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Empresariado se mobiliza para barrar mudanças na jornada 6×1

Empresários e associações do setor produtivo intensificam, neste 22 de fevereiro de 2026, a articulação para conter mudanças na jornada de trabalho 6×1. A mobilização ganha força em polos industriais, com destaque para Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde o modelo é visto como peça-chave da competitividade local.

Pressão cresce nos polos industriais

Salas de reunião em Betim amanhecem ocupadas por grupos de executivos, advogados trabalhistas e consultores de recursos humanos. Eles revisam cenários, estudam projetos em tramitação e desenham planos de contra-ataque para tentar preservar o formato de seis dias de trabalho seguidos por um dia de descanso, consagrado em linhas de produção de grande porte.

A discussão deixa de ser abstrata com o avanço de propostas que tratam da revisão ampla da jornada de trabalho e da ampliação de folgas e intervalos. Representantes de montadoras, autopeças, metalúrgicas e empresas de logística avaliam que qualquer mudança brusca na rotina de turnos pode desorganizar escalas, reduzir a produtividade e elevar custos em até dois dígitos, num momento em que margens apertadas e juros elevados já pressionam as contas.

Estratégias para influenciar Brasília e reguladores

As principais federações industriais montam uma estratégia em duas frentes. De um lado, reuniões reservadas com parlamentares da base e da oposição, em Brasília, para tentar alterar a redação de propostas que tratam da jornada. De outro, uma ofensiva técnica sobre órgãos reguladores e o próprio Ministério do Trabalho, com estudos e pareceres que defendem a permanência do 6×1 em setores específicos.

Um dirigente de entidade empresarial mineira, que participa das conversas, resume o clima. “Estamos falando de plantas que operam 24 horas, sete dias por semana. Se uma linha para, o prejuízo é imediato. Uma alteração sem transição realista pode derrubar a produção em 15% a 20% e comprometer novos investimentos”, afirma. Ele calcula que, em polos como Betim, Contagem e o eixo industrial de São Paulo, mais de 60% dos trabalhadores da indústria pesada seguem algum tipo de escala baseada no 6×1.

Modelo 6×1 sob escrutínio

O modelo 6×1 se consolida no país a partir da segunda metade do século 20, acompanhando a expansão da indústria automobilística e metalúrgica. Linhas de montagem e operações contínuas, como siderurgia e química, adotam turnos rotativos para garantir funcionamento quase ininterrupto. A legislação prevê formas de compensação, como adicional noturno e pagamento de horas extras, mas debates sobre saúde do trabalhador e conciliação entre vida pessoal e profissional ressurgem com força nos últimos anos.

Centrais sindicais ligadas a categorias industriais argumentam que a reforma é necessária para reduzir afastamentos por doenças ocupacionais e melhorar a qualidade de vida. Empresários, por sua vez, insistem que qualquer transição precisa ser gradual, com prazos de adaptação superiores a 24 meses, para evitar demissões e realocação de plantas para outros estados ou países. “Não se trata de defender jornadas extenuantes, mas de reconhecer a realidade de setores que não podem simplesmente desligar a chave ao fim do expediente”, afirma o executivo de uma empresa de autopeças com mais de 2 mil funcionários em Betim.

Impacto direto na rotina e no emprego

Nos cálculos de associações patronais, a eventual extinção do 6×1 nas linhas de produção mais intensivas obriga empresas a contratar entre 8% e 12% mais trabalhadores para manter o mesmo nível de produção, ou, na falta de fôlego financeiro, a reduzir o volume fabricado. Em um cenário de margens comprimidas, a conta pode resultar em cortes em outros setores, como manutenção, treinamento e investimentos em tecnologia.

Em Betim, onde a indústria automotiva responde por parcela relevante da arrecadação municipal, uma queda de 10% na produção, combinada a escalas mais rígidas, pode se traduzir em menos contratos temporários, redução de turnos extras e freio na abertura de vagas para jovens. Comerciantes que dependem do fluxo de trabalhadores nos arredores das fábricas acompanham com apreensão. Uma empresária do ramo de alimentação, que atende três turnos de uma planta local, resume o temor: “Se mexe na escala deles, mexe no meu faturamento. Uma folga a mais por semana pode significar até 20% a menos de movimento em determinados dias”.

Equilíbrio delicado entre competitividade e proteção

A disputa em torno do 6×1 explicita um dilema antigo da economia brasileira. De um lado, a necessidade de proteger a saúde física e mental de trabalhadores submetidos a longas jornadas e alta pressão. De outro, a urgência de manter competitivos setores que disputam contratos globais com empresas de países que operam, em alguns casos, com regimes semelhantes ou mais flexíveis.

Especialistas em direito do trabalho lembram que o Brasil já conviveu com mudanças estruturais recentes, como a reforma de 2017, que ampliou a negociação entre empresas e empregados. Eles alertam, porém, que a revisão da jornada em setores de funcionamento contínuo exige estudos específicos de ergonomia, impacto em segurança e reorganização logística. Alterações mal calibradas podem provocar o efeito oposto ao desejado: aumento de acidentes, queda de produtividade e desorganização de cadeias inteiras.

Próximos passos e incertezas

Nos próximos meses, entidades empresariais pretendem apresentar propostas alternativas que preservam o 6×1 em segmentos considerados estratégicos, com contrapartidas em saúde e segurança. Entre as ideias em discussão estão programas de acompanhamento médico periódico, reforço em pausas ao longo do turno e incentivos fiscais vinculados a investimentos em automação que reduzam o esforço físico direto.

A agenda legislativa sobre jornada de trabalho deve ganhar corpo ao longo do primeiro semestre, e a intensidade da reação empresarial indica um embate prolongado. A forma como Congresso, governo e Justiça irão equilibrar proteção trabalhista, produtividade e competitividade internacional definirá não apenas o futuro do 6×1 em Betim e em outros polos industriais, mas também o ritmo de geração de empregos na indústria brasileira nesta década.

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