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Lula elogia cautela no tarifaço dos EUA e aposta em relação civilizada com Trump

Em Nova Déli, na Índia, neste domingo (22), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende a cautela do Brasil diante do tarifaço imposto pelos Estados Unidos e derrubado pela Suprema Corte americana. Ele afirma que o país tomou “decisões corretas” e prepara uma reaproximação política, comercial e de segurança com o ex-presidente Donald Trump, em encontro previsto para março.

Cautela após derrota do tarifaço na Justiça americana

Lula fala ao fim de uma série de reuniões na capital indiana, onde participa de agendas diplomáticas e econômicas. Questionado sobre o pacote de taxações adotado por Trump e agora revertido pela Suprema Corte dos EUA, o presidente recorre a uma metáfora doméstica para descrever a postura brasileira. “Temos a ideia de não tomar nenhuma decisão quando estamos com 39º de febre. Tem que esperar a febre passar para tomar a decisão”, diz. “Acho que tomamos as decisões corretas.”

O petista evita comentar o mérito jurídico da decisão do tribunal americano, que atinge tarifas bilionárias impostas a parceiros comerciais, entre eles o Brasil. Segundo ele, a prioridade é preservar a relação bilateral e manter o país longe de disputas internas em Washington. “Obviamente, não posso julgar a decisão da Suprema Corte de um país, não julgo a do meu, muito menos a de outro país”, afirma.

O tarifaço de Trump surpreende governos e empresas ao ser anunciado por redes sociais, sem aviso prévio. Lula recorda esse método ao falar em “taxações feitas de forma anômala” e em ordens que chegam “num tuíte” para redefinir a relação com aliados. No governo brasileiro, a ordem é não reagir por impulso e evitar retaliações que fechem portas no futuro, sobretudo em um momento de desaceleração global e disputa acirrada por mercados.

Ao insistir na imagem da febre, Lula tenta traduzir para o eleitor comum a lógica de uma diplomacia de longo prazo, menos guiada por humores do dia e mais por cálculo econômico. A vitória na Suprema Corte, diz um assessor que acompanha a viagem, é lida em Brasília como uma confirmação dessa estratégia: não ceder à pressão política imediata e aguardar a correção de rota dentro do próprio sistema americano.

Comércio, crime organizado e minerais críticos na agenda

A próxima etapa dessa aproximação se concentra no encontro previsto para março, nos Estados Unidos, entre Lula e Trump. O presidente brasileiro fala em uma pauta extensa, que inclui comércio, parcerias universitárias e a situação de cerca de 1,9 milhão de brasileiros que vivem em território americano, segundo estimativas atualizadas do Itamaraty. “Depois desta reunião, que a gente possa estar garantido de que temos uma relação altamente civilizada, respeitosa e que não vamos deixar de conversar pelo telefone quando tiver uma novidade entre Brasil e EUA”, projeta.

O discurso deixa claro que o Planalto busca reduzir tensões acumuladas nos últimos anos, marcada por choques no meio ambiente, na política externa e nas regras comerciais. Lula insiste na ideia de um Brasil que não escolhe lado fixo em disputas globais. “Não queremos uma nova guerra fria, não queremos ter preferência por nenhum país. Queremos relações iguais com todos os países. Também receber um tratamento igualitário”, afirma.

Segurança e combate ao crime organizado entram no centro da nova agenda. Em Nova Déli, Lula aparece ao lado do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e anuncia que integrantes da cúpula da corporação passam a acompanhar com mais frequência suas viagens ao exterior. “Agora, onde eu for, a Polícia Federal vai atrás porque precisamos fazer convênios para combater o crime organizado e o narcotráfico. O crime organizado é uma empresa multinacional”, diz.

No encontro com Trump, a delegação brasileira deve ser ampliada. Lula cita a presença de representantes da Receita Federal, dos ministérios da Fazenda e da Justiça para discutir mecanismos concretos de cooperação, como troca de informações fiscais, repatriação de criminosos e ações conjuntas em fronteiras. “Se o governo americano estiver disposto a combater o narcotráfico e o crime organizado, nós estaremos na linha de frente. Inclusive, [quero] reivindicar para mandar para nós os bandidos que estão lá, brasileiros que cometem crimes”, afirma.

