Vídeo de uniforme do Benfica com Lukebakio gera acusação de racismo
O Benfica se vê no centro de uma nova polêmica em 22 de fevereiro de 2026. Um vídeo promocional do novo uniforme mostra o atacante Lukebakio, jogador negro, no papel de auxiliar de limpeza que pega sorrateiramente uma camisa do clube. A cena acende um debate imediato sobre racismo e estereótipos no futebol europeu.
Vídeo promocional vira caso de racismo nas redes
O filme, divulgado nas redes oficiais do clube, tenta apresentar o novo uniforme como um objeto de desejo. Na narrativa, Lukebakio aparece primeiro com roupas simples e luvas de limpeza, empurrando um carrinho de material de higienização. Em seguida, entra em uma sala vazia, olha para os lados e, em um gesto furtivo, pega a nova camisa do Benfica, como se a roubasse.
A construção da cena provoca reação imediata de torcedores e especialistas em direitos humanos. Em um contexto em que o futebol ainda lida com casos recorrentes de injúria racial, a escolha de colocar um jogador negro no papel de auxiliar de limpeza e ladrão é vista como mais do que um erro estético. “Não é só marketing infeliz, é reforço de um estereótipo histórico”, afirma um pesquisador de racismo no esporte ouvido por veículos portugueses, em declaração que circula em trechos nas redes. Comentários com a palavra “racismo” se multiplicam em segundos e dominam as menções ao clube nas primeiras horas após a publicação.
Pressão cresce após caso recente com Vinicius Jr.
A repercussão ganha ainda mais peso por ocorrer poucos dias depois de um novo episódio de ataques racistas contra Vinicius Jr., do Real Madrid, em jogo do Campeonato Espanhol. O caso, que já gera investigações e punições sucessivas desde 2023, mantém o tema do racismo no futebol em alta em toda a Europa. Nesse cenário, qualquer sinal de insensibilidade de clubes e ligas passa a ser escrutinado com mais rigor.
Para parte da torcida, o vídeo não é apenas um deslize isolado, mas sintoma de um problema estrutural. O questionamento recai sobre quem aprova roteiros, revisa imagens e autoriza campanhas antes de elas chegarem ao público. Agências de publicidade e departamentos de marketing de grandes clubes movimentam orçamentos milionários por temporada, com várias etapas de avaliação interna. Mesmo com esse aparato, a peça com Lukebakio chega às redes sem nenhum filtro visível sobre o impacto racial da narrativa.
Debate expõe responsabilidade dos clubes
A crise de imagem força o Benfica a rever, em poucas horas, sua estratégia de comunicação. Especialistas apontam que, em um clube com milhões de torcedores espalhados por vários continentes, qualquer conteúdo audiovisual deixa de ser apenas entretenimento. Ganha peso político e simbólico. Ao associar um jogador negro a papéis historicamente subalternizados e a um ato de roubo, o vídeo reativa memórias de discriminação que vão além do futebol e atravessam séculos de estigmatização.
Movimentos antirracistas e coletivos de torcedores cobram uma resposta clara: retirada do vídeo, pedido de desculpas público e compromisso com mudanças internas. “Não basta apagar o post. É preciso explicar como isso foi aprovado e o que será feito para que não se repita”, aponta um ativista que acompanha casos de racismo no esporte europeu. A pressão não se limita a Portugal e chega também ao Brasil, onde Vinicius Jr. se torna símbolo da luta contra a discriminação nas arquibancadas. Em grupos de WhatsApp e no X, antigos Twitter, torcedores lembram outros episódios de campanhas que sexualizam ou estereotipam atletas negros, mostrando um padrão que não se resolve com ações pontuais.
Racismo institucional e futuro da comunicação esportiva
O episódio com Lukebakio reacende a discussão sobre racismo institucional no futebol. A crítica central não se dirige apenas à peça em si, mas à ausência de diversidade nas equipes que decidem o que vai ao ar. Em comissões técnicas, conselhos de administração e departamentos de comunicação de grandes clubes europeus, pessoas negras seguem em minoria, mesmo em elencos com mais de 50% de jogadores negros ou de origem africana. Essa diferença aparece, na prática, na falta de sensibilidade para identificar estigmas que saltam aos olhos de quem vive a discriminação no dia a dia.
O caso funciona como alerta para outros clubes, inclusive brasileiros, que intensificam a produção de conteúdo próprio para redes e plataformas de streaming. Quanto maior o volume de vídeos e campanhas, maior também o risco de erros que ferem a imagem institucional e afastam parte da torcida. A tendência é que patrocinadores, federações e ligas passem a exigir, em contratos e regulamentos, protocolos claros contra discursos e imagens discriminatórias. O debate que começa com um vídeo de menos de um minuto pode, nos próximos meses, pressionar por treinamentos obrigatórios, revisão de processos internos e metas de diversidade em cargos de decisão.
Próximos passos e perguntas em aberto
A polêmica em torno da campanha do novo uniforme coloca o Benfica diante de uma escolha. O clube pode tratar o episódio como falha pontual, encerrar o assunto com uma nota protocolar e seguir adiante, arriscando novas crises. Ou pode assumir publicamente o erro, abrir seus processos de comunicação a revisão e envolver jogadores, torcedores e especialistas na construção de políticas mais sólidas de combate ao racismo.
O rumo que será adotado nos próximos dias ajuda a definir não só a reputação do Benfica, mas também o padrão de responsabilidade esperado de grandes clubes na era das redes sociais. A reação a esse caso indica se o futebol está disposto a enfrentar os estereótipos que ele próprio ajuda a reproduzir. A pergunta que fica é se a pressão atual será suficiente para transformar indignação em mudança concreta, ou se o vídeo de Lukebakio será lembrado apenas como mais um capítulo em uma lista crescente de oportunidades perdidas.
