Calcinha inteligente mede pum e redefine o que é “normal” no intestino
Pesquisadores da Universidade de Maryland, nos EUA, testam em 2026 uma roupa íntima inteligente que mede, em tempo real, os gases intestinais de voluntários. O dispositivo, batizado de Smart Underwear, começa a redesenhar o que a medicina chama hoje de “produção normal” de flatulência.
Roupa íntima vira laboratório de bolso
A cena é prosaica: uma cueca ou calcinha comum, mas com um pequeno módulo acoplado próximo ao bumbum. Dentro desse “sanduíche” de tecido e plástico, um sensor capta o hidrogênio liberado pelos puns ao longo do dia e envia tudo por Bluetooth para um aplicativo de celular. É ali, na rotina doméstica ou no trabalho, que o intestino vira dado científico.
O hidrogênio medido pelo sensor é produzido por bactérias da microbiota durante a digestão. Até agora, quase tudo o que se sabia sobre frequência e volume de gases vinha de diários preenchidos pelos próprios pacientes, cheios de lapsos de memória, constrangimento e estimativas vagas. “Nós ainda não sabemos, na verdade, o que é uma produção normal de flatulência”, admite Brantley Hall, professor assistente do departamento de biologia celular da Universidade de Maryland e líder do projeto.
Essa incerteza atrapalha diagnósticos corriqueiros. Sem uma referência objetiva, médicos se apoiam em relatos subjetivos para definir se há excesso de gases, possível intolerância alimentar ou desequilíbrio da flora intestinal. O Smart Underwear tenta romper essa barreira com uma solução pouco invasiva e de uso contínuo, capaz de registrar cada liberação de gás ao longo de dias seguidos.
No estudo preliminar, 19 voluntários saudáveis usam a roupa íntima inteligente por uma semana. O resultado surpreende: em média, cada pessoa solta 32 puns por dia, muito acima da faixa de 10 a 20 episódios descrita na literatura médica. O intervalo individual impressiona ainda mais. Há quem libere apenas 4 gases em um dia e quem chegue a 59, sem que isso signifique, necessariamente, doença.
Flatulência medida em tempo real muda a pesquisa
Os testes não se limitam à contagem de puns. Em um segundo experimento, 38 participantes seguem, por quatro dias, uma dieta pobre em fibras, que tende a reduzir a fermentação no intestino. No quarto dia, os pesquisadores introduzem suplementos de fibra na alimentação. A resposta é imediata: mais gases são produzidos, como ocorre com qualquer pessoa que aumenta repentinamente a ingestão de fibras.
A pergunta é se o sensor acompanha essa virada. Os dados indicam que sim. O sistema registra as mudanças com sensibilidade de 94,7%, índice considerado elevado para um dispositivo vestível, usado fora do ambiente controlado de um laboratório. Na prática, a cueca inteligente consegue perceber, quase sempre, quando o intestino entra em modo de “produção reforçada” de gases.
Com isso, a pesquisa entra em um território antes inacessível: o cruzamento em larga escala entre dieta, microbiota intestinal e sintomas do dia a dia. O aplicativo desenvolvido pela equipe pede que o voluntário fotografe tudo o que come, cria uma espécie de diário alimentar ilustrado e associa cada prato à curva de emissão de gases registrada pelo sensor.
A combinação de fotos, dados de hidrogênio e horários permite mapear o efeito de um copo de leite, de um prato de feijão ou de um suplemento de fibra sobre o intestino de cada participante. A meta é identificar padrões. “O atlas da flatulência humana vai estabelecer referências objetivas para a fermentação microbiana intestinal, que é uma base essencial para avaliar como mudanças dietéticas, probióticas ou prebióticas alteram a atividade do microbioma”, afirma Hall.
Esse tipo de base de dados não existe hoje em escala populacional. Pesquisadores conhecem bem o papel da microbiota na digestão, na imunidade e até no humor, mas ainda trabalham com recortes pequenos e medições indiretas. A roupa íntima inteligente tenta fazer com os gases o que relógios esportivos fizeram com passos e batimentos cardíacos: transformar um aspecto invisível do corpo em série numérica contínua.
Da curiosidade ao consultório: quem ganha com o “atlas do pum”
A ideia de usar um sensor preso à calcinha para estudar puns pode soar anedótica, mas o potencial clínico é concreto. Quadros comuns, como intolerância à lactose, síndrome do intestino irritável e disbiose — quando o equilíbrio da flora se quebra — se manifestam com inchaço abdominal, desconforto e gases com odor muito forte. Hoje, o paciente costuma chegar ao consultório após semanas de incômodo, com lembranças imprecisas sobre o que comeu e quando piorou.
Com um dispositivo como o Smart Underwear, o médico pode receber um relatório detalhado do que aconteceu na última semana, com número de episódios por dia, intensidade estimada e relação com refeições específicas. Dietas de teste, com ou sem lactose, por exemplo, ganham um respaldo numérico, em vez de depender apenas da memória e da percepção do paciente. Em tese, diagnósticos ficam mais rápidos e tratamentos mais personalizados.
A tecnologia também abre espaço para pesquisas sobre intervenções com probióticos e prebióticos, substâncias que modulam a microbiota. Se um novo suplemento promete reduzir a produção de gases ou melhorar o conforto intestinal, o sensor pode confirmar, em tempo real, se a mudança ocorre e em que medida. Laboratórios, empresas de alimentos funcionais e startups de saúde intestinal encontram aí um campo fértil, que vai além de questionários e testes de curta duração.
Existe ainda um componente de saúde pública. Ao estimar que a média diária de flatulência é de 32 episódios, o estudo relativiza a ideia de que soltar muitos puns é, por si, sinal de problema. Parte do que hoje leva pacientes ao consultório pode ser apenas variação normal. O alerta continua sendo a mudança de padrão, especialmente quando vêm junto inchaço persistente e cheiro muito intenso. Nesses casos, o recado dos pesquisadores é direto: vale procurar um especialista.
Na ponta oposta, o uso de roupas íntimas conectadas levanta dúvidas de privacidade e aceitação. Guardar em servidores o histórico de cada pum, associado à dieta e a dados pessoais, exige regras claras de anonimização e consentimento. Por enquanto, os testes se concentram em voluntários que aceitam transformar um tema íntimo em informação científica.
Próximo passo é um mapa global dos gases
O grupo de Maryland agora amplia o recrutamento de participantes nos EUA para montar o chamado “atlas da flatulência humana”. A ambição é ir além do laboratório universitário e coletar dados em diferentes faixas etárias, perfis de dieta e condições de saúde. Quanto mais diverso o grupo, mais precisa fica a linha de base que define o que é “normal” para o intestino.
O desafio passa a ser escalar a tecnologia, baratear a produção dos sensores e transformar o Smart Underwear em algo que possa ser adotado em consultórios e hospitais, não só em estudos acadêmicos. A partir daí, o caminho natural é integrar essa roupa íntima a um ecossistema maior de dispositivos vestíveis, capazes de monitorar sono, atividade física, batimentos cardíacos e, agora, a vida secreta dos gases.
Se essa agenda avançar, o desconforto em falar sobre flatulência tende a perder espaço para uma conversa mais objetiva sobre saúde intestinal. A pergunta que orienta os próximos anos de pesquisa parece simples, mas ainda está em aberto: com dados em escala mundial, quantos puns por dia dirão, enfim, que o intestino está em paz?
