Noiva de Hugo Souza cobra Marcos após risada em post sobre racismo
A noiva de Hugo Souza, Rauany Barcellos, confronta o ex-goleiro Marcos nas redes sociais após ele reagir com emojis de risada a um post sobre ofensas racistas sofridas pelo goleiro do Corinthians. O caso explode entre domingo (22) e segunda-feira (23), após a partida pelas quartas de final do Paulistão, no estádio do Canindé, em São Paulo. A reação gera pedido público de desculpas e reacende o debate sobre responsabilidade de ídolos diante do racismo no futebol.
Confronto público após ofensas no Canindé
O estopim está nas arquibancadas do Canindé, depois da classificação do Corinthians sobre a Portuguesa pelas quartas de final do Paulistão de 2026. Ao deixar o gramado rumo ao túnel, na noite de domingo, 22 de fevereiro, Hugo Souza ouve uma sequência de insultos vindos da torcida da Lusa.
O goleiro, de 25 anos, é chamado de “sem dente”, “passa fome” e “piolhento”, em ataques registrados em vídeo pela Jovem Pan. Em meio aos xingamentos, surgem referências ao cabelo e à aparência do jogador, o que transforma a hostilidade em episódio de racismo explícito no futebol paulista.
Na manhã seguinte, as imagens circulam em páginas esportivas e perfis de grande alcance. A CazéTV publica em seu Instagram um vídeo explicando o contexto das agressões, em tom sério, destacando o caráter discriminatório das falas e a gravidade do episódio no Canindé.
É nessa publicação que aparece a reação de Marcos, ídolo do Palmeiras e campeão mundial em 2002, que responde com emojis de risada. O gesto, público e visível para milhões de seguidores, provoca choque entre torcedores e abre espaço para a reação de Rauany Barcellos.
Nos stories de seu Instagram, Rauany decide interpelar Marcos diretamente. Em texto longo, ela questiona o ex-goleiro sobre a leveza com que reage a ofensas ligadas à aparência e à cor da pele do noivo. “Queria que você me contasse, com base em toda sua trajetória profissional, quantas vezes você ouviu torcedores te chamando de piolhento, favelado, pedindo para que você cortasse o cabelo, te chamando de sujo, sem dente, etc…”, escreve.
Ela amplia o recorte e leva a discussão para fora do campo. “Ou melhor: quantas vezes seus filhos sofreram preconceito na escola por causa da sua aparência, cabelo, cor de pele, ou classe social… Pois eu queria genuinamente entender o motivo da risada, conta pra gente!”, continua. O questionamento ganha repercussão imediata, é replicado em perfis esportivos e estimula uma enxurrada de comentários cobrando posicionamento de Marcos.
Pedido de desculpas e pressão por responsabilidade
Horas depois da cobrança pública, Marcos volta ao Instagram para responder. Em nova publicação, o ex-goleiro admite que não tinha entendido o teor do vídeo ao reagir. “Vi por cima o post e achei que fosse zoeira da torcida adversária, e que vocês levariam na boa”, escreve.
O ex-jogador tenta se distanciar da leitura de deboche diante do racismo, afirma que se confundiu e se dirige diretamente ao casal. “Mas se vocês se sentiram ofendidos, peço desculpas a você e ao Hugo Souza pelo meu comentário. Não vai se repetir”, afirma. O texto é acompanhado de um tom mais contido, sem emojis.
A manifestação não elimina a controvérsia, mas muda o tom do debate. Parte da torcida entende o episódio como erro de avaliação em um ambiente de consumo rápido de conteúdo, em que figuras públicas reagem a postagens sem assistir até o fim. Outra parte cobra mais cuidado de quem tem milhões de seguidores e carrega a memória de conquistas históricas nos gramados.
Enquanto o pedido de desculpas circula, a Portuguesa publica uma nota oficial nesta segunda-feira, 23 de fevereiro. O clube repudia as ofensas dirigidas ao goleiro do Corinthians e promete agir contra os responsáveis. Diz que está “trabalhando para a pronta identificação dos responsáveis pelas ofensas e definiremos as punições cabíveis, além de nos colocarmos à disposição do poder público caso seja necessário”.
Rauany compartilha o comunicado em seus stories e parabeniza a Lusa pelo posicionamento. A atitude da noiva, somada à resposta institucional do clube, reforça a pressão para que casos de racismo não sejam tratados como exagero de arquibancada ou brincadeira de rivalidade.
O episódio se soma a uma série de denúncias recentes no futebol brasileiro e internacional. O tema mobiliza campanhas da CBF, da Fifa e de federações estaduais, mas a repetição das cenas mostra que a resposta ainda é insuficiente. O que acontece no Canindé em 2026 remete a casos que envolvem jogadores negros em clássicos nacionais e em ligas europeias na última década.
Redes sociais, punições e o que vem a seguir
A discussão extrapola o jogo de domingo e entra no campo da responsabilidade digital. Comentários como o de Marcos, mesmo quando atribuídos a mal-entendidos, ganham alcance imediato em plataformas como Instagram, onde influenciadores e ex-atletas somam milhões de seguidores. Uma reação aparentemente banal, como um emoji de risada, ajuda a normalizar ofensas que atingem diretamente a dignidade de atletas negros.
Especialistas em racismo no esporte lembram que episódios assim não se resumem à violência verbal. Afetam a saúde mental de jogadores, interferem na relação com a torcida e empurram vítimas para a posição de ter de provar, repetidas vezes, que não se trata de “mimimi”. A resposta firme de Rauany, uma mulher negra que ocupa o espaço de noiva de um atleta de elite, ressignifica esse papel e mostra uma nova geração menos disposta ao silêncio.
No campo jurídico e esportivo, a nota da Portuguesa abre caminho para medidas concretas. A identificação de torcedores pelos vídeos, a partir das câmeras do estádio e de registros da imprensa, pode resultar em banimento de arenas, multas e processos criminais com base na lei de racismo, que prevê penas de até cinco anos de reclusão para quem pratica discriminação racial.
O caso estressa também a imagem dos clubes e das federações. A Federação Paulista de Futebol, que organiza o Paulistão, é pressionada a incluir ações mais incisivas nos regulamentos, com perda de mando de campo e punições esportivas em caso de reincidência. Em campeonatos estaduais que movimentam milhões em cotas de TV e patrocínios, tolerância com racismo começa a pesar no bolso.
Para Hugo Souza, o episódio surge em um momento de alta exposição, após a classificação do Corinthians para as semifinais, definidas pela FPF para o fim de fevereiro. Cada nova fase do campeonato aumenta a visibilidade e, com ela, a cobrança por respostas firmes dentro e fora das quatro linhas.
A partir de agora, o que acontece nas próximas semanas indica se o episódio ficará restrito a notas de repúdio e pedidos de desculpas ou se se tornará um ponto de inflexão. A forma como clubes, federações, Ministério Público e torcidas organizadas reagem dirá se o futebol brasileiro continua apenas reagindo a cada caso ou se está disposto a enfrentar, de fato, o racismo que há décadas ocupa as arquibancadas.
