Lula nega influência em enredo que o homenageou na Sapucaí
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva nega ter participado da elaboração do enredo da Acadêmicos de Niterói, que o homenageia no Carnaval do Rio. Em coletiva em Nova Delhi, na Índia, neste domingo (22), ele afirma que apenas aceita a homenagem e que não cabe a ele opinar sobre o desfile.
Lula se distancia da criação do desfile
Lula fala publicamente pela primeira vez sobre o desfile da escola, que levou para a Marquês de Sapucaí o enredo “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. A apresentação, que percorre sua trajetória do sertão nordestino ao Palácio do Planalto, vira alvo de polêmica desde antes do Carnaval e alimenta acusações de propaganda eleitoral antecipada.
Na coletiva em Nova Delhi, o presidente responde a perguntas sobre o teor político do desfile e sobre críticas vindas de grupos evangélicos, incomodados com a ala de fantasias chamada “neoconservadores em conserva”. Diante das críticas, Lula procura se posicionar como destinatário, não como autor da narrativa apresentada na avenida.
“Eu não penso. Porque primeiro eu não sou o carnavalesco, eu não fiz o samba-enredo, eu não cuidei dos carros alegóricos. Eu apenas sou homenageado em uma música maravilhosa”, diz. Ele insiste que não interfere na criação artística da escola e que não vê espaço para que o presidente da República dê instruções sobre fantasias ou alegorias.
Lula desloca o centro da homenagem para sua mãe, Dona Lindu, figura recorrente na própria biografia política do petista. “É uma pena que a minha mãe já tivesse morrido e não ouvisse a música. A música é, na verdade, uma homenagem à minha mãe. É a saga dela de trazer os filhos para São Paulo”, afirma, ao recontar a história da família que deixa Pernambuco rumo ao Sudeste em busca de trabalho.
Carnaval, política e a linha tênue da propaganda
A Acadêmicos de Niterói estreia no Grupo Especial em 2026 apostando na biografia de um presidente em exercício. O desfile, realizado na Marquês de Sapucaí, percorre a infância de Lula no Nordeste, a migração para São Paulo, o emprego como torneiro mecânico, as greves do ABC e a chegada ao Planalto em três mandatos. Na avenida, o enredo se soma a um enredo institucional já conhecido do petista e reacende o debate sobre o uso político do Carnaval.
A apresentação, no entanto, não rende o resultado esperado. A escola termina em último lugar no Grupo Especial, com apenas duas notas 10 ao longo da apuração, e é rebaixada para a Série Ouro. O fraco desempenho não esvazia o debate jurídico que se forma em torno da escolha do tema. Ao menos dez ações judiciais e representações no Ministério Público e no Tribunal de Contas da União tentam impedir o desfile ou barrar repasses de recursos públicos.
Os autores das ações sustentam que trechos do samba e da apresentação configuram propaganda eleitoral antecipada em favor de Lula, mesmo faltando meses para o calendário oficial de campanha. Há pedidos para proibir a presença do presidente no camarote oficial e para restringir manifestações consideradas ataques a adversários políticos. Na quinta-feira (12) que antecede o Carnaval, o Tribunal Superior Eleitoral rejeita liminar que pedia a suspensão do desfile, mas deixa aberta a possibilidade de analisar condutas específicas após a festa.
O PT reage dois dias depois da passagem da escola pela avenida. Em nota oficial divulgada na segunda-feira (16), o partido rebate as acusações da oposição e afirma que “não há fundamento jurídico para qualquer discussão sobre inelegibilidade relacionada ao episódio”. A legenda cita decisões anteriores do Supremo Tribunal Federal e do próprio TSE para sustentar que manifestações culturais e políticas espontâneas, feitas por artistas, se enquadram na liberdade de expressão.
“A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral é firme no sentido de que manifestações políticas e culturais espontâneas de artistas constituem exercício legítimo da liberdade de expressão, inclusive em contextos eleitorais e em eventos públicos”, diz um trecho da nota petista. A discussão passa a orbitar o limite entre biografia, culto à personalidade e campanha política em uma das maiores vitrines culturais do país.
Disputa de narrativas e próximos passos
Na Índia, Lula tenta deslocar o foco do debate jurídico e político para o caráter afetivo da homenagem. Ele ressalta que sua única decisão é aceitar estar no centro do enredo. “Eu, sinceramente, acho que a escola fez uma coisa extraordinariamente. Não cabia ao presidente dar palpite nos carros alegóricos. Só cabia ao presidente aceitar ou não se ele queria ser homenageado, e eu aceitei. E sou muito grato à escola. Muito grato”, afirma.
O presidente promete visitar a Acadêmicos de Niterói quando voltar ao Brasil para agradecer pessoalmente “a homenagem que eles prestaram à saga da Dona Lindu”. A declaração evidencia que, mesmo após o rebaixamento, a escola entra no mapa político-cultural do país e passa a ser observada de perto por tribunais, partidos e eleitorado.
As representações apresentadas ao Ministério Público, ao Tribunal de Contas da União e ao próprio TSE ainda podem resultar em apurações formais sobre eventuais abusos. Ministros do tribunal eleitoral já sinalizam que imagens, discursos e eventuais pedidos de voto registrados na Sapucaí podem ser avaliados caso a caso. A depender da leitura da Justiça, o Carnaval de 2026 entra para a história não apenas pelos desfiles, mas como um teste de limites entre cultura, religião e política.
A reação de parte do eleitorado evangélico, incomodado com a ala “neoconservadores em conserva”, indica que o desfile também repercute fora das cortes. A crítica reforça a disputa por esse segmento, central em eleições recentes, e oferece munição a adversários de Lula em futuros embates. Ao tentar se manter como personagem de uma obra alheia, o presidente calcula o impacto de cada palavra em um ambiente em que um samba-enredo pode virar peça em processo eleitoral.
Enquanto a Acadêmicos de Niterói se prepara para refazer o caminho na Série Ouro em 2027, o caso segue alimentando debates em gabinetes, quadras e púlpitos. A resposta de Lula em Nova Delhi não encerra a controvérsia, mas antecipa o tom da próxima etapa: caberá à Justiça definir se a homenagem fica no campo da arte ou se avança sobre o terreno minado da propaganda eleitoral.
