Ciencia e Tecnologia

Cientistas alertam para risco de catástrofe orbital até 2026

Cientistas e órgãos reguladores soam o alarme para uma possível catástrofe orbital a partir de fevereiro de 2026. O avanço acelerado de megaconstelações de satélites, com milhares de equipamentos lançados em poucos anos, cria um cenário de colisões em cadeia, aumento de detritos espaciais e impactos que vão da pesquisa climática à cultura.

Corrida por constelações pressiona órbita da Terra

O alerta ganha urgência porque a janela crítica estimada pelos especialistas já tem data aproximada. A partir de fevereiro de 2026, a combinação de órbitas cheias, equipamentos envelhecidos e novos lançamentos em massa pode transformar a vizinhança imediata da Terra em uma zona de risco constante.

Hoje, mais de 9 mil satélites ativos circulam o planeta, segundo estimativas de pesquisadores independentes, e projetos aprovados somam autorização para dezenas de milhares de novos aparelhos até o fim da década. Em paralelo, a órbita baixa acumula mais de 36 mil fragmentos rastreáveis, com mais de 10 centímetros, e milhões de pedaços menores que escapam dos radares.

Pesquisadores chamam esse ponto de saturação de “limiar Kessler”, em referência ao cientista da Nasa Donald Kessler, que em 1978 já descreve o risco de uma reação em cadeia de colisões. A tese ganha nova atualidade em meio a uma corrida comercial em que, a cada mês, foguetes colocam em órbita centenas de novos satélites de comunicação, navegação e observação.

Agências reguladoras, como a americana FCC, e órgãos multilaterais, como a União Internacional de Telecomunicações, aceleram consultas públicas e reuniões técnicas. A preocupação é que o ritmo de lançamentos, impulsionado por empresas privadas e programas nacionais, avance mais rápido que qualquer consenso internacional sobre segurança orbital.

Do céu congestionado ao impacto na vida diária

A possível catástrofe orbital não se limita à ficção científica. Em um cenário de colisão em cadeia, um choque entre dois satélites de algumas centenas de quilos pode gerar milhares de fragmentos. Cada pedaço, viajando a cerca de 28 mil quilômetros por hora, tem energia suficiente para destruir outros equipamentos em órbita. A cada novo impacto, mais detritos são produzidos, em um efeito dominó.

Nesse ambiente, satélites meteorológicos, que alimentam previsões do tempo e modelos climáticos, podem ter sensores danificados ou sofrer desvios forçados de órbita. Sistemas de monitoramento de desmatamento, queimadas e comportamento dos oceanos também ficam mais vulneráveis. “Se perdermos parte desses olhos sobre a Terra, nossa capacidade de acompanhar mudanças ambientais cai de forma dramática”, avalia um pesquisador ouvido pela reportagem.

Serviços cotidianos dependem dessa infraestrutura invisível. Redes de internet via satélite, navegação por GPS ou sistemas equivalentes, operações bancárias sincronizadas por sinais orbitais e até redes elétricas interligadas contam com satélites em pontos específicos. Uma nuvem densa de detritos pode inviabilizar manobras seguras, encurtar a vida útil dos equipamentos e encarecer seguros e lançamentos.

O impacto também alcança a cultura. Astrônomos profissionais e amadores já registram rastros de satélites cruzando imagens de telescópios, mesmo em observatórios remotos. Comunidades indígenas, povos tradicionais e grupos religiosos relatam incômodo com o céu marcado por fileiras brilhantes de pontos em movimento. “O céu noturno sempre foi um espelho espiritual e cultural. Ao poluir esse espaço, mexemos com narrativas ancestrais e com a forma como nos entendemos no universo”, afirma uma antropóloga especializada em cultura e ciência.

Organizações ambientais enxergam um paralelo direto com a crise climática. A ausência de regras claras para o fim de vida dos satélites, a falta de metas obrigatórias de remoção de detritos e a pressão econômica por conectividade global repetem padrões de exploração sem planejamento de longo prazo. “Estamos prestes a transformar a órbita em mais um lixão planetário”, alerta um ambientalista que acompanha discussões na ONU.

Pressão por regras globais e janela curta para agir

O horizonte de fevereiro de 2026 funciona como um ponto de inflexão para reguladores. Propostas discutidas em fóruns internacionais incluem limites anuais de lançamentos em determinadas faixas de altitude, exigência de planos de desorbitamento em até cinco anos após o fim da missão e criação de um fundo global para financiar tecnologias de limpeza orbital.

Empresas espaciais argumentam que constelações de milhares de satélites ampliam acesso à internet em regiões isoladas, estimulam economias locais e aceleram pesquisas científicas. Especialistas em segurança espacial, porém, cobram transparência sobre falhas, protocolos de colisão e taxas reais de desativação controlada. Quanto mais satélites inoperantes ficam abandonados em órbita, maior o risco de choques cegos.

Agências espaciais discutem missões dedicadas a capturar lixo espacial, com braços mecânicos, redes ou velas que aceleram a reentrada na atmosfera. Esses projetos ainda aparecem em estágios experimentais ou com custos elevados, mas ganham tração diante da possibilidade de, em poucos anos, parte da órbita baixa se tornar impraticável para novas missões científicas.

No campo diplomático, cresce a pressão para que a ONU lidere um acordo vinculante, com metas e sanções para países e empresas que descumprirem regras de sustentabilidade espacial. “Sem um marco global, cada ator segue sua própria lógica comercial ou estratégica, e o resultado pode ser um bloqueio coletivo do acesso ao espaço”, avalia um especialista em direito espacial internacional.

A comunidade científica insiste que ainda há tempo para evitar o cenário extremo, mas a margem é curta. As decisões tomadas nos próximos 24 meses, em conselhos reguladores, parlamentos nacionais e reuniões multilaterais, definem se a órbita da Terra continuará acessível para pesquisa, comunicação e exploração ou se se tornará mais um exemplo de esgotamento de um bem comum. A resposta, desta vez, não estará apenas em foguetes mais potentes, mas na capacidade política de tratar o espaço como um ambiente que precisa ser protegido antes que o céu, literalmente, comece a desabar sobre nós.

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