Ciencia e Tecnologia

Eclipse total de Lua de Sangue em 3 de março terá pouca visão no Brasil

A Nasa confirma para 3 de março um eclipse lunar total, a chamada Lua de Sangue, que deve dominar o céu em parte do planeta. No Brasil, porém, o espetáculo aparece de forma tímida e só arrisca surgir no extremo oeste da Amazônia.

Fenômeno raro reacende interesse pelo céu

O novo eclipse coloca novamente a Lua no centro da atenção pública e científica. Durante cerca de algumas horas, a Terra se alinha entre o Sol e o satélite natural e projeta sua sombra mais escura sobre ele. Quando a fase é total, a superfície lunar abandona o tom prateado e ganha um vermelho profundo, efeito que inspira o apelido dramático de Lua de Sangue.

O fenômeno não é inédito, mas continua raro o suficiente para mobilizar observatórios, astrônomos amadores e curiosos em todo o mundo. A própria Nasa divulga, nesta semana, mapas detalhados que indicam, minuto a minuto, quando cada região do planeta entra nas diferentes fases do eclipse. “Os mapas mostram com precisão as fases do eclipse e os horários exatos para cada fuso horário nos Estados Unidos”, informa o material publicado pela agência espacial americana.

A mesma precisão evidencia quem fica de fora. Segundo a Nasa, países da África e de boa parte da Europa não terão qualquer visão do evento. Nessas faixas, a Lua estará abaixo do horizonte ou fora da área de sombra projetada pela Terra no horário crítico da passagem.

Brasil observa de longe e só parcialmente

O Brasil entra na lista das regiões que precisam de paciência e sorte. O eclipse de 3 de março ocorre de forma total no céu, mas o país só alcança um fragmento da cena. A agência estima que a faixa realmente favorecida para observação em território brasileiro se concentre no extremo oeste da Amazônia, em áreas próximas à fronteira com países andinos. Dependendo da localização exata e das condições do tempo, alguns moradores devem ver apenas o início da fase parcial, quando a sombra já avança sobre a Lua, mas ainda não a cobre por inteiro.

Na prática, isso significa que a imagem clássica da Lua de Sangue, completamente tingida de vermelho, não deve se formar aos olhos da maior parte dos brasileiros. Em grande parte da América do Sul e da Ásia Central, o quadro é parecido: quem olha para cima verá, no máximo, uma Lua em parte escurecida, com um leve tom alaranjado, antes que o astro se perca no horizonte ou a noite avance sem o ápice do espetáculo.

A limitação não reduz o interesse científico. O caminho da luz ajuda pesquisadores a entender melhor a atmosfera terrestre. Durante o eclipse, raios solares atravessam as camadas de ar que envolvem o planeta e se curvam até atingir a superfície da Lua. Apenas as faixas mais avermelhadas desse feixe conseguem completar a viagem, o que pinta o satélite com o tom característico. Em linguagem simples, a Lua vira uma espécie de tela, que revela como a atmosfera filtra a luz do Sol.

É esse mesmo mecanismo de dispersão da luz que torna o céu azul ao longo do dia e avermelha o horizonte em fins de tarde. Um eclipse total de Lua funciona como um grande laboratório a olho nu, em escala planetária, e serve de ponto de comparação com registros de anos anteriores. Mudanças discretas na intensidade ou na tonalidade podem sugerir diferenças na quantidade de poeira, partículas de poluição ou aerossóis na atmosfera.

De telescópios a transmissões ao vivo

Quem está fora da rota ideal precisa recorrer à tecnologia. A Nasa anuncia que transmite o eclipse ao vivo em seu canal oficial no YouTube, com início pouco antes da fase parcial. Centenas de observatórios, canais especializados e astrônomos amadores se preparam para repetir o modelo, com câmeras apontadas para o céu em diferentes fusos e hemisférios. Em 2022, a última grande Lua de Sangue total gerou transmissões que, somadas, superaram milhões de visualizações em poucas horas.

O formato digital reduz a desigualdade de acesso entre grandes centros urbanos e regiões remotas. Uma comunidade isolada na Amazônia, sem céu limpo naquela madrugada, pode acompanhar o fenômeno em tempo real por um celular conectado. Ao mesmo tempo, a visibilidade parcial no território brasileiro reacende o debate sobre o apoio a iniciativas locais de observação astronômica, sobretudo em áreas de floresta e céu ainda pouco poluído por luz artificial.

Escolas e universidades aproveitam o calendário para organizar atividades de divulgação científica. Em outros eclipses, visitas a planetários cresceram até 30% na semana do fenômeno, segundo levantamentos de instituições de ensino superior. Professores tratam o evento como uma aula prática de ciências, capaz de explicar, com um único exemplo, órbitas, alinhamentos, luz, sombra e atmosfera.

Veículos de comunicação já reservam espaço em suas grades para transmissões especiais. Programas de TV aberta, rádios regionais, podcasts e perfis em redes sociais montam coberturas ao vivo, com comentários de astrônomos e imagens captadas em tempo real. O fenômeno também alimenta o mercado de turismo astronômico, que oferece pacotes para regiões com céu mais estável, embora, desta vez, a escassez de áreas privilegiadas no Brasil limite esse tipo de viagem interna.

O que esperar da próxima Lua de Sangue

O eclipse de 3 de março se insere em uma sequência de eventos astronômicos que voltam a ganhar atenção do público. A Nasa e outras agências espaciais usam a ocasião para reforçar a divulgação de missões em curso, de sondas lunares a projetos de retorno humano à superfície da Lua. A presença da agência americana nas redes, com transmissão em alta definição e mapas adaptados a diferentes fusos, mostra uma estratégia clara de aproximar a astronomia da rotina cotidiana.

Para o morador brasileiro que não está na Amazônia, a noite do eclipse deve parecer comum, a menos que o céu esteja limpo e a fase parcial seja visível por alguns minutos perto do horizonte. A experiência completa, porém, virá pela tela. A principal recomendação de astrônomos é simples: acompanhar os horários de início da transmissão, preparar o telescópio ou binóculo para quem tiver o equipamento e aceitar que, desta vez, a Lua de Sangue se mostra mais generosa com outros cantos do planeta. A pergunta que fica é quando o próximo alinhamento vai devolver ao céu brasileiro o papel de plateia principal em um eclipse total.

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