encharcadas e muros comprometidos. Regiões conhecidas pelos riscos, como o Alto Grajaú, a entrada do Parque Independência e a Garganta do Dirlemando, voltam ao radar das equipes de campo.

Os alagamentos se espalham por diferentes zonas da cidade. O Largo do Riachuelo fica tomado pela água. No Linhares, na Zona Leste, as ruas Diva Garcia e Itália se transformam em corredores de enxurrada. Próximo à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Santa Luzia, a Rua Ibitiguaia registra pontos de inundação que dificultam a chegada de pacientes e profissionais de saúde. Santa Efigênia e Ipiranga também relatam ruas cobertas por lama e água barrenta.

O impacto chega às salas de aula. O Colégio de Aplicação João XXIII, ligado à Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), constata infiltrações severas em diferentes pontos do prédio. Corredores acumulam água, lajes apresentam goteiras constantes, paredes ficam saturadas e áreas de circulação têm o piso escorregadio. Em comunicado interno, a direção afirma que há “risco concreto à segurança de estudantes e profissionais” e anuncia a suspensão das aulas nesta terça-feira (24). Um deslizamento de terra dentro da área da escola agrava a situação e força o pedido de vistoria técnica emergencial à UFJF.

O município segue na mesma direção. Em nota divulgada às 23h55, a Prefeitura de Juiz de Fora decide suspender as aulas em todas as escolas municipais nesta terça-feira. O texto cita “dificuldades reais com o trânsito na cidade em função de alagamentos e deslizamentos de terra” e pede que a comunidade escolar evite deslocamentos. A orientação é clara: sair de casa só em caso de necessidade.

Trânsito travado, rotina interrompida e monitoramento contínuo

As decisões mexem com a rotina de milhares de famílias. Pais que dependem do transporte escolar e de creches para trabalhar se veem obrigados a reorganizar o dia seguinte às pressas. Estudantes da rede municipal e do João XXIII recebem a notícia em grupos de mensagens, no fim da noite, quando muitas famílias ainda tentam entender a dimensão dos estragos nos bairros. Ao mesmo tempo, trabalhadores enfrentam congestionamentos em corredores estratégicos, como a Avenida Brasil, e buscam rotas alternativas diante de interdições repentinas.

A Defesa Civil mantém equipes em campo ao longo da madrugada para vistoriar encostas, medir o nível do Rio Paraibuna e avaliar riscos de novos deslizamentos. Técnicos percorrem áreas já mapeadas como vulneráveis e tentam identificar, casa a casa, onde há maior perigo. As orientações se repetem em rádios, redes sociais e aplicativos de mensagens: evitar áreas de alagamento, não tentar atravessar ruas inundadas e sair de imóveis com rachaduras, estalos ou sinais de movimentação de solo.

O episódio reforça a sensação de que as chuvas de verão, cada vez mais concentradas e intensas, desafiam a estrutura de drenagem e a ocupação de encostas em Juiz de Fora. Em anos recentes, a cidade enfrenta episódios recorrentes de alagamentos e deslizamentos, sempre com o mesmo desenho: poucas horas de chuva forte, ruas de escoamento insuficiente e morros ocupados por casas em áreas de risco. A noite desta segunda repete esse roteiro, mas com números que chamam atenção pela intensidade em curto espaço de tempo.

Reparos, prevenção e incerteza sobre novos temporais

A Prefeitura aciona equipes de limpeza urbana para remover lama, entulho e lixo arrastados pelas enxurradas assim que a chuva perde força. Técnicos de obras se organizam para vistoriar pontes, muros de arrimo e galerias pluviais em pontos críticos, enquanto a Defesa Civil elabora relatórios preliminares sobre desabamentos e famílias eventualmente desalojadas. O balanço oficial, com números de atendimentos e danos materiais, depende de vistorias que seguem madrugada adentro.

As próximas horas são decisivas para saber se o nível do Rio Paraibuna se estabiliza ou volta a subir com novas instabilidades. O município permanece sob alerta de tempestades com chuvas intensas, segundo a própria Defesa Civil. A recomendação é que moradores acompanhem os canais oficiais, informem sinais de risco nas encostas e reduzam deslocamentos ao mínimo. Em uma cidade que convive com a combinação de rios cheios, encostas frágeis e ocupação adensada, a pergunta que se impõe ao fim da noite é se o sistema de prevenção conseguirá ficar à frente do próximo temporal.

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