Hungria e Eslováquia ameaçam cortar energia da Ucrânia por óleo russo
Hungria e Eslováquia ameaçam suspender o fornecimento emergencial de eletricidade à Ucrânia caso o trânsito de petróleo russo pelo oleoduto Druzhba não seja retomado. A disputa se intensifica entre vizinhos da União Europeia em meio ao quarto inverno de guerra no país invadido pela Rússia.
Disputa energética em pleno inverno de guerra
O impasse começa em 27 de janeiro de 2026, quando um ataque de drone russo atinge equipamentos do oleoduto Druzhba no oeste da Ucrânia, segundo Kiev. Desde então, as remessas de petróleo russo para Hungria e Eslováquia estão interrompidas, afetando os dois únicos países da União Europeia que ainda dependem de volumes significativos desse fluxo terrestre da era soviética.
A tensão aumenta em fevereiro, quando os governos húngaro e eslovaco passam a responsabilizar publicamente a Ucrânia pela interrupção prolongada. Em redes sociais e entrevistas, seus líderes afirmam que Kiev tem condições de restabelecer o trânsito do óleo e acusam o país de usar a infraestrutura energética como instrumento político.
O primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, sobe o tom no sábado e fixa prazo. “Se o fornecimento de petróleo para a Eslováquia não for retomado na segunda-feira (23), pedirei à SEPS, a sociedade anônima estatal, que interrompa o fornecimento emergencial de eletricidade para a Ucrânia”, declara em postagem no X. Dias antes, Viktor Orbán, premiê húngaro, faz ameaça semelhante, alinhando dois governos que se distanciam do consenso majoritariamente pró-Ucrânia na Europa.
A Ucrânia reage com dureza. Em comunicado oficial, o Ministério das Relações Exteriores afirma que “rejeita e condena os ultimatos e a chantagem dos governos da Hungria e da República Eslovaca em relação ao fornecimento de energia entre nossos países”. O texto conclui que “ultimatos devem ser enviados ao Kremlin, e certamente não a Kiev”.
Rede elétrica fragilizada e dependência mútua
A disputa ocorre em um momento de forte fragilidade da infraestrutura ucraniana. Desde outubro do ano passado, a Rússia intensifica ataques com drones e mísseis contra o sistema energético do país, derruba linhas de transmissão, atinge subestações e obriga a adoção de apagões programados durante ondas de frio severo. Em algumas regiões, milhões de pessoas passam horas sem aquecimento nem luz em pleno inverno.
Nesse cenário, a importação de eletricidade da Europa se torna vital. Hungria e Eslováquia respondem, juntas, por cerca de metade das exportações europeias de eletricidade de emergência para a Ucrânia, segundo autoridades do setor. Esse fluxo ajuda a estabilizar a rede ucraniana e a evitar colapsos completos em picos de consumo, quando a temperatura cai para abaixo de zero e o uso de aquecimento dispara.
O risco agora é que essa linha de socorro seja usada como instrumento de pressão. Kiev classifica as ameaças como “provocativas, irresponsáveis e que ameaçam a segurança energética de toda a região”. Técnicos ucranianos alertam que um corte abrupto no fornecimento emergencial pode forçar novos racionamentos, aumentar a duração dos apagões e comprometer serviços essenciais, como hospitais, estações de bombeamento de água e sistemas de transporte urbano elétrico.
Para Hungria e Eslováquia, o bloqueio do Druzhba afeta diretamente refinarias e cadeias de abastecimento domésticas. O oleoduto, em operação desde a década de 1960, permanece um dos poucos canais ainda ativos de petróleo russo para a União Europeia. A interrupção desde 27 de janeiro pressiona estoques estratégicos, encarece importações alternativas e alimenta receios de alta no preço dos combustíveis, em especial do diesel e da gasolina.
Ambos os governos argumentam que não podem arcar sozinhos com o custo da guerra nas rotas energéticas. Ao condicionar a ajuda elétrica à retomada do fluxo de óleo, buscam deslocar para Kiev parte da pressão que antes recaía sobretudo sobre Moscou e Bruxelas, num gesto que expõe fissuras políticas dentro do bloco europeu e da Otan.
Rotas alternativas, pressões europeias e o que está em jogo
A Ucrânia tenta desarmar o impasse oferecendo alternativas. Em carta enviada à União Europeia e vista por diplomatas, a missão ucraniana propõe redirecionar o petróleo por outros trechos de seu sistema de transporte ou por uma rota marítima, usando inclusive o oleoduto Odesa-Brody, que conecta o principal porto do país no Mar Negro ao território da UE. Autoridades em Kiev afirmam que equipes técnicas já trabalham em reparos emergenciais no Druzhba e insistem que a causa da paralisação está nos ataques russos.
Os governos de Budapeste e Bratislava, por sua vez, mantêm a acusação de que a Ucrânia prolonga a interrupção deliberadamente. A narrativa se insere em uma relação cada vez mais ambígua com Moscou. Orbán e Fico criticam sanções europeias, defendem canais abertos com o Kremlin e se apresentam como vozes dissidentes dentro da UE, o que complica esforços de uma resposta coordenada em Bruxelas.
A crise atual escancara a dependência estrutural de parte da Europa do leste em relação ao petróleo russo, apesar de quatro anos de guerra em grande escala, cujo aniversário se completa nesta terça-feira (24). Mostra também como a Ucrânia continua, paradoxalmente, a permitir o trânsito de energia russa pelo próprio território, mesmo enquanto suas cidades enfrentam bombardeios e cortes de luz recorrentes.
Se Hungria e Eslováquia cumprirem as ameaças e desligarem a eletricidade de emergência nos próximos dias, a Ucrânia terá de recorrer com mais força a outros vizinhos e a mecanismos de apoio da UE. A tarefa não é simples: a capacidade de interconexão tem limites físicos, e muitos países também enfrentam contas altas de energia desde o início da guerra.
Negociações técnicas e políticas já começam a se intensificar em Bruxelas e capitais europeias para evitar um corte total. Diplomatas discutem compensações financeiras, rotas de desvio e eventual ampliação do uso de reservas estratégicas de petróleo para aliviar Hungria e Eslováquia. Ao mesmo tempo, cresce a pressão para que os dois governos recuem da ameaça de usar a rede elétrica como arma diplomática contra um país em guerra.
O desfecho deste embate energético vai além dos três países diretamente envolvidos. Um acordo rápido pode reforçar a capacidade da União Europeia de coordenar sua política externa em plena guerra no continente. Um impasse prolongado, com apagões maiores na Ucrânia e novos choques de abastecimento na Europa Central, tende a aprofundar divisões internas e a dar a Moscou mais espaço para explorar fissuras no bloco. Por enquanto, a questão central permanece em aberto: quem cede primeiro, num inverno em que energia e geopolítica se confundem a cada quilômetro de oleoduto e linha de transmissão.
