Navio-hospital dos EUA na Groenlândia acirra disputa no Ártico
Donald Trump anuncia, nesta 22 de fevereiro de 2026, o envio de um navio-hospital à Groenlândia, território dinamarquês no Ártico. A missão é apresentada como ajuda médica, mas abre nova frente na disputa geopolítica pela região.
Humanitário no discurso, estratégico na prática
O governo americano descreve a viagem como um esforço para levar cirurgias, exames e atendimento especializado a comunidades isoladas da maior ilha do planeta, com cerca de 56 mil habitantes. O navio leva dezenas de leitos, centro cirúrgico completo e equipes de várias especialidades, em uma operação prevista para durar ao menos 60 dias na costa groenlandesa.
Trump, líder do Partido Republicano e ex-presidente, apresenta a ação como “um gesto de solidariedade com o povo da Groenlândia”. Em pronunciamento em Washington, afirma que os Estados Unidos “levam saúde, tecnologia e esperança a uma região esquecida por muitos governos”. A escolha da Groenlândia, porém, não é casual. Localizada entre o Atlântico Norte e o Ártico central, a ilha se torna, a cada ano, peça mais valiosa em um tabuleiro que combina rotas marítimas, mineração e presença militar.
Pressão sobre Dinamarca e disputa no gelo
A Groenlândia é território autônomo desde 2009, mas continua sob soberania formal da Dinamarca, integrante da Otan e parceira histórica dos EUA. O envio de um navio militar, ainda que configurado como hospital, pressiona Copenhague a aceitar um aumento de presença americana a poucos quilômetros de áreas sensíveis do Ártico. Diplomatas europeus veem o gesto como um teste à capacidade dinamarquesa de controlar sua zona de influência.
Trump reconhece, nos bastidores, que a missão tem dimensão estratégica. Em reuniões internas, assessores descrevem a operação como uma “porta de entrada” para acordos de longo prazo em infraestrutura, exploração mineral e logística militar. A região abriga reservas estimadas de petróleo, gás, terras raras e minerais estratégicos usados em baterias e equipamentos eletrônicos. Com o derretimento acelerado do gelo, novas rotas de navegação encurtam em até 40% o trajeto entre a Europa e a Ásia, aumentando o interesse de Washington, Moscou, Pequim, Ottawa e Bruxelas.
A tensão não nasce do zero. Em 2019, Trump cogita publicamente comprar a Groenlândia, proposta tratada como “absurda” pela primeira-ministra dinamarquesa à época, Mette Frederiksen. O episódio provoca crise diplomática e expõe, de forma crua, o apetite americano pelo território. A nova investida, agora sob o rótulo de missão médica, reacende memórias desse embate e levanta dúvidas sobre os limites da influência dos EUA em terras dinamarquesas.
Autoridades em Copenhague analisam o gesto com cautela. Fontes ligadas ao Ministério das Relações Exteriores dinamarquês afirmam, em condição de anonimato, que “qualquer operação estrangeira em território da Groenlândia precisa ser plenamente transparente e compatível com a autonomia local”. A avaliação é que o navio-hospital pode, na prática, funcionar como plataforma de coleta de dados, mapeamento costeiro e presença militar ampliada sob a cobertura da bandeira humanitária.
Impacto regional e reação de outros atores
O movimento de Washington reverbera de imediato no círculo de países com interesses diretos no Ártico. Rússia e Canadá acompanham a operação com atenção. Analistas em Ottawa apontam o risco de uma nova corrida por bases logísticas e acordos bilaterais com comunidades locais. No Kremlin, assessores de segurança veem na aproximação americana da Groenlândia um sinal de que o Atlântico Norte pode ganhar peso nas estratégias da Otan.
Organizações ambientais e grupos de pesquisa alertam para a sobreposição de missões militares, projetos de mineração e comunidades indígenas vulneráveis. A presença de um navio-hospital, argumentam, pode melhorar pontualmente o acesso a exames e cirurgias, mas não substitui políticas estruturais de saúde, saneamento e adaptação climática. “Sem um acordo claro sobre limites e objetivos, qualquer operação prolongada vira um ensaio de ocupação”, afirma um pesquisador dinamarquês especializado em Ártico.
Especialistas em direito internacional lembram que a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, em vigor desde 1994, estabelece regras para atuação de navios militares em águas territoriais e zonas econômicas exclusivas. Mesmo ações classificadas como humanitárias precisam respeitar acordos bilaterais e decisões de governos locais. A missão americana, se ampliada ou renovada sem consenso, pode acender debates no Conselho do Ártico e em organismos da ONU sobre a legitimidade de operações prolongadas em regiões autônomas.
No plano interno, o gesto fortalece o discurso de Trump junto a eleitores que veem a projeção de poder no exterior como sinal de grandeza nacional. O envio de um navio-hospital, com imagens de bandeiras e atendimentos médicos, rende capital político imediato. Ao mesmo tempo, aumenta o custo de recuo: qualquer sinal de limitação imposta pela Dinamarca pode ser explorado como demonstração de fraqueza num cenário de rivalidade com Rússia e China.
Próximos passos e risco de escalada diplomática
Em Copenhague, cresce a pressão por uma resposta firme. Membros do Parlamento dinamarquês defendem, em conversas reservadas, que o governo exija garantias formais de que a missão não terá caráter permanente nem objetivos militares ocultos. A alternativa seria buscar apoio da União Europeia e da Otan para enquadrar a operação em parâmetros estritos, com prazos, escopo e fiscalização definidos.
O governo da Groenlândia, que desde 2009 amplia gradualmente sua autonomia, tenta equilibrar interesses. De um lado, vê na presença americana uma chance de investimentos em infraestrutura, portos de águas profundas e novas rotas aéreas. De outro, teme que a disputa entre grandes potências deixe comunidades locais à margem das decisões. Lideranças regionais cobram voz nas negociações e garantias de que qualquer acordo inclua benefícios concretos em saúde, educação e empregos.
O envio do navio-hospital expõe, de forma aguda, a transição do Ártico de fronteira remota a palco central da política internacional. As próximas semanas, com a chegada efetiva da embarcação e as primeiras manobras em portos groenlandeses, devem indicar se a missão se mantém no campo da cooperação médica ou se se converte em símbolo de uma nova rodada de militarização do gelo. A resposta da Dinamarca, e a reação em cadeia de Rússia, Canadá e União Europeia, vão definir se a ajuda humanitária será lembrada como gesto de cuidado ou como ponto de virada em uma disputa que só tende a se intensificar com o avanço do aquecimento global.
