Irã acena com concessões nucleares em troca de alívio de sanções
O Irã sinaliza disposição para concessões inéditas em seu programa nuclear nas negociações com os Estados Unidos previstas para fevereiro de 2026. Teerã admite enviar parte do urânio enriquecido ao exterior e diluir o restante em troca do fim gradual das sanções e do reconhecimento de seu direito ao enriquecimento “para fins pacíficos”.
Diplomacia sob pressão militar
A oferta chega em um momento em que Washington reforça sua presença militar no Oriente Médio e ameaça usar a força caso considere que Teerã se aproxima de uma bomba atômica. Autoridades iranianas, por sua vez, prometem atacar bases dos EUA na região se forem alvo de uma ofensiva. O clima é de impasse, mas a nova proposta tenta reabrir espaço para a diplomacia e afastar o risco de conflito aberto.
Uma autoridade iraniana sênior afirma à Reuters que, após duas rodadas de conversas, iranianos e americanos continuam distantes sobre o ritmo e o alcance do alívio das sanções impostas por Washington. Mesmo assim, ela descreve um movimento calculado de Teerã para evitar o colapso das conversas. “Existe a possibilidade de se chegar a um acordo provisório à medida que as negociações continuam”, diz o negociador, que acompanha de perto as tratativas.
As discussões ocorrem em fóruns internacionais com mediação de outros atores globais, em locais mantidos sob sigilo por razões de segurança. Nos bastidores, diplomatas trabalham com a meta de chegar a um entendimento inicial ainda no primeiro semestre de 2026, antes que a escalada militar torne qualquer compromisso politicamente tóxico. O histórico recente pesa: em 2018, o governo Donald Trump abandona o acordo nuclear firmado em 2015 e volta a apertar o cerco econômico contra o Irã.
O que Teerã põe sobre a mesa
A novidade agora está no grau de flexibilidade que o Irã apresenta. Segundo a autoridade ouvida pela Reuters, Teerã considera uma combinação de três medidas: enviar ao exterior cerca de metade do urânio mais altamente enriquecido que mantém em estoque, diluir o restante a níveis inferiores e participar da criação de um consórcio regional para supervisionar o enriquecimento. A ideia do consórcio circula há anos nas conversas sobre o dossiê nuclear iraniano, mas nunca avança além do papel.
Em troca, o Irã quer duas garantias claras. A primeira é o reconhecimento explícito de seu direito ao “enriquecimento nuclear pacífico” sob o guarda-chuva do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, do qual é signatário desde a década de 1970. A segunda é um roteiro preciso para o levantamento das sanções econômicas americanas que hoje travam o acesso de Teerã a mercados, créditos e tecnologia.
O impacto dessas sanções é profundo. Desde 2018, quando medidas mais duras passam a valer, a economia iraniana encolhe, a moeda perde valor e a inflação supera 40% ao ano em alguns períodos, segundo estimativas de organismos internacionais. O comércio de petróleo, principal fonte de receita do país, sofre com restrições que afetam também empresas europeias e asiáticas. Ao abrir a porta para concessões nucleares, o governo iraniano busca aliviar essa pressão e reduzir o risco de um ataque dos EUA contra suas instalações.
O pacote em discussão inclui ainda um aceno econômico direto a Washington. De acordo com a autoridade iraniana, o Irã oferece oportunidades para empresas norte-americanas atuarem como contratadas nas grandes indústrias de petróleo e gás do país, setor que concentra a maior parte dos investimentos estrangeiros. “Dentro do pacote econômico em negociação, os EUA também receberam ofertas de oportunidades para investimentos sérios e interesses econômicos tangíveis na indústria petrolífera iraniana”, afirma o negociador.
Sanções, energia e equilíbrio regional
O governo americano não comenta publicamente as novas propostas e mantém a posição de que o enriquecimento de urânio em solo iraniano representa um possível caminho para armas nucleares. Teerã nega qualquer intenção militar e sustenta que busca apenas combustível para usinas de geração de energia e pesquisa médica. A divergência sobre intenções e verificação é o centro da disputa desde o início dos anos 2000.
A possível flexibilização das sanções tem implicações que vão além da rivalidade bilateral. Um acordo provisório que limite o programa nuclear iraniano e garanta monitoramento mais rígido pode esfriar tensões com Israel e com monarquias do Golfo, que veem o Irã como rival estratégico. Também pode afetar o mercado global de petróleo: se as restrições a Teerã começarem a ser suspensas em 2026, analistas projetam aumento gradual da oferta, com impacto nos preços internacionais e nas contas de países importadores.
Para o Irã, o ganho potencial é duplo. De um lado, o país teria acesso mais amplo a receitas de exportação de petróleo e gás, o que aliviaria a pressão interna por crescimento e empregos. De outro, recuperaria parte da legitimidade internacional perdida desde a retomada das sanções, abrindo espaço para investimentos em infraestrutura e tecnologia. Quem teme essa normalização são rivais regionais e setores políticos em Washington que veem qualquer relaxamento das punições como concessão excessiva a um governo hostil.
O cronograma para o eventual alívio ainda é o ponto mais sensível. “A última rodada de negociações mostrou que as ideias dos EUA sobre o escopo e o mecanismo de alívio das sanções diferem das demandas do Irã”, admite a autoridade iraniana. “Ambos os lados precisam chegar a um cronograma lógico para levantar as sanções. Este roteiro deve ser razoável e baseado em interesses mútuos”.
Janelas de oportunidade e risco de ruptura
As próximas semanas se tornam decisivas para medir o fôlego da diplomacia. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirma que espera se reunir em Genebra, em 26 de fevereiro de 2026, com Steve Witkoff, enviado especial do presidente dos Estados Unidos. “Ainda há uma boa chance”, diz o chanceler, indicando que Teerã calcula que um entendimento, mesmo limitado, ainda é politicamente possível em ambos os lados.
Se houver acordo provisório, o Irã pode começar a se reinserir gradualmente na economia internacional, com acesso ampliado a investimentos, tecnologia de energia e financiamento externo. O movimento também pode desencadear uma nova arquitetura de segurança regional, com mais mecanismos de verificação nuclear e canais de diálogo permanentes. Se as conversas fracassarem, o cenário volta a ser de risco de confronto direto, ataques a instalações nucleares e aumento nas tensões em rotas estratégicas, como o Estreito de Ormuz. A pergunta que permanece em aberto é se Teerã e Washington conseguem transformar concessões calculadas em um compromisso que sobreviva à próxima crise política.
