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Presidente da Coreia usa IA para mostrar Lula e Lee Jae-myung crianças em abraço

Um vídeo criado por inteligência artificial mostra Luiz Inácio Lula da Silva e Lee Jae-myung se abraçando ainda crianças em uma rua simples. A peça é divulgada nesta segunda-feira (23.fev.2026), em Seul, durante a visita oficial do presidente brasileiro à Coreia do Sul.

Diplomacia em tela cheia

A imagem dura poucos segundos, mas suficiente para circular pelas redes e pautar conversas em Brasília e Seul. No vídeo, dois meninos, que lembram Lula no interior de Pernambuco e Lee na periferia sul-coreana dos anos 1960, correm um em direção ao outro e se abraçam, como se compartilhassem a mesma infância pobre, apesar de estarem separados por quase 17 mil quilômetros.

O Palácio Presidencial sul-coreano escolhe a exibição do material como um dos momentos simbólicos da agenda de Lula em Seul, que inclui encontros políticos e econômicos até esta terça-feira (24.fev.2026). A publicação ocorre em plataformas oficiais e é replicada por perfis institucionais dos dois governos, numa tentativa de transformar dados, algoritmos e cenas geradas por computador em gesto político dirigido a mais de 210 milhões de brasileiros e 51 milhões de sul-coreanos.

Tecnologia, memória e cálculo político

O vídeo nasce de uma combinação de fotos de arquivo, descrições biográficas e ferramentas de geração de imagem por IA, segundo assessores da presidência sul-coreana. A equipe de comunicação trabalha por semanas no roteiro e nos testes de verossimilhança, até chegar a uma cena que sugere proximidade entre os dois líderes sem parecer um retrato real. O objetivo é claro: produzir emoção e, ao mesmo tempo, sinalizar domínio tecnológico em um país que investe cerca de 4,8% do PIB em pesquisa e desenvolvimento.

Lula visita a Coreia do Sul em meio a negociações para ampliar o comércio bilateral, que soma perto de US$ 12 bilhões por ano, e para destravar projetos em semicondutores, energia limpa e infraestrutura digital. O vídeo se insere nessa moldura mais ampla, como peça de soft power que tenta condensar em menos de um minuto uma narrativa de afinidade histórica entre dois líderes com trajetórias marcadas pela pobreza, pelo trabalho precoce e pela ascensão política em contextos democráticos conturbados.

Lee Jae-myung, eleito em 2025 com discurso de inclusão social e inovação tecnológica, aposta na inteligência artificial como vitrine de governo. A peça com Lula integra uma série de ações que usam algoritmos para comunicação institucional, de avatares em língua de sinais a simuladores de políticas públicas. No caso brasileiro, a aposta encontra um presidente que faz da própria biografia um ativo diplomático e que, há décadas, explora o contraste entre a infância no sertão e as mesas de negociação do G20.

Nas redes sociais, a repercussão é rápida. Em menos de 12 horas, versões do vídeo acumulam centenas de milhares de visualizações somadas em plataformas como X, Instagram e TikTok. Internautas elogiam a “mensagem de fraternidade” e a “criatividade” do governo sul-coreano, enquanto críticos lembram que a mesma tecnologia que produz abraços também pode fabricar discursos falsos e interferir em eleições.

Impacto diplomático e debate ético

A iniciativa testa, na prática, como a inteligência artificial entra na diplomacia cotidiana. Ao ligar uma visita de Estado a uma cena emocional, o governo sul-coreano tenta humanizar a relação bilateral e se diferenciar em um cenário em que comunicados conjuntos e fotos protocolares competem com vídeos de 30 segundos. O gesto também posiciona Seul como fornecedor de soluções digitais em um momento em que o Brasil discute a regulação da IA no Congresso e busca parceiros para modernizar sua infraestrutura tecnológica.

O uso da imagem infantil de Lula e Lee, ainda que simulada, reacende discussões sobre limites éticos. Especialistas em comunicação política alertam que produtos audiovisuais gerados por IA podem confundir parte do público e diluir a fronteira entre documento histórico e peça de marketing. O episódio ocorre poucos meses depois de debates globais sobre deepfakes em campanhas eleitorais nos Estados Unidos e na Europa, o que reforça a cobrança por regras e transparência.

Governos e organismos multilaterais discutem, desde 2023, códigos de conduta para uso de IA em comunicação oficial. Diretrizes da ONU e de grupos como o G20 sugerem identificação clara de conteúdos sintéticos e mecanismos para evitar manipulação de opinião pública. O vídeo exibido em Seul se alinha ao uso simbólico e declarado da tecnologia, mas expõe, na mesma tela, o potencial de aproximação entre sociedades e o risco de banalização de imagens fabricadas.

Na prática, a experiência tende a inspirar outros governos a testar recursos semelhantes. Ministérios de Relações Exteriores avaliam que peças personalizadas, produzidas com base em dados biográficos e culturais, podem facilitar a recepção de comitivas, destravar diálogos travados e reforçar agendas estratégicas, da transição energética à cooperação em defesa cibernética. A fronteira entre criatividade diplomática e propaganda, porém, segue em disputa.

O que vem depois do abraço digital

A visita de Lula à Coreia do Sul inclui a assinatura de memorandos de entendimento em inovação, energia e educação, com horizonte de execução entre 2026 e 2030. Equipes técnicas dos dois países discutem projetos conjuntos em inteligência artificial aplicada à indústria, à administração pública e à formação profissional. A cena dos dois meninos que se abraçam funciona como vitrine dessa agenda, mas a concretização dos acordos dependerá de orçamentos, prazos e capacidade de transformar gestos simbólicos em programas de longo prazo.

O episódio também entra no radar de quem acompanha a regulação da IA no Brasil. Parlamentares e especialistas devem usar o caso como exemplo positivo de uso transparente da tecnologia, ao mesmo tempo em que pressionam por critérios objetivos para diferenciar homenagem digital de manipulação política. A dúvida que fica, após o abraço forjado em pixels, é se a diplomacia global está pronta para lidar com um mundo em que cenas nunca vividas podem influenciar memórias coletivas tanto quanto fotos reais.

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