Ciencia e Tecnologia

Corrida por megaconstelações eleva risco de caos na órbita da Terra

Empresas e agências espaciais se preparam para lançar milhões de satélites à órbita da Terra nos próximos anos, inaugurando uma era de congestionamento sem precedentes. Cientistas alertam que, sem freios e regras claras, a expansão pode detonar uma cascata de colisões capaz de comprometer comunicações, observação do planeta e até nossa relação cultural com o céu noturno.

Uma corrida pelo céu em alta velocidade

A órbita baixa da Terra, região entre cerca de 200 e 2.000 quilômetros de altitude, virou alvo de uma disputa bilionária. Projetos de internet via satélite, comunicação militar, monitoramento climático e vigilância da Amazônia se empilham numa mesma faixa de espaço. Hoje circulam ali pouco mais de 9 mil satélites ativos e inativos. Em menos de dez anos, pedidos já protocolados em agências reguladoras somam mais de 1 milhão de novos artefatos.

O salto é vertiginoso. Em 2010, menos de 1 mil satélites operavam ao redor do planeta. Em 2023, só uma empresa, a SpaceX, colocava em média 50 novos satélites em órbita por semana. Outras gigantes, como Amazon, OneWeb e empresas chinesas e europeias, correm para ocupar suas faixas de operação. Cada uma delas mira constelações com dezenas de milhares de unidades, que prometem internet rápida em qualquer ponto do globo.

A pressa, porém, cobra um preço. A órbita baixa é um espaço finito. Cada satélite em operação aumenta a chance de choques em alta velocidade, que podem gerar milhões de fragmentos metálicos. Esses detritos, mesmo com poucos centímetros, viajam a até 28 mil km/h. Um impacto nessa velocidade perfura blindagens, destrói equipamentos e desencadeia novos estilhaços, num efeito dominó que especialistas chamam de “síndrome de Kessler”.

Não se trata de um cenário distante. Em 2009, a colisão entre um satélite de comunicação ativo, da empresa Iridium, e um equipamento russo inativo criou mais de 2 mil fragmentos rastreáveis. Em 2007, um teste militar chinês contra um satélite próprio multiplicou os detritos na região de 800 quilômetros de altitude. Muitas dessas peças seguem em órbita quase duas décadas depois.

Impacto vai além da tecnologia e atinge cultura e ambiente

A nova geração de megaconstelações amplia o risco de repetir esses episódios em escala muito maior. Cada explosão acidental alimenta um cinturão de lixo espacial que pode permanecer por décadas girando ao redor do planeta. Sistemas de GPS, previsão do tempo, monitoramento de desastres, controle de fronteiras e redes bancárias dependem de satélites para funcionar. Uma série de colisões em cadeia pode paralisar porções inteiras da infraestrutura que sustenta a economia global.

Observatórios astronômicos já sentem o efeito dessa saturação. Imagens de telescópios registram rastros brilhantes de satélites cruzando o campo de visão. Pesquisadores relatam prejuízos em levantamentos de céu profundo, usados para mapear galáxias, buscar supernovas e rastrear asteroides potencialmente perigosos. “Estamos apagando, linha por linha, o céu escuro que a humanidade conhece há milênios”, afirma um astrofísico ouvido pela reportagem.

A discussão escapa do terreno técnico e alcança dimensões culturais e espirituais. Povos indígenas da Amazônia e do cerrado usam constelações e padrões da Via Láctea como referência para rituais, plantio e navegação. Em grandes cidades, a poluição luminosa já apaga muitas estrelas. A multiplicação de pontos móveis e trilhas artificiais no céu reforça a sensação de que até o firmamento se torna uma extensão da infraestrutura humana.

Ambientalistas chamam atenção para o ciclo completo dessa cadeia. Lançamentos frequentes consomem combustíveis, liberam partículas na alta atmosfera e alteram camadas sensíveis, como a estratosfera. A reentrada de satélites desativados, que queimam ao voltar para a atmosfera, ainda é pouco estudada. Compostos metálicos podem se acumular ao longo de anos em altitudes críticas para o clima. “O espaço não é um lugar mágico, sem impacto. É uma extensão do ambiente terrestre”, resume uma pesquisadora de políticas espaciais.

O enquadramento da questão, porém, segue restrito a comitês técnicos e salas de negociação. Planos de licenciamento e cronogramas de lançamento raramente mencionam o valor simbólico do céu ou o direito coletivo de observá-lo sem interferências industriais. O debate ético, que questiona até que ponto a humanidade pode transformar o entorno do planeta em infraestrutura privada, ainda engatinha.

Pressão por regras mais duras e futuro em disputa

Agências espaciais e órgãos internacionais discutem novas normas para reduzir o risco de catástrofe orbital. Diretrizes da União Internacional de Telecomunicações e do Comitê da ONU para o Uso Pacífico do Espaço já recomendam que satélites sejam removidos da órbita até 25 anos após o fim da missão. Especialistas consideram o prazo longo demais diante da multiplicação de lançamentos. Propostas recentes falam em reduzir esse período para 5 anos em órbita baixa.

Empresas prometem tecnologias de desorbitação rápida, sistemas automáticos de desvio e materiais que queimam com mais eficiência na reentrada. Algumas aceitam, em público, a necessidade de limites para o tamanho das constelações. O histórico, porém, gera desconfiança. No papel, quase todos os planos preveem que o lixo espacial será controlado. Na prática, falhas técnicas, cortes de custo e atrasos em missões de limpeza tendem a empurrar o problema para a próxima década.

Governos pressionados por interesses econômicos hesitam em impor regras mais duras. Países em desenvolvimento veem na nova corrida espacial uma chance de não ficar para trás em conectividade e defesa. O Brasil, que depende de satélites para monitorar queimadas, desmatamento e fronteiras, acompanha de perto as negociações, mas ainda não define uma posição clara sobre limites globais de lançamentos.

Pesquisadores defendem que as próximas conferências internacionais tratem o espaço próximo à Terra como um bem comum, sujeito a princípios de proteção ambiental e cultural. “A pergunta não é só quantos satélites cabem em órbita”, diz um diplomata envolvido nas conversas. “A pergunta é que tipo de relação queremos ter com o céu e que legado deixaremos para as próximas gerações.”

Enquanto mega foguetes seguem decolando mês após mês, a janela para uma regulação eficaz se estreita. A decisão sobre até onde avançar nessa ocupação não se limita a engenheiros e investidores. Envolve cidadãos que dependem, todos os dias, de sinais invisíveis vindos do espaço e que, na próxima noite limpa, talvez percebam que o céu já não é mais o mesmo.

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