As declarações indicam mudanças práticas na relação bilateral. De um lado, empresas brasileiras têm a perspectiva de uma revisão estável de tarifas e regras, depois de anos de incerteza. Do outro, forças de segurança veem espaço para acelerar acordos que facilitem extradições, rastreamento de dinheiro ilícito e operações conjuntas contra o contrabando, em especial de combustíveis e drogas.

Lula também mira o coração da disputa geopolítica atual: os minerais críticos, como lítio, nióbio e terras raras, essenciais para baterias, carros elétricos e equipamentos eletrônicos. Ele cobra uma mudança de rota em relação ao minério de ferro, cuja exportação em bruto alimenta a indústria estrangeira há mais de um século. “Não vamos permitir mais que nossos minerais críticos e nossas terras raras sejam explorados como o minério de ferro por tantos anos. A gente só cavava buraco, mandava minério para fora para comprar produto manufaturado. Não”, diz.

A mensagem mira investidores americanos e europeus interessados nessas cadeias de produção. O recado é que novos contratos, inclusive com os Estados Unidos, devem prever refinamento e industrialização no Brasil, com geração de emprego e tecnologia local. Em Brasília, técnicos apontam prazos de cinco a dez anos para que projetos em minerais críticos saiam do papel em escala relevante, o que torna decisivas as regras negociadas agora.

Relação de 201 anos à prova e próximos passos

Brasil e Estados Unidos completam 201 anos de relações diplomáticas em 2026, com um saldo que Lula classifica como “muito sólido”. O presidente admite, porém, que o tarifaço de Trump atinge em cheio a confiança construída ao longo de dois séculos. Nos bastidores, diplomatas contam que o governo é pego de surpresa com o impacto das sobretaxas sobre aço, alumínio e outros produtos, que afetam bilhões de dólares em exportações e pressionam cadeias produtivas internas.

As negociações que se seguem, segundo interlocutores do Planalto, buscam ao mesmo tempo blindar setores estratégicos e preservar o fluxo de comércio em áreas menos sensíveis. A derrubada do tarifaço pela Suprema Corte americana abre espaço para revisões de contratos e novas rodadas de diálogo com empresários, tanto no Brasil quanto nos EUA. Estados exportadores de commodities, como Minas Gerais, Pará e Mato Grosso do Sul, acompanham de perto os desdobramentos, de olho na retomada de pedidos suspensos ou encarecidos pelas tarifas.

Lula procura, ao mesmo tempo, projetar normalidade institucional ao definir Trump como um interlocutor com quem é possível manter uma “relação civilizada”. Em um cenário internacional polarizado, a escolha de palavras importa. O presidente fala em dois líderes de 80 anos que não podem “ficar brincando de fazer democracia”, numa referência à responsabilidade de evitar crises artificiais entre as duas maiores economias da América Latina.

O encontro de março, se confirmado nas datas estudadas pelas equipes, tende a funcionar como um teste de estresse dessa aposta. De um lado, estará um Brasil que busca equilibrar laços com China, União Europeia e países do Sul Global. Do outro, um ex-presidente americano que constrói sua imagem política com base em confrontos públicos e gestos de força. A forma como os dois vão encaixar comércio, segurança e disputa por minerais críticos em uma conversa “civilizada” pode definir o tom da relação pelos próximos anos.

Enquanto o Planalto prepara a viagem e ajusta a comitiva, a diplomacia brasileira tenta transformar a vitória na Suprema Corte em ativo político e econômico. A cautela que Lula exibe em Nova Déli, ao evitar celebrar ou criticar abertamente o tribunal americano, indica que o governo enxerga no episódio mais que um alívio imediato nas tarifas. A disputa em torno do tarifaço expõe o tipo de mundo com o qual o Brasil precisa lidar: feito de decisões rápidas, tweets que viram política de Estado e tribunais que revertem medidas com impacto de bilhões. Resta ver se o gesto de trégua que o presidente leva a Trump em março será suficiente para consolidar a relação “altamente civilizada” que ele promete hoje na Índia.

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