Temporal causa naufrágio em Ubatuba e mata duas pessoas no litoral paulista
Duas pessoas morrem na noite de sábado (21) após o naufrágio de uma pequena embarcação no mar de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. O barco enfrenta chuva intensa, ventos fortes e mar agitado antes de virar.
Barco vira em mar agitado após mudança brusca no tempo
O acidente ocorre em meio a um temporal que atinge a cidade desde o fim da tarde. A embarcação, com cinco pessoas a bordo, não resiste às rajadas de vento e às ondas altas. O tempo muda rápido, e o que começa como uma saída em mar aberto termina em naufrágio nas proximidades da costa.
Equipes do Corpo de Bombeiros recebem o chamado por volta das 22h30 e seguem para a área indicada por outras embarcações. As buscas avançam noite adentro, com apoio de barcos de resgate e de moradores que relatam ter visto a lancha em dificuldade pouco antes de desaparecer. Quando os primeiros socorristas chegam, encontram destroços espalhados pela água escura.
Dois ocupantes são localizados já sem vida, presos entre partes da estrutura da embarcação. Outros três são resgatados com sinais de hipotermia e exaustão. Eles recebem os primeiros atendimentos ainda no píer e depois seguem para unidades de saúde da região. Até a manhã deste domingo (22), as autoridades não divulgam oficialmente os nomes das vítimas.
As circunstâncias exatas do naufrágio ainda estão em apuração. Relatos colhidos por equipes de resgate indicam que o vento aumenta em poucos minutos, formando ondas maiores do que o padrão daquele trecho do litoral. A embarcação tenta contornar a área mais crítica, mas perde estabilidade e vira, lançando todos ao mar.
Chuvas extremas alagam bairros e fecham rodovia em Ubatuba
O naufrágio acontece em um fim de semana marcado por instabilidade intensa no litoral norte. Em apenas 12 horas, no sábado, a Defesa Civil estadual registra 126 milímetros de chuva em Ubatuba, volume equivalente à média prevista para todo o mês de fevereiro. Rios transbordam, cachoeiras ganham força e bairros inteiros lidam com alagamentos súbitos.
No Sertão da Quina, região entre a praia de Maranduba e a serra, moradores veem a água subir em questão de minutos. Vídeos publicados em redes sociais mostram ruas transformadas em correntezas, com a água na altura dos portões das casas e, em alguns pontos, ultrapassando muros. Famílias saem às pressas, carregando o que conseguem em carros, motos e até a pé.
A situação nas estradas repete o cenário de alerta. A rodovia Oswaldo Cruz, principal ligação entre o Vale do Paraíba e Ubatuba, fica interditada em três pontos entre o km 64 e o km 69 por causa de deslizamentos de terra. Máquinas trabalham para liberar pelo menos uma faixa, enquanto o tráfego é desviado para a rodovia dos Tamoios, que absorve parte do fluxo rumo ao litoral.
A prefeitura divulga um alerta ainda na noite de sábado, pedindo que moradores evitem áreas de risco, rios cheios e pontes com estruturas comprometidas pela água. Escolas municipais são transformadas em pontos de apoio para quem precisa deixar suas casas. Equipes de assistência social se dividem entre o acolhimento de desabrigados e o mapeamento de novos pontos de risco.
O cenário reforça a vulnerabilidade do litoral norte em dias de chuva extrema. Em fevereiro de 2023, a mesma faixa de costa registra mais de 600 milímetros de chuva em 24 horas em municípios vizinhos, com deslizamentos e dezenas de mortes. Desde então, órgãos estaduais e municipais prometem reforçar sistemas de alerta precoce e fiscalização de áreas ocupadas em encostas. A tragédia no mar de Ubatuba adiciona uma dimensão marítima a esse quadro de risco.
Naufrágio reacende debate sobre segurança no mar e prevenção
Autoridades anunciam a abertura de um procedimento para apurar as causas do acidente com a embarcação. A investigação deve cruzar dados meteorológicos, rotas de navegação e eventuais falhas operacionais. A análise inclui a avaliação das condições do barco, o uso de coletes salva-vidas e as decisões tomadas antes da saída para o mar em meio à previsão de temporais.
Especialistas em segurança náutica ouvidos pela reportagem lembram que embarcações de pequeno porte são as primeiras a sentir o impacto de rajadas e ondas mais altas. A recomendação, em situações como a de sábado, é clara: se há alerta de chuva intensa e vento forte, o ideal é cancelar passeios e pescarias. O mar reage muito rápido. Uma mudança de vento em poucos minutos pode virar uma lancha, diz um instrutor de navegação que atua na região.
O caso também pressiona o poder público a aprimorar a comunicação de risco com comunidades costeiras, pescadores e operadores de turismo. A emissão de boletins meteorológicos não garante, sozinha, a mudança de comportamento de quem vive do mar. Falta integrar aplicativos, rádios comunitárias, marinas e colônias de pesca em uma mesma rede de alerta, com linguagem simples e orientações objetivas.
A prefeitura de Ubatuba informa que trabalha em um balanço detalhado dos impactos do temporal, com número de desabrigados, pontos de interdição e danos a equipamentos públicos. O relatório deve embasar pedidos de apoio ao governo do estado e à União, tanto para ações emergenciais como para obras de contenção em áreas suscetíveis a enchentes e deslizamentos.
Enquanto as famílias das vítimas aguardam a liberação dos corpos e o resultado das perícias, o naufrágio expõe uma pergunta que volta a cada episódio extremo no litoral: até que ponto o poder público e a população estão preparados para lidar com um regime de chuvas mais intenso e frequente, em um mar cada vez mais imprevisível?
