Remédio ligado a compulsão por sexo e jogos acende alerta global
Mais de 250 pessoas relatam, em 2026, que um medicamento prescrito desencadeia vício em jogos de azar e sexo. A investigação é revelada pela BBC e levanta dúvidas sobre a segurança do tratamento.
Relatos que transformam um tratamento em risco
O remédio, indicado para uma condição crônica e de uso prolongado, entra na rotina de pacientes em diferentes países como promessa de estabilidade. Em poucos meses, parte deles começa a notar algo que não estava na bula: uma necessidade quase incontrolável de jogar e buscar sexo, online e fora da internet. O comportamento foge do padrão anterior dessas pessoas e passa a consumir tempo, dinheiro e relações pessoais.
A BBC reúne, ao longo de meses, depoimentos de mais de 250 usuários ou ex-usuários. Muitos descrevem o mesmo roteiro, com datas, quantias perdidas e rupturas familiares. Um paciente ouvido pela emissora resume a mudança: “Eu nunca tinha apostado nada mais sério do que um bolão com amigos. De repente, estava gastando o salário inteiro em cassinos virtuais, sem conseguir parar”. Em outro relato, uma mulher conta que a vida sexual, antes regular, se torna uma busca incessante por encontros casuais e conteúdo adulto. “Era como se alguém tivesse mexido no meu cérebro”, diz.
Quando o tratamento ultrapassa a linha do aceitável
Os casos, espalhados por diferentes países, chamam atenção de médicos, advogados e reguladores porque seguem um padrão temporal. A compulsão por jogos e sexo costuma surgir semanas ou meses após o início do uso diário do medicamento e diminuir quando a dose é reduzida ou o tratamento é suspenso. Em vários depoimentos, pacientes afirmam que não haviam recebido qualquer alerta claro sobre esse tipo de efeito colateral.
As histórias revelam um custo alto e imediato. Há famílias que se separam após descobrirem traições e dívidas ocultas. Um dos entrevistados afirma ter perdido, em menos de um ano, economias acumuladas por mais de uma década de trabalho. Em muitos casos, o prejuízo financeiro passa de dezenas de milhares de reais, somado a empréstimos, cartões estourados e até venda de bens. Psicólogos ouvidos pela BBC relatam aumento de quadros de depressão, ansiedade e pensamentos suicidas entre pessoas que ligam o início da crise ao uso do medicamento.
Especialistas em farmacologia lembram que remédios que atuam em áreas do cérebro ligadas à recompensa e ao prazer podem, em situações específicas, alterar impulsos e tomada de decisão. A controvérsia está na extensão desse risco e em quão claro ele é comunicado. “Todo medicamento tem efeito colateral, mas um efeito que empurra o paciente para a ruína financeira e sexual precisa ser tratado como prioridade absoluta de segurança”, afirma um pesquisador ouvido no levantamento.
Pressão por transparência e mudanças nas regras
Os relatos divulgados em 2026 chegam a um momento em que o debate sobre farmacovigilância se intensifica. Em vários países, agências de regulação exigem relatórios periódicos pós-lançamento, mas ainda dependem de notificações voluntárias de médicos e pacientes. O caso, exposto com números concretos pela BBC, reforça a percepção de que falhas nesse monitoramento permitem que efeitos graves circulem anos abaixo do radar oficial.
Advogados especializados em responsabilidade civil avaliam que o volume de depoimentos pode embasar ações coletivas contra fabricantes. A argumentação se concentra em duas frentes: a eventual omissão ou minimização dos riscos em materiais informativos e a falta de acompanhamento adequado de quem usa o remédio por longos períodos. “Quando mais de duzentas pessoas, em contextos distintos, descrevem o mesmo padrão de dano, a empresa precisa explicar o que sabia e quando soube”, diz um advogado ouvido pela reportagem internacional.
O impacto chega também aos consultórios. Associações médicas discutem a criação de protocolos específicos de acompanhamento para pacientes que recebem esse tipo de prescrição. A orientação preliminar inclui conversas francas sobre possíveis mudanças de comportamento, monitoramento mais frequente nas primeiras semanas e avaliação imediata de qualquer sinal de compulsão. Alguns especialistas defendem que a prescrição venha acompanhada de termo de consentimento detalhado, com explicação acessível ao paciente e à família.
O que pode mudar para pacientes, médicos e indústria
O caso exposto em 2026 tende a acelerar revisões de bula, inclusão de alertas mais visíveis e, em situações extremas, restrições de uso ou reavaliação do registro. Reguladores estudam medidas como sistemas obrigatórios de notificação, com prazos definidos, quando um mesmo tipo de dano comportamental é detectado em dezenas de pacientes. A pressão pública, alimentada por relatos dramáticos e perdas expressivas, torna mais difícil ignorar sinais de alerta.
Para os pacientes já em tratamento, a principal recomendação de especialistas é não interromper o uso por conta própria, mas procurar o médico diante de qualquer mudança brusca de impulso, gasto ou comportamento sexual. O episódio também recoloca no centro do debate a pergunta sobre quem, afinal, assume o risco quando um remédio que deveria estabilizar a vida passa a desorganizá-la. A resposta, que envolve sistemas de regulação, indústria, médicos e usuários, ainda está em disputa e define os próximos capítulos dessa controvérsia global.
