Após 4 anos de guerra, Putin enfrenta isolamento e pressão econômica
Quatro anos após ordenar a invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, Vladimir Putin encara um cenário de isolamento diplomático crescente e pressão econômica intensa. A guerra, que o Kremlin imaginava resolver em poucas semanas com a queda rápida de Kiev, se arrasta sem perspectiva clara de desfecho e redesenha o lugar da Rússia no mundo.
Ofensiva rápida fracassa e guerra se entrincheira
O cálculo inicial do presidente russo se apoia na ideia de um avanço relâmpago. Tropas cruzam a fronteira em 24 de fevereiro de 2022, avançam sobre Kiev e outras grandes cidades, e o Kremlin fala em “desnazificação” e “desmilitarização” da Ucrânia. Quatro anos depois, a capital continua sob controle do governo de Volodimir Zelenski, a frente de batalha se estende por cerca de 1.000 quilômetros e a palavra mais repetida por analistas é impasse.
A resistência ucraniana, apoiada por um fluxo contínuo de armas e recursos de Estados Unidos, União Europeia e aliados, impede a tomada de centros estratégicos e impõe custos humanos e materiais elevados à Rússia. Estimativas ocidentais apontam para dezenas de milhares de soldados russos mortos desde 2022, número que Moscou não confirma e trata como segredo de Estado. As forças de Putin conquistam e mantêm parte dos territórios de Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson, além da Crimeia, anexada em 2014, mas não chegam à vitória rápida prometida nos primeiros discursos.
A narrativa de guerra limitada e controlada perde aderência à medida que o conflito se prolonga. A mobilização parcial, anunciada em 2022, convoca centenas de milhares de reservistas e provoca uma onda de fuga de homens em idade de servir. Em cidades como Moscou e São Petersburgo, filas em fronteiras terrestres e alta repentina no preço de passagens aéreas expõem o custo interno da decisão tomada no Kremlin.
Sanções, economia sob pressão e redesenho geopolítico
A reação ocidental se consolida em poucos meses com um pacote de sanções sem precedentes contra a Rússia. A União Europeia corta gradualmente a importação de petróleo transportado por navios, impõe tetos de preço em coordenação com o G7 e restringe o acesso de bancos russos ao sistema financeiro internacional. Empresas de tecnologia deixam o país, siderúrgicas e montadoras suspendem operações e investimentos estrangeiros diretos encolhem de forma acentuada.
O impacto é desigual, mas real. A economia russa, que em 2021 cresce acima de 4%, entra em recessão em 2022 e passa a depender de gastos maciços com defesa e subsídios para amortecer a queda de renda. As receitas com exportação de energia, ainda robustas graças a compradores como China e Índia, já não garantem o mesmo colchão financeiro após sucessivas rodadas de sanções e descontos forçados no preço do barril russo. Em paralelo, a inflação atinge dois dígitos em momentos críticos, e o Banco Central eleva juros para conter a fuga de capitais e a desvalorização do rublo.
A guerra na Ucrânia altera também o mapa da segurança europeia. Países historicamente neutros, como Finlândia e Suécia, decidem aderir à Otan e reforçam a presença da aliança na fronteira russa. Governos europeus ampliam gastos militares, rompendo metas estabelecidas antes da invasão, e falam em “nova era” de confrontação com Moscou. O fornecimento de gás russo para a Europa, que em 2021 responde por cerca de 40% das importações do bloco, despenca após explosões nos gasodutos Nord Stream e cortes unilaterais.
Na Ucrânia, o efeito é devastador. Bombardeios contínuos a infraestruturas de energia deixam cidades sem luz e aquecimento em invernos sucessivos. Dados da ONU apontam para milhões de ucranianos deslocados internos e externos, criando a maior crise de refugiados na Europa desde a Segunda Guerra. “A guerra na Ucrânia não é um conflito regional, mas um choque que repercute em cadeias de alimentos, fertilizantes e energia em todo o mundo”, resume um diplomata europeu ouvido sob condição de anonimato.
Isolamento político, custos internos e futuro incerto
No plano diplomático, Putin mantém canais com poucos aliados consistentes, como Belarus, Coreia do Norte e Irã, além de uma relação pragmática com China e Índia. A participação em fóruns como os Brics e a Organização de Cooperação de Xangai oferece uma vitrine alternativa, mas não compensa a perda de acesso pleno a mercados e tecnologias ocidentais. Muitos governos do chamado Sul Global evitam condenações abertas, mas também não reconhecem as anexações russas de territórios ucranianos.
O isolamento se materializa em gestos concretos. Cúpulas do G20 expõem divisões internas sobre como se referir à guerra nos comunicados finais. Líderes europeus evitam encontros bilaterais com Putin e mantêm canais apenas técnicos para questões como troca de prisioneiros e segurança nuclear. O Tribunal Penal Internacional emite, em 2023, mandado de prisão contra o presidente russo por suposta deportação ilegal de crianças ucranianas, o que limita viagens a países que reconhecem a jurisdição da corte.
Dentro da Rússia, o controle político se endurece. Leis aprovadas às pressas punem com até 15 anos de prisão quem “descreditar” as Forças Armadas ou divulgar informações consideradas falsas sobre a guerra. Meios de comunicação independentes encerram atividades no país ou migram para o exterior, e figuras da oposição enfrentam processos criminais, prisão ou exílio. Pesquisas de opinião divulgadas por institutos locais ainda mostram apoio elevado à liderança de Putin, mas analistas apontam o peso da propaganda estatal e do medo na formação desse quadro.
As consequências econômicas se espalham por setores estratégicos. A indústria de defesa trabalha em ritmo máximo, mas depende de componentes importados que sofrem restrições. Empresas aeroespaciais e de alta tecnologia procuram rotas alternativas para obter peças, muitas vezes por meio de países intermediários. A população sente o efeito de forma desigual: enquanto grandes cidades mantêm uma aparência de normalidade, regiões mais pobres lidam com queda de serviços públicos e oportunidades de trabalho concentradas no esforço de guerra.
Negociações de paz seguem distantes. Tentativas de cessar-fogo mediadas por Turquia, ONU ou líderes de países emergentes esbarram em exigências incompatíveis: Kiev exige retirada russa e garantia de integridade territorial, enquanto Moscou cobra reconhecimento das anexações e neutralidade ucraniana. Em paralelo, cada novo pacote de armas para a Ucrânia e cada novo ataque russo a infraestrutura crítica alimentam temores de escalada, inclusive nuclear.
Quatro anos depois do primeiro disparo, a pergunta que ecoa em capitais ocidentais e dentro da própria Rússia é até quando o Kremlin sustentará o custo dessa guerra. O desfecho permanece aberto, mas o saldo já é claro: Moscou perde espaço na economia global, redesenha alianças à força e enfrenta uma combinação de isolamento internacional e pressão econômica que dificilmente se desfaz, mesmo se os canhões um dia silenciarem.
