Brasil faz melhor campanha no bobsled e se despede de Bindilatti
O time brasileiro de bobsled de quatro homens conquista neste domingo (22) o melhor resultado do país em Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão-Cortina. O quarteto liderado por Edson Bindilatti termina em 19º lugar e supera a campanha de Pequim-2022, na despedida do veterano de 46 anos das pistas olímpicas.
Resultado histórico em uma modalidade improvável
O Brasil fecha a participação no bobsled com tempo total de 3min41s14 após quatro descidas na pista italiana. A marca garante a 19ª colocação e quebra o próprio recorde olímpico do país, que era o 20º lugar obtido há quatro anos, na China. A equipe é formada por Bindilatti, Davidson de Souza, Rafael Souza e Luis Bacca, combinação de experiência e renovação em um esporte distante da realidade climática brasileira.
A diferença que coloca o trenó verde-amarelo na história é mínima. O quarteto supera o Canadá por apenas dois centésimos de segundo, deixando para trás o time de Jay Dearborn, Yohan Eskrick-Parkinson, Luka Stoikos e Mark Zanette, que registra 3min41s16. Em uma prova decidida no limite da precisão, o avanço de uma posição representa anos de trabalho em pistas estrangeiras, longas viagens e treinos fora do radar do grande público.
A despedida de um símbolo do bobsled nacional
O domingo marca também o fim de um ciclo. Edson Bindilatti, principal nome da história do bobsled brasileiro, se despede das Olimpíadas de Inverno após seis participações, todas as edições em que o país esteve presente na modalidade. Aos 46 anos, ele encerra a carreira olímpica com o melhor resultado já alcançado pelo time que ajudou a construir desde o zero.
Na saída da pista, o piloto resume o peso do momento. “Essa competição foi sensacional. Estão os melhores do mundo. Ralamos bastante para chegar aqui. E chegar aqui e fazer o melhor resultado do bobsled do Brasil é um feito muito grande”, afirma ao sportv. A fala mistura alívio e orgulho de quem segura o trenó brasileiro desde os primeiros passos do projeto, ainda em condições precárias e com orçamento apertado.
Bindilatti olha para a nova geração e tenta afastar qualquer clima de fim de linha. “Só temos a evoluir. Esses meninos vão crescer de forma grandiosa, e quero estar por perto para ajudar esses atletas. A gente sabe que uma hora tem que acabar esse lado de alto rendimento. Eu me preparei para isso. O Brasil está em boas mãos”, diz. Ele será o porta-bandeira do país na cerimônia de encerramento, marcada para as 16h (horário de Brasília), reconhecimento simbólico de sua trajetória.
Na parte de cima da tabela, a Alemanha confirma o domínio tradicional. O trenó de Johannes Lochner, Thorsten Margis, Jorn Wenzel e Georg Fleischhauer leva o ouro. A prata fica com outro quarteto alemão, comandado por Francesco Friedrich, ao lado de Matthias Sommer, Alexander Schuller e Felix Straub. A Suíça de Michael Vogt, Andreas Hass, Amadou David Ndiaye e Mario Aeberhard completa o pódio com o bronze.
Impacto para o esporte de inverno brasileiro
O resultado em Milão-Cortina vai além de uma simples melhora estatística. O 19º lugar simboliza um salto técnico em um cenário onde o Brasil compete com países que dispõem de neve, infraestrutura de alto nível e tradição secular em esportes de inverno. Cada centésimo de segundo conquistado passa por temporadas inteiras em pistas europeias e norte-americanas, muitas vezes bancadas com recursos limitados.
O desempenho do bobsled se soma à medalha de ouro de Lucas Pinheiro Braathen no slalom gigante do esqui alpino e ajuda a redesenhar a imagem do Brasil nos Jogos de Inverno. O país encerra a edição de 2026 com a melhor campanha de sua história, agora com pódio em esporte de neve e melhor posição em esporte de gelo coletivo. Para confederações, patrocinadores e governo, o recado é direto: investir em modalidades de inverno deixa de ser apenas uma aposta exótica e passa a ter retorno esportivo concreto.
Para os atletas da equipe, a campanha em Milão-Cortina é vitrine e argumento. Os nomes de Davidson de Souza, Rafael Souza e Luis Bacca ganham mais peso em negociações por apoio, vagas em centros de treinamento e convites para temporadas completas no exterior. Na prática, o desempenho abre espaço para que o bobsled deixe de viver exclusivamente de ciclos olímpicos e tenha calendário competitivo regular, condição básica para qualquer salto de performance.
O que vem depois da melhor campanha da história
O próximo ciclo olímpico começa com duas certezas para o bobsled brasileiro: a ausência de Bindilatti no trenó e uma referência técnica ainda presente nos bastidores. O ex-piloto, que já atua como líder dentro e fora da pista, projeta participação mais intensa na formação de novos atletas e na interlocução com federações internacionais. O desafio passa a ser transformar a figura do veterano em estrutura permanente, com programas de base e planejamento de longo prazo.
A delegação brasileira deixa a Itália com números que pressionam por respostas. Uma medalha de ouro no esqui alpino, um 19º lugar inédito no bobsled e a sensação de que o país, mesmo sem neve, pode ocupar espaço competitivo em esportes de inverno. A continuidade desse movimento depende de decisões que extrapolam a pista: orçamento público, interesse privado, manutenção de equipes técnicas e calendário de competições. O resultado em Milão-Cortina aponta um caminho. Resta saber se o Brasil vai tratar este domingo como ponto fora da curva ou como o início de uma nova era sobre o gelo.
