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Filhote de macaco rejeitado encontra abrigo em pelúcia no Japão

Rejeitado pela mãe ao nascer em julho de 2025, Punch, um filhote de macaco-japonês, vive agarrado a um bichinho de pelúcia em um zoológico no Japão. O brinquedo se torna seu porto seguro depois que o grupo também o afasta, enquanto tratadores tentam garantir o desenvolvimento físico e emocional do animal.

Vínculo improvável em um recinto superlotado

Punch nasceu há sete meses no Zoológico de Ichikawa City, na região metropolitana de Tóquio. Minutos depois do parto, a mãe o rejeita e o abandona. Sem o contato de pele que, para primatas, funciona como primeira linha de cuidado, o filhote passa diretamente para as mãos dos tratadores e para a mamadeira.

O zoológico abriga cerca de 60 macacos-japoneses no mesmo setor em que ele deveria crescer integrado ao grupo. Em vez de acolhimento, as primeiras tentativas de aproximação rendem empurrões, avisos bruscos dos adultos e uma sucessão de recusas. Diante da falta de colo, os funcionários oferecem um orangotango de pelúcia, do tamanho aproximado de um filhote.

O brinquedo, pensado apenas como um apoio temporário, vira parte inseparável da rotina. Punch atravessa o recinto abraçado ao boneco, usa o corpo macio como travesseiro e corre de volta a ele sempre que se assusta. Vídeos feitos por visitantes e divulgados a partir de janeiro mostram a cena repetida dezenas de vezes ao dia.

As imagens viralizam primeiro nas redes sociais japonesas, depois em perfis internacionais que acompanham vida selvagem e comportamento animal. Em poucos dias, o caso cruza idiomas, recebe legendas em inglês, espanhol e português e atrai uma onda extra de visitantes ao zoológico. Famílias passam a ir ao parque querendo ver “o macaco da pelúcia”.

Ciência por trás do apego e impacto nas redes

Para os tratadores e pesquisadores que acompanham o caso, o comportamento não é fofura gratuita. É um retrato contundente da falta que o cuidado faz nos primeiros meses de vida. Profissionais ouvidos pela imprensa local reforçam que o apego de Punch ao brinquedo não é uma tentativa de “humanizar” o animal. Eles descrevem o gesto como uma resposta adaptativa ao estresse e à ausência de contato social consistente.

Em primatas, explicam, o vínculo com a mãe ajuda a regular funções básicas como temperatura corporal, batimentos cardíacos e liberação de hormônios ligados ao estresse. Sem esse colchão emocional, o sistema nervoso do filhote fica em alerta constante. O que se vê no cercado, com um macaco agarrado a um objeto macio, ecoa décadas de pesquisa em laboratórios.

Estudos clássicos conduzidos pelo psicólogo Harry Harlow, a partir dos anos 1950, já mostravam que filhotes de macacos privados da mãe preferem o conforto de uma “mãe” de pano, sem leite, a uma estrutura metálica que oferece comida, mas não aconchego. O termo “objeto transicional”, cunhado na psicologia para descrever paninhos, bichos de pelúcia e outros itens que acalmam bebês humanos, volta ao centro da discussão em pleno 2026, agora diante de um caso ao vivo em Ichikawa.

Os vídeos de Punch agarrado ao orangotango de tecido levam esse debate ao público leigo. A hashtag #HangInTherePunch se espalha em plataformas como X, Instagram e TikTok, somando milhares de postagens e comentários em poucos dias. Usuários compartilham relatos de crianças que não dormem sem um brinquedo, fazem paralelos com adoções tardias e criticam condições de cativeiro que não consideram as necessidades emocionais dos animais.

Na prática, a história transforma um caso específico em vitrine para um tema mais amplo: o suporte emocional em cativeiro. Especialistas em bem-estar animal destacam que a cena de um filhote abraçado a uma pelúcia expõe, de maneira concreta, a responsabilidade de zoológicos e centros de pesquisa em oferecer mais do que alimentação e abrigo físico.

Desafios de integração e o que vem pela frente

Desde janeiro, a equipe de Ichikawa faz uma introdução gradual de Punch ao grupo de aproximadamente 60 macacos-japoneses. As tentativas seguem um protocolo de aproximação lenta, com encontros curtos, supervisão constante e possibilidade de recuo sempre que a tensão aumenta. Imagens recentes mostram adultos impondo limites, empurrando o filhote e afastando-o de áreas de alimentação, comportamento comum em bandos que recebem um novo indivíduo, mas que, no caso de Punch, reforça a solidão inicial.

Após cada interação difícil, o macaco corre de volta ao brinquedo e o abraça com força, num gesto que lembra, para quem observa, o consolo buscado por uma criança ao fim de um dia ruim. O boneco funciona como ponto fixo em um ambiente ainda imprevisível. Sem ele, avaliam especialistas, o nível de estresse poderia ser maior, com impacto direto no apetite, no sono e na capacidade de explorar o recinto.

O zoológico, que já nota aumento de visitantes desde a viralização dos vídeos, agora lida com uma pressão adicional. Defensores de direitos animais cobram transparência sobre os planos de longo prazo para Punch e sobre eventuais mudanças na política de manejo de filhotes rejeitados. Pesquisadores sugerem que o caso seja documentado de forma sistemática, com dados de comportamento, saúde e socialização, para alimentar estudos sobre desenvolvimento em primatas criados sem a mãe.

Nos próximos meses, a equipe pretende ampliar progressivamente o tempo de contato de Punch com o bando, sempre mantendo o brinquedo por perto. A expectativa é que, à medida que ele ganha confiança e autonomia, a pelúcia se torne menos necessária, como acontece com muitas crianças quando crescem. Não há garantia de que isso ocorra nem prazo definido, mas a rotina atual já oferece uma pergunta incômoda para quem observa de fora: até que ponto é possível reparar, com um boneco de tecido, a ausência de um laço que deveria ter começado no primeiro minuto de vida?

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