Uefa afasta Prestianni por injúria racial contra Vini Jr na Champions
A Uefa afasta preventivamente Gianluca Prestianni por injúria racial contra Vinicius Junior, ocorrida em 23 de fevereiro de 2026, no duelo Benfica x Real Madrid pela Champions League. A decisão tira o jovem atacante argentino do jogo decisivo em Madrid e reacende o debate sobre o combate ao racismo no futebol europeu.
Denúncia de Vini Jr, apoio de Mbappé e reação do Benfica
A suspensão é aplicada pelo Departamento de Controle, Ética e Disciplina da Uefa depois da denúncia formal de Vini Jr, ainda no gramado da Luz. O brasileiro acusa Prestianni de tê-lo chamado de “macaco” repetidas vezes logo após o gol da vitória do Real Madrid, nos minutos finais da partida de ida dos playoffs da Champions.
Kylian Mbappé, companheiro de ataque de Vini no Real Madrid, confirma a versão do camisa 7 e amplia a pressão sobre a entidade europeia. O francês relata à imprensa ter ouvido o argentino repetir a palavra “macaco” cinco vezes. O depoimento público de uma das principais estrelas do futebol mundial oferece lastro político à acusação e expõe a Uefa a uma cobrança imediata por resposta.
O órgão disciplinar decide pelo afastamento preventivo de um jogo, enquanto a investigação segue em andamento. O processo pode resultar em punição de até dez partidas de suspensão, caso a injúria racial seja confirmada ao fim da análise do caso. Até lá, Prestianni fica impedido de atuar na partida de volta, em Madrid, que define a vaga na fase de grupos da Champions League 2026/27.
O Benfica reage com rapidez e divulga nota oficial em tom de inconformismo. O clube diz lamentar “ficar privado do jogador enquanto o processo está ainda em investigação” e anuncia que vai recorrer. “O Sport Lisboa e Benfica tomou conhecimento da decisão da Uefa de aplicar uma suspensão provisória de um jogo ao seu jogador Gianluca Prestianni, no âmbito da averiguação em curso relativamente ao incidente ocorrido no jogo frente ao Real Madrid”, afirma a nota.
Na sequência, a direção admite que o calendário joga contra qualquer tentativa de reverter a medida a tempo do duelo em Madrid. “O Clube lamenta ficar privado do jogador enquanto o processo está ainda em investigação e irá apelar desta decisão da Uefa, mesmo se dificilmente os prazos em causa terão qualquer efeito prático para o jogo de volta dos playoffs da Champions League”, prossegue o comunicado.
O texto tenta blindar a imagem institucional do Benfica e resgata a figura de Eusébio, maior ídolo da história do clube, negro e nascido em Moçambique. “O Sport Lisboa e Benfica reafirma igualmente o seu compromisso inabalável no combate a qualquer forma de racismo ou discriminação, valores que fazem parte da sua identidade histórica e que se refletem na sua ação quotidiana, na sua comunidade global, no trabalho da Fundação Benfica e em figuras maiores da história do Clube, como Eusébio”, conclui a nota.
Racismo em campo e pressão por respostas mais duras
O episódio começa na comemoração do gol de Vini Jr, que garante a vitória merengue em Lisboa. O brasileiro dança perto da bandeirinha de escanteio, como costuma fazer, cercado por companheiros de time. Em seguida, aponta para Prestianni e fala com o árbitro, sob visível irritação. As câmeras registram o momento em que o atacante do Real Madrid leva a mão à boca, tenta conter as lágrimas e relata ter sido alvo de insultos racistas.
O juiz aciona o protocolo antirracismo da Uefa, previsto para situações de ofensa discriminatória. O procedimento permite a interrupção do jogo, avisos ao público e até a suspensão definitiva da partida em casos extremos. Em Lisboa, o confronto segue até o fim, mas o relatório do árbitro e o peso das declarações de Vini Jr e Mbappé aceleram a abertura do processo disciplinar.
Na semana seguinte, Prestianni presta depoimento à Uefa. O atacante já está fora do compromisso do fim de semana contra o AVS, pelo Campeonato Português, por outro motivo: cumpre suspensão automática pelo acúmulo de cartões amarelos. A ausência serve de antecâmara para o afastamento mais sensível, imposto agora pela entidade europeia, que o tira do palco de maior visibilidade, o Santiago Bernabéu, no jogo de volta.
A decisão preventiva provoca reação em cadeia no futebol internacional. Entidades de jogadores, movimentos antirracistas e comentaristas cobram coerência da Uefa, que nos últimos anos tem adotado campanhas públicas contra racismo, mas convive com críticas sobre a efetividade de suas punições. A perspectiva de uma eventual suspensão de até dez jogos contra Prestianni é vista como um teste do discurso da instituição.
Vinicius Junior volta a ser o centro do debate global sobre racismo no futebol, agora fora da Espanha, onde já enfrenta episódios recorrentes em estádios. O caso transborda o resultado do jogo e recoloca sob escrutínio não apenas a conduta individual de um atleta, mas o ambiente que permite que ofensas desse tipo sigam se repetindo nas principais competições do planeta.
O que está em jogo para Uefa, Benfica e o combate ao racismo
A suspensão preventiva tem efeito esportivo direto. O Benfica perde uma opção importante de ataque para um confronto que vale dezenas de milhões de euros em premiação e receitas futuras de Champions. Prestianni, de 18 anos, vê a imagem construída na transição para o futebol europeu ser manchada por uma acusação com potencial de marcação permanente na carreira.
O caso pressiona o Benfica a equilibrar a defesa de seu jogador com a necessidade de não relativizar a gravidade da injúria racial. O clube tenta afirmar sua tradição antirracista, personificada em Eusébio, enquanto enfrenta o risco de ser associado a um ambiente permissivo com discriminação, se o episódio for comprovado. A resposta interna, em termos de apuração e eventual punição própria, também entra no radar de torcedores e patrocinadores.
Para a Uefa, o processo funciona como um termômetro de credibilidade. A entidade lida com a cobrança por transparência nos procedimentos, divulgação de provas e fundamentação clara da decisão final. A possibilidade de uma pena de até dez jogos, prevista nos regulamentos disciplinares para casos de conduta racista, mede o quanto a instituição está disposta a ir além de campanhas de marketing e slogans de arquibancada.
O episódio de Lisboa se soma a uma sequência de ocorrências recentes, em diferentes ligas, que expõem a insuficiência de medidas apenas simbólicas. A presença de nomes como Vini Jr e Mbappé na linha de frente amplia a repercussão, alcança novos públicos e constrange dirigentes que, por anos, trataram episódios de racismo como incidentes isolados e não como parte de uma estrutura que se repete.
O processo disciplinar segue em andamento, sem data anunciada para julgamento final. A defesa de Prestianni prepara o recurso contra a suspensão preventiva, enquanto o Benfica tenta reduzir o dano esportivo e institucional. Vinicius, por sua vez, volta a campo com o peso de mais um caso de racismo às costas, em um cenário em que a pergunta central permanece sem resposta definitiva: até quando o futebol europeu tratará agressões raciais como exceção, e não como um problema que exige ruptura clara e punição exemplar?
